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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Reflexos D’Alma: Quando o Melhor Plano é Não Ter Planos


Às vezes, tudo o que precisamos é de um lugar onde o mundo fique lá fora. Silêncio, campo, animais, piscina, um quarto confortável e tempo para não fazer absolutamente nada. No Reflexos D’Alma encontrámos isso e mais qualquer coisa: uma daquelas escapadinhas que acabam por superar aquilo que levávamos na expectativa.

O projecto Reflexos D’Alma nasceu de um sonho pessoal e familiar de Valter Águas, com quem tivemos oportunidade de conversar durante a nossa estadia e que nos contou um pouco da história por detrás do projecto. Depois de 17 anos em Angola, regressou a Portugal com a vontade de começar uma nova vida, mais ligada ao campo, à natureza e à hospitalidade. Um projecto pensado também como uma forma de encontrar a paz e a tranquilidade que procurava para si e para a família. 

Construído praticamente de raiz, o Reflexos D’Alma abriu portas em outubro de 2023, assumindo desde o início uma filosofia centrada num turismo rural de pequena escala, no contacto com a natureza, no sossego e numa relação próxima com quem por ali passa.

A propriedade dispõe apenas de seis suites, cada uma com a sua identidade, podendo também ser ocupada na totalidade, uma possibilidade que faz sentido para uma família ou para um grupo de amigos que queira ter o espaço por sua conta. No nosso caso, ficamos na unidade com jacuzzi, um quarto de boas dimensões e suficientemente espaçoso para que a estadia seja vivida sem aquela sensação, tão comum em alguns alojamentos, de que tudo foi pensado apenas para passar a noite.

Um quarto que merece uma referência à parte. É o único da propriedade com jacuzzi e, além das boas dimensões, tem uma decoração que foge ao convencional e que começa logo pela cama, de aspecto realmente impressionante. Depois surgem os pormenores, aqueles que ajudam a dar personalidade ao espaço: os cadeirões, a escolha dos elementos decorativos e, sobretudo, a bicicleta transformada em apoio ao lavatório, uma solução original que dá ao quarto um carácter muito próprio. Não é apenas uma questão de conforto; é um espaço onde se percebe que houve vontade de criar uma identidade e não simplesmente de mobilar um quarto.

Mas é quando saímos do quarto que começamos verdadeiramente a perceber a relação do conceito Reflexos D’Alma com o campo. A propriedade tem piscina, espaços exteriores para descansar, zonas destinadas a piqueniques e barbecue e, nos espaços preparados, encontramos os animais que fazem parte desta componente mais rural: galinhas, cabras, uma vaca, cavalos e patos. Não estão ali apenas como elemento decorativo de uma fotografia bonita. Fazem parte da própria identidade do lugar e ajudam a criar um ambiente diferente daquele que encontramos num alojamento convencional.
 
A piscina acaba naturalmente por ser um dos pontos de mais utilização durante os dias mais quentes como forma os que lá passamos. E foi também ali que surgiu um daqueles pequenos momentos que, apesar de aparentemente insignificantes, acabam por ficar na memória. A determinada altura, levaram-me um chá frio de frutos vermelhos para junto da piscina, sem que o tivesse pedido e sem qualquer custo adicional. É um pormenor, claro, mas é precisamente nestes pormenores que muitas vezes percebemos a diferença entre simplesmente disponibilizar um espaço e estar verdadeiramente atento a quem o está a utilizar.

Percebe-se que o Reflexos D’Alma não é apenas um negócio de alojamento, mas também o resultado de um projecto de vida, e isso acaba por se sentir na forma como somos recebidos e tratado. Mais do que juntar alojamento e natureza, procura criar um lugar onde o conforto e a privacidade convivem com uma forma mais simples e tranquila de estar no campo.
E existe ainda um detalhe que faz diferença: o Valter está muito presente no dia a dia do projecto. É uma presença natural, próxima, que ajuda a transmitir ao espaço um ambiente mais familiar e menos impessoal. 

A sua localizaçãoa também beneficia da proximidade de Estremoz. A cerca de dez minutos de carro, a cidade permite complementar facilmente uma estadia mais tranquila no campo com um passeio pela zona histórica, uma refeição num dos restaurantes locais ou uma visita ao mercado de sábado. Foi precisamente por Estremoz que passei durante esta experiência, aproveitando para andar pela cidade e descobrir um pouco melhor aquilo que existe para lá da propriedade.

No final, aquilo que fica do Reflexos D’Alma não é apenas o quarto, a piscina ou a possibilidade de passar uns dias no campo. É a combinação de tudo isso com uma forma de receber que se sente próxima e pouco artificial. A presença do Valter, os animais, os espaços exteriores e até aquele simples chá levado até à piscina acabam por construir uma experiência que não precisa de grandes artifícios para funcionar.

Talvez seja essa a melhor forma de resumir o Reflexos D’Alma: um projecto que nasceu de uma vontade pessoal, cresceu em torno do campo e encontrou na hospitalidade uma forma muito própria de receber quem por ali passa. Um lugar para abrandar o ritmo durante uns dias, conhecer Estremoz com outra calma e, sobretudo, sentir que do outro lado existe alguém verdadeiramente presente no projecto que criou.

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REFLEXOS D'ALMA 
Rural, Familiar, Férias, Luxo, Escapadinha
 
6 Suites (2 pessoas)
1 Villa Deluxe (6 pessoas)

Estacionamento: Gratuito
Restaurante: Não (apenas pequeno-almoço)

Morada: Estrada Nacional 372
               7100–712 ESTREMOZ

         
Telefone:  +351 268 011 718

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Júlio B. Bastos Grande Reserva Alicante Bouschet 2015 Tinto

JÚLIO B. BASTOS GRANDE RESERVA ALICANTE BOUSCHET 2015 TINTO | ALENTEJO | 13,5% | PVP  94€
ALICANTE BOUSCHET
JULIO BASTOS
18,5

A casta Alicante Bouschet encontrou no Alentejo um dos territórios onde melhor consegue mostrar a sua força, mas também a capacidade de fazer nascer vinhos com grande potencial de envelhecimento e complexidade. Estamos aqui perante uma expressão particularmente séria dessa relação, com berço em Estremoz, pensado para sair no momento julgado como certo e que apela à guarda. A pisa em lagares de mármore e estágio em barricas novas de carvalho francês ajudam a construir um tinto de grande estrutura, mas é sobretudo o tempo em garrafa que permite perceber a dimensão deste vinho. Neste caso, a prova trouxe uma semi-surpresa, pois embora já estivesse à espera e apesar dos anos passados, encontrei um vinho de enorme juventude, cheio de raça e com argumentos mais do que suficientes para continuar a envelhecer na garrafeira se resistirmos à tentação de o beber… não foi o caso.
A sua estrutura impressionante pede pratos à altura. A companhia foi um chuleton temperado apenas com umas pedras de sal, mas um bom bife grelhado, carnes de caça, borrego assado ou pratos de carne cozinhados lentamente serão também motivos de felicidade gastronómica. A minha escolha vai sobretudo para uma carne de sabor intenso, cozinhada sem demasiados artifícios, deixando que a fruta, a acidez e a estrutura da Alicante Bouschet façam o resto.
Cor ainda muito carregada, vermelho concentrado, com luminosa auréola mais aberta, aspecto límpido e jovem. No plano aromático, começa por mostrar um nariz profundo e concentrado, dominado pela fruta preta madura, ameixa e amora, a que se juntam notas balsâmicas, especiadas, cacau subtil e um discreto lado vegetal que lhe dá frescura. A madeira está presente, mas bem integrada na estrutura geral, contribuindo mais para a complexidade do que para se sobrepor à fruta. Na boca é onde mais impressiona a sua juventude, revelando-se cheio, musculado e com muita raça, dono de uma estrutura tânica firme, acidez suficiente para lhe dar equilíbrio e uma concentração de fruta que permanece muito viva, contribuindo para um conjunto denso, mas não pesado. Já não se apresenta austero, bruto e quase silencioso, como terá sido noutra fase da sua vida, mas está mais elegante, mais arrumado e com as diferentes componentes perfeitamente encaixadas, continuando cheio de vigor e vida. Termina com um final longo e persistente, deixando a sensação muito clara de que ainda não chegou ao seu ponto máximo de evolução. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Real Companhia Velha Royal Oporto Vintage 1977

REAL COMPANHIA VELHA ROYAL OPORTO VINTAGE 1977 | PORTO | 20% | PVP  100€ a 110€
TOURIGA FRANCA, TINTA RORIZ, TINTA BARROCA, TOURIGA NACIONAL
REAL COMPANHIA VELHA VINHOS
18

Quando falamos de Vinho do Porto, 1977 é um daqueles anos que ficou associado a uma colheita de grande qualidade, reconhecida entre os anos clássicos do Porto Vintage. É, por isso, particularmente interessante voltar a um vinho dessa colheita quase cinco décadas depois e perceber de que forma o tempo o transformou. 
Foi nesse contexto que provei o Real Companhia Velha Porto Vintage 1977, uma garrafa que me surpreendeu pela forma como chegou ao copo. Mais tímido e envergonhado a princípio, talvez porque não lhe demos a atenção devida numa abertura antecipada, rapidamente entrou em diálogo alegre connosco, mostrando poucos sinais de cansaço e revelando-se luminoso, complexo e, sobretudo, cheio de vida, num muito bom momento de forma.
À mesa, um Vintage com esta idade pede harmonizações que não lhe retirem protagonismo. Queijos de pasta azul, como Stilton ou Roquefort, são parceiros naturais, mas sugiro também que seja companhia acertada para sobremesas de chocolate negro, frutos secos, figos ou um simples bolo inglês pouco doce. Ainda assim, perante a complexidade, o equilíbrio que mostrou e o prazer que deu a beber, talvez a melhor companhia seja mesmo alguma conversa tranquila e tempo para o beber devagar. 
Visualmente atrativo, mantém a coloração vermelha, embora já desvanecida e com pouca densidade, mostrando agora nuances mais próximas das de um Colheita, com subtis tonalidades de âmbar jovem e alguns acastanhados. Luminoso e brilhante. Componente aromática profunda, complexa, com camadas distintas, mas num casamento feliz, marcado pelas notas mais terciarias e menos pela fruta, revelando notas de bolo inglês, frutos secos, especiaria exótica a temperar o conjunto, cardamomo, canela, bolacha americana de cacau, limpo, embora com o lado especiado a dominar o bouquet. Na boca encontra-se cheio de vida, em bom momento de forma, com acidez bem casada com a fruta, a doçura e o álcool, harmonioso, alguma fruta preta desidratada, ameixa, figo seco, mantém a pitada especiada e o registo mais fresco, menos denso, prazeroso a beber e comprimento final de boca extenso e duradouro.

sábado, 19 de setembro de 2026

Dona Berta Vinha do Avô Reserva 2023 Branco

DONA BERTA VINHA DO AVÔ RESERVA 2023 BRANCO | DOURO | 13,5% | PVP  30€
CÓDEGA, CÓDEGA DO LARINHO, VIOSINHO, GOUVEIO, MALVASIVA FINA, RABIGATO
HERNÂNI A. M. VERDELHO
17,5

Um vinho Especial - informa-se desde logo no contra-rótulo -, resultado de um ano difícil, mas cuja resiliência das vinhas, localizadas no coração da Quinta do Carrenho a cerca de 500 metros de altitude, centenárias e habituadas aos desafios do Douro Superior, souberam dar base para um vinho de memória.
Apesar de aberto ainda jovem, mostra-se um branco com estrutura, profundidade e capacidade de evolução, apostando nele para anos vindouros, onde o tempo fará a sua magia.
É um vinho que pede mesa. Peixe grelhado, robalo ou dourada no forno, bacalhau, arroz de peixe ou marisco são escolhas naturais. Devido à proximidade, não deixo de pensar nele para o casar com o peixe do rio, seja frito ou assado no forno.
Cor amarela citrina definida, intenso e brilhante, aspecto límpido e jovem. No plano aromático começa por mostrar-se bastante expressivo, mas sem excessos, mantendo uma linha de elegância e frescura onde surgem aromas de fruta branca e de caroço, como maçã, pera e uma sugestão de pêssego, acompanhados por notas cítricas que lhe dão frescura. Aos poucos aparecem também apontamentos florais e um lado mais mineral, quase pedregoso, que contribui para a sensação de profundidade. A passagem parcial por madeira está bem integrada, acrescentando volume e alguma complexidade aromática sem se sobrepor ao carácter da fruta. Na boca ganha outra dimensão. A acidez dá-lhe frescura e tensão, mas existe também uma textura envolvente e cremosa, com um volume que impede que o vinho se torne apenas mais um branco fresco do Douro. A fruta reaparece com boa definição, acompanhada por uma ligeira sensação mineral e por uma estrutura que sustenta bem o conjunto. O final é persistente, seco e equilibrado, deixando uma agradável combinação entre frescura, textura e complexidade.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Luis Pato Vinha Pan Bruto 2021 Branco

LUIS PATO VINHA PAN BRUTO 2021 BRANCO | BAIRRADA | 12% | PVP  26 €
BAGA
LUÍS PATO UNIPESSOAL, LDA
17,5

O nome Luís Pato está há muito ligado à Bairrada e, sobretudo, à capacidade de mostrar a Baga em diferentes registos. Este vinho segue precisamente essa ideia, levando a casta para o universo dos espumantes e fazendo dela a protagonista de um vinho de carácter bem definido. Proveniente da Vinha Pan, com uma abordagem de pouca intervenção, 100% Baga e cerca de 30 meses de estágio em garrafa. Perfil bem seco e tenso, faceta gastronómica fugindo da ideia de espumante de entrada.
Esta acidez e a secura fazem-no particularmente adequado para mariscos, ostras, percebes e peixe grelhado, mas também para pratos de maior intensidade, como bacalhau à Brás, arroz de peixe ou frituras de peixe. A Baga deu-lhe estrutura suficiente para acompanhar uma tábua de enchidos, presunto e queijos de forma irrepreensível.
Cor amarela com tonalidade alperce, acobreado muito luminoso e aberto, bolha fina e cordão persistente. No nariz lugar aos citrinos, sobretudo casca de limão, alguma fruta de caroço de perfil mais contido e notas que lembram ervas aromáticas, com uma componente mineral e ligeiramente salgada a dar-lhe dimensão. Na boca confirma a frescura que a Baga consegue transmitir neste contexto, com acidez firme, secura bem marcada, espuma leve e fina, estrutura que lhe dá presença sem o tornar pesado, com um final de boca ligeiramente austero, persistente e fresco. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Monte Cascas Vinha da Carpanha 2014 Tinto

MONTE CASCAS VINHA DA CARPANHA 2014 TINTO | DÃO | 14% | PVP  53€
JAEN, TOURIGA NACIONAL
CASCA WINES - PRODUÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DE VINHOS, SA
17,5

O tempo tem uma forma muito própria de revelar aquilo que um vinho guarda dentro de si e, neste caso, são já doze anos desde a vindima da vinha velha de Penalva do Castelo, no Dão - Vinha da Carpanha -, plantada entre 1920 e 1930 e situada a mais de 500 metros de altitude. Um vinho de parcela, feito a partir de jaen e touriga nacional, num terroir marcado pelo granito, pela presença de um filão de xisto e pela altitude. 
Mostra-se com elegância. A fruta já não está sozinha, foi ganhando companhia nas notas balsâmicas, minerais, terrosas e especiadas, mas a frescura continua bem presente e dá equilíbrio ao conjunto. Bebeu-se com enorme prazer e que deixou claro que o tempo, quando bem aproveitado, pode ser um excelente aliado.
No prato pede-se complexidade, profundidade e tempo. Borrego assado, estufados de caça, carnes vermelhas ou pratos de forno. E, estando já nesta fase de evolução, também o colocaria à mesa com queijos de pasta dura, particularmente um Serra da Estrela de meia cura.
Cor vermelha ainda com reflexos rubi, aparecendo nuances tijoladas, mantendo a tez mais jovem do que o esperado,  aspecto límpido e brilhante. Aroma exuberante e complexo, com a fruta vermelha e preta num bom casamento com as notas da passagem por barrica e do tempo, bergamota, violetas secas, mirtilo e outras bagas escuras, lado mais quente e doce, subtil bolo de chocolate, especiaria, balsâmico, nota de bosque, discreto terroso, atrai pela harmonia e gulodice. Boca de médio volume, estrutura ainda firme, num registo mais leve e elegante do que o vendido no plano aromático, fruta fresca mais integrada no conjunto com terciários mais presentes, algum couro, acidez bem pontuada, vivaz no conjunto, macio textura, tanino polido e redondo, a convencer em plena na prova de boca, terminando longo, equilibrado e sedutor.



sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Quinta da Moscadinha | Novos Caminhos para a Sidra Madeirense

Na Quinta da Moscadinha, na Camacha, a maçã não é apenas matéria-prima. É o ponto de partida para um projecto com o qual tive o primeiro contacto há cerca de pouco mais que um ano e que tem vindo a recuperar pomares antigos, alguns deles esquecidos durante décadas, e a procurar novas formas de trabalhar uma fruta que faz parte da história da Madeira. Pela mão de Márcio Nóbrega, produtor e proprietário da quinta, a tradição da Sidra na Ilha tem ganho novas interpretações, sem perder a ligação ao território e às variedades que lhe dão identidade.
O regresso à Quinta da Moscadinha acontece, recentemente, por ocasião da apresentação de três novidades que mostraram precisamente essa vontade de experimentar e de ir mais longe, nunca perdendo a linha condutora à tradição e à história.  É neste contexto que nasce a Ancestrale, uma sidra criada a partir de 98 variedades de maçã; a Altitude, uma rara sidra de pera produzida pelo método clássico; e a primeira Aguardente de Maçã da Quinta da Moscadinha.

A história começa, naturalmente, pela maçã. A Madeira conta com cerca de 135 variedades, embora apenas 42 estejam catalogadas, e foi precisamente essa diversidade que esteve na origem da Ancestrale. Durante a apanha de 2023, a equipa da Quinta da Moscadinha foi separando maçãs que não reconhecia entre as variedades normalmente utilizadas nos seus lotes. No final, todas acabaram reunidas numa mesma produção, dando origem a apenas 400 garrafas.
O resultado é uma sidra que pretende ser mais do que uma bebida, mas também uma espécie de retrato da diversidade dos antigos pomares madeirenses. Na segunda fermentação em garrafa foi utilizado o próprio mosto de maçã para o licor de tiragem, uma opção que procura manter a fruta e a sua origem no centro da expressão da sidra. 

QUINTA DA MOSCADINHA ANCESTRALE 2025 | NATURALLY SPARKLING - TRADITIONAL | 8,5 % | PVP 22€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS (98)
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
17,5
Cor amarela em tonalidade dourada, brilhante e atractiva, revelando uma expressão muito própria, oferencendo no aroma, a maçã em diferentes registos, entre fruta fresca e alguma componente mais madura, com notas que lembram pomar e casca de maçã, não fugindo do registo de frescura, mas adicionando riqueza ao bouquet. A boca é seca, tensa e refrescante, com uma acidez bem marcada e bolha, mais uma vez, muito delicada e envolvente, que se mostra sem se sobrepor à fruta. Final longo e prazeroso, mais gastronómica do que simplesmente refrescante, e que beneficia claramente de ser bebida com atenção. 

A segunda novidade levou-me para outro território. Uma sidra de pera, ou perry, produzida a partir de um antigo pomar situado a 1100 metros de altitude, considerado o mais alto da Ilha. Apesar de não ser uma fruta fácil para trabalhar em sidra pois apresenta baixa acidez, poucos nutrientes,  açúcares não fermentáveis e rendimento reduzido, a descoberta deste pomar e de uma variedade que se presume ser Conference, embora já revele sinais de hibridação, levou a Quinta da Moscadinha a experimentar. E em boa hora o fez.  Sem dúvida uma incursão pouco habitual no universo sidreiro madeirense, mas que resulta e, sobretudo, nos mostra uma forma diferente de olhar para outras frutas para além da maça. 

QUINTA DA MOSCADINHA ALTITUDE 2025 | NATURALLY SPARKLING - TRADITIONAL | 8,5 % | PVP 22€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
17
Cor amarelo citrino, bolha fina e persistente, revelando na componente aromática a fruta branca e de pomar, pitada floral e sempre com nota de frescura muito evidente. Na boca é delicada e elegante, secura média, com acidez firme e uma bolha fina, com subtil espuma, que ajuda a prolongar a prova. A pera deixa uma expressão diferente da maçã, menos directa e mais subtil, ligeira doçura, embora equilibrada e com boa persistência final. 

A terceira novidade muda completamente de registo e entra no território dos destilados. A Aguardente de Maçã resulta da destilação de 2500 litros de sidra, que deram origem a apenas 216 litros de aguardente. Depois, passou três anos em barricas usadas de carvalho francês, antes de chegar ao mercado em 504 garrafas numeradas de 500 ml. A Quinta da Moscadinha chama-lhe o primeiro “rum” de maçã da Ilha, embora a própria designação não possa ser utilizada comercialmente, uma vez que “rum agrícola” corresponde a uma denominação protegida. No entanto, mais importante do que o nome é, neste caso, o caminho feito até ao resultado: partir da maçã madeirense, transformá-la em sidra, destilá-la e deixá-la evoluir durante três anos em madeira. O resultado está incrível.

QUINTA DA MOSCADINHA AAGUARDENTE DE MAÇA SC 2023 | DISTILADA | 45,8 % | PVP 120€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
18
Cor âmbar jovem, reflexos dourados, luminosa e atrativa. Plano aromático completamente diferente revelando uma expressão mais quente e profunda, com a fruta madura a surgir acompanhada por notas de madeira, especiarias e uma componente ligeiramente tostada, com o fruto seco torrado em fina aparição, mais complexidade e desafio. Na boca é envolvente, mas mantém uma boa definição, com a maçã a continuar presente por baixo da madeira e do álcool, textura macia e aveludada e com término de boca longo e ligeiramente especiado. Para beber com tempo e apreciar.

Oportunidade ainda para voltar a provar as Quinta da Moscadinha Sparkling e a TN do mesmo lote (2024) já provadas anteriormente e a Quinta da Moscadinha Madeira Royal Cider Meia Doce já de lote mais recente, mas que mantém o mesmo perfil da anterior.

QUINTA DA MOSCADINHA MADEIRA ROYAL CIDER MEIO DOCE 2024 | FORTIFIED | 14 % | PVP 60€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
JOSÉ MÁRCIO RODRIGUES DE NÓBREGA UNIPESSOAL, LDA
18
Cor âmbar, ligeiramente mais escura que a anterior, aspecto límpido e atraente.  Revela perfil aromático intenso e envolvente, no qual surgem frutos secos, casca de laranja e compota, acompanhados por notas de madeira e uma discreta componente evolutiva que lhe acrescenta complexidade. Muito similar à anterior. Na boca é doce, mas equilibrada pela acidez, evitando a sensação pesada que poderia resultar do teor de açúcar. A textura é cheia e envolvente, com a madeira a marcar presença sem apagar a expressão da fruta. O final é persistente, quente e novamente marcado pelos frutos secos e pela casca de laranja.

No final percebemos que as três novidades têm em comum a dimensão limitada, mas sobretudo uma mesma filosofia. A de olhar para os pomares antigos não como património estático, mas como matéria viva, capaz de continuar a dar origem a novos produtos. 
É uma abordagem que Márcio Nóbrega tem desenvolvido através da recuperação de pomares antigos e abandonados na Camacha e noutras zonas da ilha, muitas vezes em colaboração com agricultores locais e proprietários de terrenos que estavam sem utilização e, talvez seja essa uma das particularidade mais interessantes pela qual nos apaixonamos por este projecto.
A sidra aqui não aparece isolada da paisagem ou da história. Cruza-se com a recuperação agrícola, com o turismo e com a gastronomia, numa quinta que mantém também uma unidade de sidroturismo com 11 quartos e a Adega do Pomar, restaurante de cozinha tradicional madeirense e portuguesa, liderado pelo chef Fábio Vieira que nos preparou uma ementa de ligação à prova cheia de sentido.

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QUINTA DA MOSCADINHA

Caminho Municipal dos Caboucos, N° 19
9135-378 CAMACHA
Contactos: +351 291 648 170 / 965 734 265

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Monte da Peceguina 2025 Rosé

MONTE DE PECEGUINA 2025 ROSÉ | ALENTEJO | 12,5% | PVP  14,50€
ARAGONEZ, TRINCADEIRA
HERDADE DA MALHADINHA NOVA, SA 
16,5

Os dias continuam longos, quentes e a aceitar que um vinho rosé a privilegiar a expressão da fruta, numa abordagem limpa, directa e fresca, seja companhia bem escolhida tanto para a mesa como para momentos em que apenas apetece beber um bom rosé. Aqui encontro um belo exemplar deste conceito,  particularmente versátil à mesa, mas também, justamente, para qualquer momento. Gosto de o imaginar com peixe grelhado, marisco, ceviches, saladas com alguma complexidade, massas de inspiração mediterrânica ou pratos onde ervas aromáticas e legumes tenham presença. Se a ideia for petiscos e entradas também temos conversa e, sobretudo quando servido fresco, funcionará com naturalidade como vinho de início de refeição.
Cor rosa-claro com tonalidade salmão luminosa e subtil, aspecto límpido, jovem e atractivo. Componente aromática com boa intensidade, marcado pela fruta vermelha fresca, com uma expressão limpa e convidativa, onde a componente frutada surge acompanhada por notas florais e uma sensação de frescura que o torna muito apelativo. Na boca confirma essa leitura, mostrando equilíbrio entre fruta e acidez, com uma textura elegante e uma passagem de boca fresca e envolvente, afastando-se de um registo mais pesado e de exuberância desnecessária, seguindo antes uma combinação de leveza, frescura e precisão que o faz terminar seco, persistente e com vontade de voltar ao copo.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Carvalhas 2020 Branco

CARVALHAS 2020 BRANCO | DOURO | 13% | PVP  29,90€
GOUVEIO, VIOSINHO
REAL COMPANHIA VELHA, SA
18

Passados já seis anos após a colheita fui recentemente surpreendido pela forma como o tempo assentou neste branco da Real Companhia Velha. Mantém uma expressão luminosa, fresca e muito viva, mas já revela uma complexidade que vai mais além da fruta primária. A nota da passagem pela barrica, bem presente no seu percurso, aparece agora perfeitamente integrada, enquanto a acidez continua a dar-lhe nervo e equilíbrio. Um branco duriense que mostra como algumas referências ganham ainda mais interesse quando deixadas evoluir em garrafa e descobrimos que nem perderam a identidade nem a frescura que lhes deram origem.
À mesa brilha. Poderia ficar somente por esta afirmação, mas acrescento que estamos perante um daqueles brancos que permitem alguma latitude no prato. Peixe assado no forno, robalo ou dourada grelhados, mariscos, arroz de tamboril ou mesmo um bacalhau de preparação mais simples serão boas companhias. 
Cor amarela citrino definido, luminosa e brilhante, nuances esverdeadas, aspecto límpido e ainda pouco demonstrador da sua idade. No nariz surge exuberante e vivaz, dominado pelo fruto citrino e de pomar, com notas de pêssego, limão e mel, acompanhadas por pimenta branca e uma sugestão mineral de pedra lascada. A barrica, que faz parte do perfil deste vinho, está agora muito bem integrada, presente, mas sem se impor, contribuindo mais para a complexidade do conjunto do que para uma marca evidente de madeira. É um nariz rico, complexo e muito expressivo.
Em boca revela volume e corpo, mas mantém uma elegância que impede que o conjunto se torne pesado, mostrando uma bela textura e uma presença subtil da barrica, com entrada com pés de veludo, quase sedoso, mas rapidamente ganha tensão através de uma acidez crocante, vibrante e cheia de nervo, mostrando-se envolvente, com prolongamento e uma persistência muito convincente, terminando longo e fresco. Um branco que aos seis anos demonstra uma evolução muito equilibrada, conservando fruta, frescura e vivacidade enquanto acrescenta complexidade e profundidade. Grande final.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Código Granius 2024 Branco

CÓDIGO GRANIUS 2024 BRANCO | DÃO | 12% | PVP  18€
MALVASIA FINA, BICAL
NO RULES WINES, LDA
17,5

A recente conquista do título de Master of Wine pelo Tiago Macena deu-me um bom pretexto, como se fossem precisas justificações solenes, para voltar a olhar com atenção para os vinhos em que coloca o seu conhecimento e a sua forma de entender o Dão. O Código Granius Branco 2024 chegou-me ao copo com essa curiosidade adicional, mas acabou por valer sobretudo pelo que encontrei dentro da garrafa. Malvasia-Fina e Bical, granito, frescura e uma acidez que dá ao vinho uma energia muito própria, complementada por uma maior precisão que o 2022 que também provei no passado. Deixou-me a sensação de um branco que sabe exactamente o que quer ser. Fresco, directo e gastronómico, sem procurar mais protagonismo do que aquele que a sua origem e as castas lhe impõem. 
À mesa também vamos por este caminho mais directo sugerindo o peixe grelhado, o marisco, saladas e ceviches mais compostos. A cozinha regional portuguesa onde o azeite e o peixe mais gordo têm papel de destaque também serão escolha acertada.
Cor amarela citrino aberta, luminosa e brilhante, nuances esverdeadas, aspecto límpido e jovem. No plano aromático encontramos um bouquet marcado pelo granito, no qual as notas de pedra lascada, chão molhado e subtil fósforo,  se entrelaçam com as notas de fruta citrina e de pomar, limonado, fina componente vegetal, pederneira, rico e desafiante, embora elegante e fresco. Boca de médio volume, com cremosidade envolvente, textura macia, com acidez vibrante e vivaz, ficando a trabalhar horas extra, conjunto muito equilibrado entre a fruta e a componente mineral, registo preciso, imperando o equilíbrio, a vivacidade e o nervo que lhe dá impulsão, limpando tudo e com final de boca longo, persistente e elegante. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Quinta da Extrema Edição II 2017 Branco

QUINTA DA EXTREMA EDIÇÃO II 2017 BRANCO | DOURO | 12,5% | PVP  34,90€
ENCRUZADO, RABIGATO
COLINAS DO DOURO SOCIEDADE AGRÍCOLA, LDA
18

No meu copo está um daqueles brancos durienses que ajudam a desmontar a ideia de que os grandes vinhos da região têm necessariamente de ser tintos e que os brancos são para beber jovens. O produtor indica-o como um vinho pensado para evoluir vários anos em garrafa. E assim é. Se não contar com as boas particularidades do tempo de espera – 9 anos -, o vinho está como novo. Tendo em conta que vos estou a falar de um 2017, acho particularmente interessante o facto de todas as minhas notas continuarem a apontar para frescura, tensão e capacidade de continuar em evolução. Classifico-o como o tipo de branco que vale a pena beber com alguma atenção - e não demasiado frio -deixando-o respirar no copo e que fale connosco.
À mesa pede comida com alguma complexidade. Peixe assado, bacalhau, marisco, aves ou mesmo pratos de cogumelos estarão à altura da sua textura e acidez. Com pratos mais delicados, a sua elegância pode sobressair e com pratos com alguma gordura, a acidez ganha ainda mais sentido.
Cor amarelo citrino com tonalidade palha, mostrando ainda reflexos esverdeados e aspecto jovem, límpido e brilhante. No plano aromático compro que o tempo parece ter-lhe feito particularmente bem. Mantém um perfil muito elegante e contido, com citrinos, toranja, maçã e notas de pedra lascada, sílex, acompanhadas por nuances discretas de pastelaria e madeira. Tudo muito fino e harmonioso. Não é um vinho exuberante que procura impressionar pela intensidade aromática, a sua força está precisamente nesta subtileza e definição. Na boca mostra-se cremoso, amplo e tenso, com uma acidez muito viva que lhe dá nervo e prolonga todo o conjunto, oferecendo boa textura, mas também uma componente crocante e mineral que impede qualquer sensação de peso extra. O final é longo, persistente e surpreendentemente fresco para um branco com esta idade.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Adega de Borba Reserva 2022 Tinto

ADEGA DE BORBA RESERVA 2022 TINTO | ALENTEJO | 14% | PVP  9,99€
ALICANTE BOUSCHET, ARAGONEZ, CASTELÃO, TRINCADEIRA
ADEGA COOPERATIVA DE BORBA, CRL
17
 
Este vinho conta com um ponto de interesse muito único: o Rótulo de Cortiça. Desde sempre o associei à Adega de Borba, como provavelmente todos os que alguma vez o beberam ou o conhecem e, apesar de ser um vinho de produção relativamente volumosa, consegue manter uma identidade muito própria. 
Não procura impressionar pela concentração ou pela presença da barrica, mas antes pelo equilíbrio entre fruta, estrutura e uma acidez que lhe garante frescura. Para além disso, é também um daqueles vinhos em que a relação entre preço e qualidade continua a ser motivo de destaque. 
À mesa tira partido da sua enorme versatilidade e proporciona companhia feliz para o borrego assado, as carnes vermelhas no forno, o entrecosto na grelha ou em pratos tradicionais alentejanos.
Cor vermelha rubi definida, concentrado, auréola luminosa, aspecto límpido e jovem. No plano aromático revela-se fino e elegante, dominando os frutos pretos maduros e alguma compota, com notas de chocolate e um subtil lado especiado resultante do estágio em madeira, fino balsâmico e leve recorte fumado. Na boca mostra-se macio, de corpo médio, com a fruta madura bem presente e uma ligeira adstringência que lhe dá estrutura e secura salivante que acaba por nos pedir comida, tanino polido, mas suficientemente firme para dar definição ao conjunto, enquanto a acidez mantém o vinho equilibrado e evita que a fruta se torne pesada. Termina com alguma elegância, deixando uma sensação a boa fruta e ligeiramente especiada. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Borgogno Barolo Riserva 2014 Tinto

BORGOGNO BAROLO RISERVA 2014 TINTO | PIEMONTE (ITA) | 14% | PVP  169€
NEBBIOLO
GIACOMO BORGOGNO & FIGLI
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Um Barolo de enorme elegância e carácter, onde a evolução começa agora a revelar toda a complexidade que o longo estágio em madeira – 6 anos - e o tempo de garrafa procuraram preservar. Não encontrei um vinho de impacto imediato, antes um vinho para se levar à mesa, dar-lhe tempo e perceber como a fruta, as especiarias, as notas balsâmicas, a acidez e o tanino vão sucessivamente aparecendo no copo, quase que por camadas temporais. Passados cerca de doze anos, está num ponto muito interessante de consumo, embora não tenha qualquer dúvida de que irá continuar o seu caminho em garrafa durante muitos mais anos. 
Um Barolo de perfil clássico, construído mais sobre a elegância, a frescura e a capacidade de envelhecimento do que sobre a concentração ou a exuberância. 
É daqueles vinhos que pedem comida com alguma estrutura, mas sem excessos. Um risotto de cogumelos, ossobuco ou carnes de caça são escolhas naturais. No nosso caso, o pairing ocorreu com o Risotto de Rabo de Boi “Rossini” com Pera Rocha no qual a acidez e os seus taninos encontraram gordura e intensidade suficientes para um momento de equilíbrio e grande prazer. 
Cor rubi com ligeiros reflexos granada, média concentração, luminoso e de aspecto límpido e hipnotizante. No plano aromático começa tímido e delicado, mas vai ganhando dimensão com algum tempo no copo, revelando cereja vermelha, frutos silvestres, flores secas, ervas aromáticas, especiarias e notas de alcaçuz, a que se juntam sugestões balsâmicas e um lado terroso muito fino e elegante. Na boca apresenta-se de entrada firme, acidez viva e muito bem integrada, tanino presente, mas já mais polidos e menos duros, com uma textura que privilegia a elegância em vez do peso e com a fruta vermelha muito bonita temperada com especiaria, notas balsâmicas e uma componente mineral e ligeiramente salgada que parece surgir apenas no final de tudo. Termina longo, fresco e persistente.

domingo, 30 de agosto de 2026

Lacourte Godbillon Mi-Pentes Premier Cru Extra Brut

LACOURTE GODBILLON MI-PENTES PREMIER CRU EXTRA BRUT BRANCO | CHAMPAGNE (FRA) | 12% | RM | PVP  68€
PINOT NOIR
LACOURTE GODBILLON
Dégorgement 11/2021
17,5

Conquista pela elegância, pela precisão e pela forma como o tempo lhe foi acrescentando novas dimensões. Encontrei-lhe a curiosidade de ter as uvas de pinot noir, que lhe dão vida, provenientes de parcelas de meia encosta - Mi-Pentes -. em Écueil, na Montagne de Reims, sendo que a sua base é da colheita de 2017, complementada por 30% de vinhos de reserva e, nesta edição, o vinho permaneceu cerca de 41 meses sobre as borras antes do dégorgement, já em novembro de 2021, com dosage muito baixo de 3 g/l. Não é 0, mas é muito próximo.
É precisamente essa combinação entre fruta, tempo e secura que mais me atraiu,  encontrando um Champagne com algum volume e sensação de riqueza, mas sem a sensação adocicada, antes com elegância através da precisão, da textura e de uma mousse delicada, deixando que o carácter do pinot noir e a evolução sobre as borras acrescentem profundidade.
Aqui fugiria um pouco ao cliché das ostras e da posposta para início de refeição. É um Champagne com estrutura e secura suficientes para acompanhar pratos principais e não apenas para servir de aperitivo ou entrada. Penso em marisco, ostras, peixe cru, carpaccios, peixe grelhado e aves, mas também em pratos onde a componente cremosa ou de forno encontre contraponto na acidez e na secura do vinho. E se for no final, só mesmo para terminar, limpa os sentidos e a alma.
Cor amarela definido e intenso, brilhante e luminoso, ainda com face jovem, bolha fina e de cordão persistente. No nariz é a componente de panificação que primeiro aparece, muito evidente e envolvente, lembrando pão acabado de cozer, brioche e notas de massa fina, até mesmo subtil fruto seco torrado, a que se juntam apontamentos de frutos citrinos e de polpa branca, alguma fruta mais madura e uma dimensão evolutiva muito bonita, com pitada floral e giz molhado, sem que o vinho perca frescura ou definição. Na boca oferece uma mousse é leve, fina e muito bem integrada, que nos invade e envolve o palato sem criar qualquer sensação de peso,  grande elegância, onde a secura se afirma de forma vincada, tornando a prova muito precisa e limpa, acidez sempre presente, firme e refrescante, prolongando a sensação de frescura e dando equilíbrio ao conjunto. A fruta aparece mais discreta, deixando que as notas de panificação e a componente mineral assumam maior protagonismo. O final é seco, persistente e muito elegante, limpando o palato de forma incrível.

sábado, 29 de agosto de 2026

Kimbrel Laurioza 2022 Tinto

KIMBREL LAURIOZA 2022 TINTO | DOURO | 12,5% | PVP  74,50€
FIELD BLEND
KIMBREL WINE COMPANY UNIP, LDA
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Se encontramos projectos no Douro que nascem com a ambição de fazer grandes quantidades de vinho, outros há cujo objectivo passa por fazer nascer precisamente o contrário. A Kimbrel, projecto duriense muito recente, pertence a este segundo grupo, apostando desde o início numa leitura mais próxima da vinha, dos seus lugares e das pequenas parcelas que compõem uma propriedade. O projecto instalou-se, em 2022, na histórica Quinta do Roncão, no Vale do Roncão, uma propriedade datada de 1851 e com cerca de 12 hectares de vinha, onde a presença de vinhas velhas e de muitas castas diferentes constitui uma das suas maiores riquezas. A produção é deliberadamente pequena e orientada para micro-lotes.
O Laurioza 2022 nasce precisamente dessa filosofia. É um field blend que mostra que a elegância também pode nascer de uma região tantas vezes associada à potência,  optando por uma extracção muito ligeira, oferecendo mais delicadeza e expressão da fruta, num relacionamento de equilíbrio entre todas as partes.
À mesa buscamos de imediato as carnes assadas, caça de pelo, cabrito, pratos de forno e cozinha tradicional duriense.
Cor vermelho rubi de média concentração, tonalidade granada, luminoso, brilhante e jovem. No plano aromático a fruta vermelha madura e vibrante mostra-se de imediato, num registo mais carnudo e menos floral e mato seco, à qual se junta a especiaria e subtil componente vegetal, balsâmicos frescos e subtil folha de eucalipto em fundo. Conquista verdadeiramente na boca, com muita elegância e energia ao mesmo tempo, volume médio, de textura mais delicada, evitando o caminho do peso e rusticidade por vezes desproporcional, revelando acidez vibrante, secura salivante que se afirma passo a passo, fruta fresca bem definida, fruto de bago, silvestre, com tanino polido, mas firme, maior profundidade e mais sedutor, resultando num belo conjunto, prazeroso, fresco e de longo final.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Kopke e Burmester Vintage 2024: Duas Leituras de um Grande Ano


Dois Vintage, o mesmo ano, dois perfis. O Kopke mais concentrado e estruturado; o Burmester mais elegante e expressivo. Ambos, porém, com aquilo que mais interessa num Vintage: frescura, equilíbrio e vislumbre de tempo pela frente.

No mundo do vinho e mais particularmente do Vinho do Porto, há anos que nos ficam na memória pelos vinhos que fazem nascer. A colheita de 2024 no Douro parece querer ser um deles quando olhamos para os Porto Vintage 2024 que aos pouco começam a ser apresentados. É o caso do lançamento conjunto dos novos Vintage da Kopke e da Burmester que vêm confirmar esta ideia de que poderemos estar perante um ano particularmente fabuloso para o Vinho do Porto. 
O inverno e a primavera amenos e chuvosos deram às vinhas boas reservas para enfrentar um verão quente e seco, enquanto as noites frescas e a descida das temperaturas durante a vindima permitiram uma maturação mais progressiva e equilibrada. O resultado foi matéria-prima com excelente sanidade e uma combinação particularmente feliz entre concentração, frescura e estrutura, ou seja, precisamente aquilo que se procura num Vintage com a ambição de guarda durante muitos anos.
Depois de alguns anos sem uma declaração clássica destas duas casas, o regresso acontece agora com dois vinhos que partem das mesmas condições de um ano vitícola muito equilibrado, mas que chegam ao copo com personalidades bem distintas.

Ambos assinados por Carlos Alves, Master Blender do Kopke Group, estes dois vinhos não procuram ser iguais, mas antes representar duas leituras diferentes do mesmo Douro, mas com a matéria-prima de vinhas com diferentes localizações. O Kopke Vintage 2024 nasce na Quinta de São Luiz, no Cima Corgo, enquanto o Burmester Vintage 2024 tem origem na Quinta do Arnozelo, no Douro Superior. São dois lugares com características próprias, diferentes altitudes, exposições e condições de maturação, e essa identidade da vinha acaba inevitavelmente por deixar a sua marca no vinho. A própria Quinta de São Luiz reúne parcelas a diferentes altitudes e exposições, enquanto o Arnozelo, situado na margem esquerda do Douro, beneficia de um microclima muito próprio do Douro Superior. Sem dúvida, uma das coisas que mais me fascinam no vinho. O mesmo ano, a mesma mão, a mesma chancela e a mesma região, mas o terroir de nascimento diferente dentro da própria região e temos filhos do mesmo ano a contar histórias diferentes.

A possibilidade de os provar lado a lado tornou este primeiro contacto particularmente interessante. Longe de procurar diferenças para saber qual é o melhor, interessou-me perceber o que cada casa fez com um ano que lhes deu matéria-prima para construir vinhos de grande profundidade e longevidade. Naturalmente, encontrei dois Vintage ainda muito jovens, mas já suficientemente expressivos para deixarem perceber a sua identidade e, sobretudo, para me fazer imaginar aquilo que poderão vir a mostrar depois de alguns anos de garrafa.

KOPKE VINTAGE PORT 2024
| PORTO | 20% | PVP 90€
VINHAS VELHAS
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Cor rubi muito profunda, densa e carregada, lágrima chorosa, revelador de juventude. No plano aromático começa mais tímido, quase reservado, como se precisasse de tempo para revelar tudo aquilo que tem para oferecer, mas rapidamente abre no copo, mostrando fruta preta e vermelha madura, notas de especiaria e apontamentos mais profundos, entre sugestões de cacau, ervas e uma discreta componente mentolada. Um perfil rico e complexo, que ganha claramente com o tempo e com a temperatura do vinho no copo. Na boca é onde o sentimos verdadeiramente e onde ele se afirma, com carácter, revelando uma estrutura impressionante e uma densidade que lhe dá profundidade, mas sem perder a frescura que considero uma das suas maiores virtudes. A fruta surge concentrada e madura, envolvida por taninos firmes, de enorme potencial, e por uma acidez muito bem vincada que percorre toda a prova e impede que o conjunto se torne pesado. Há volume, há estrutura, há concentração, mas há também muita frescura e uma energia que nos lembra que estamos perante um vinho ainda muito jovem. O final é longo, profundo e persistente, deixando uma combinação de fruta, especiaria, frescura e estrutura que promete uma evolução muito séria em garrafa.
 
BURMESTER VINTAGE PORT 2024
| PORTO | 20% | PVP  80€
TOURIGA NACIONAL, TOURIGA FRANCA, TINTA RORIZ, ALICANTE BOUSCHET
18,5
Cor vermelho rubi muito profunda, quase impenetrável no centro, opaco, lágrima marcada, aspecto límpido e jovem . No nariz apresenta-se desde logo mais aberto e expressivo, num registo de grande elegância, onde as notas florais surgem quase em primeiro plano, acompanhadas por fruta vermelha e preta de perfil fresco e algumas sugestões de esteva, num bouquet gracioso e delicado, que vai ganhando dimensão à medida que permanece no copo, revelando progressivamente maior profundidade. Na boca confirma o registo elegante que o aroma já deixava perceber, mostrando-se, num primeiro ataque,  fresco, envolvente e harmonioso, com uma acidez vivaz e bem marcada que lhe dá tensão, dinamismo e equilíbrio, com a fruta bem presente, acompanhada por tanino firme, ainda jovem, mas já com uma textura bastante polida. Sente-se algum calor, sobretudo no final de boca, mas sem comprometer o equilíbrio geral do vinho. É um Vintage que se mostra bonito, expressivo e muito apelativo desde já, mas que está ainda claramente no início do seu percurso. Termina fresco, longo e elegante, deixando uma sensação de harmonia que convida a voltar ao copo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Grandjó Late Harvest 2021 Branco

GRANDJÓ LATE HARVEST 2021 BRANCO | DOURO | 12% | PVP  37,50€
SEMILLON
REAL COMPANHIA VELHA, SA
18,5

Sempre que o Grandjó Late Harvest me chega ao copo cresce em mim um misto de ansiedade e nervoso miudinho que me assalta os sentidos de forma quase incontrolável.  Não apenas por ser uma das referências históricas da Real Companhia Velha nos vinhos doces, mas porque conheço bem as suas colheitas, que considero particularmente marcantes, e que me conduzem à ideia de que estou na presença do melhor Late Harvest nacional.  Depois de provar o 2021,  não tenho grandes dúvidas em afirmar que o coloco ao nível do que encontrei no 2013 e principalmente no 2007.
E não o faço numa comparação feita apenas pela memória. Há vinhos que impressionam pela intensidade e outros que nos conquistam pelo equilíbrio entre todas as suas componentes. Este Grandjó consegue precisamente isso. A doçura está lá, generosa e envolvente, mas encontra uma acidez que lhe dá nervo e impede qualquer sensação de peso. É um vinho concentrado, complexo e profundo, mas simultaneamente muito fresco e elegante.
Sem dúvida, uma daquelas provas em que, terminado o vinho, fica a sensação de ter estado perante algo especial, um Late Harvest de excelência, que colocaria ao lado dos grandes nomes mundiais. E isso, para mim, diz praticamente tudo.
À mesa, acompanha naturalmente sobremesas à base de fruta, frutos secos, caramelo ou chocolate branco, mas é com foie gras, queijos azuis ou queijos de pasta mole e alguma intensidade que coloco as minhas fichas e onde creio que revela das suas melhores combinações.
Cor amarela de tonalidade dourada intensa, brilhante e luminosa, aspecto límpido e cativante. Plano aromático de enorme complexidade, começando por revelar fruta madura de caroço, notas de alperce e citrinos confitados, mel e flores secas, a que se juntam sugestões de frutos secos, especiarias e uma componente ligeiramente caramelizada. A presença da botrytis acrescenta aquela dimensão por vezes difícil de descrever, mas imediatamente reconhecível, entre a fruta muito madura, o mel e uma delicada componente especiada. Um aroma profundo, que vai ganhando novas camadas à medida que permanece no copo. Na boca é simplesmente magnífico. Sem ser de uma densidade pesada, revela-se cremoso e envolvente, de entrada doce e mais concentrada, mas rapidamente a acidez assume o papel fundamental de equilibrar toda essa riqueza. Há fruta madura, citrinos, mel e frutos secos, acompanhados por uma textura untuosa, mas nunca pesada. Consigo perceber esta concentração impressionante, mas o vinho mantém uma frescura que o torna perigosamente fácil de beber. O final é muito longo, persistente e equilibrado, deixando uma combinação de doçura e frescura.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Dominio del Águila Albillo Viñas Viejas 2016 Branco

DOMINIO DEL ÁGUILA ALBILLO VIÑAS VIEJAS 2016 BRANCO | RIBEIRA DEL DUERO (ESP) | 13,5% | PVP  249€
ALBILLO MAYOR
DOMINIO DEL ÁGUILA, SL
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Este é um daqueles brancos que nos obrigam a repensar a ideia que temos sobre o que pode ser um vinho branco e por isso merece aqui um maior enquadramento para que possa ser entendido com propriedade. Não vamos em modo prova cega. Sabemo-lo proveniente de vinhas velhas com mais de 100 anos da casta Albillo Mayor, em La Aguilera, na Ribera del Duero, situadas entre os 800 e os 900 metros de altitude, em solos de areia argilo-calcária, argila e cascalho. A vindima é manual, com prensagem de cachos inteiros e lenta fermentação natural em barricas de carvalho francês, seguindo-se um longo estágio sobre borras finas. É um vinho produzido com uma lógica de guarda, claramente para deixar o tempo trabalhar a matéria-prima, com uma ambição que o aproxima mais de alguns grandes brancos de longa evolução do que da imagem habitual de um branco espanhol.
Em 2024, já com oito anos de idade, tive o prazer de o beber e mostrou precisamente por que razão este vinho é tão procurado. Longe de revelar sinais de cansaço, apresentou uma complexidade que o tempo de garrafa começou a tornar ainda mais evidente, mantendo uma frescura e uma tensão absolutamente notáveis. Era já um branco com outra dimensão, onde a fruta primária tinha dado lugar a uma expressão mais profunda, mineral e muito subtil de evolução. Quanto à passagem por barrica, percebemos desde logo não a procurar esconder, mas antes oferecê-la integrada, numa estrutura onde fruta, mineralidade, acidez e tempo trabalharam em conjunto.
À mesa pede comida com alguma presença e estatuto. Funcionará muito bem com peixe assado ou grelhado, mariscos mais estruturados, polvo, aves assadas e pratos de cogumelos, mas também com queijos curados. A sua acidez e componente salina conseguem cortar a riqueza dos pratos, enquanto a textura e a evolução acompanham preparações mais elaboradas.
Cor amarela, tonalidade pálida evoluindo para um dourado ligeiro, brilhante e de aspecto ainda muito vivo e jovem. No nariz revela desde logo a sua complexidade, com fruta branca madura e notas de fruta de caroço, acompanhadas por sugestões cítricas, ervas secas e flores já ligeiramente secas ou a caminho disso, acompanhando subtis apontamentos minerais e de sílex lascado, fumo muito fino, cera de abelha, frutos secos e uma discreta componente tostada, mas integrada, resultado do longo estágio em madeira. Arrebata e enamora-nos os sentidos. Na boca é onde mais me impressionou. Amplo, denso e envolvente, mas sem perder tensão, mostra uma acidez muito bem preservada que dá equilíbrio à sua concentração. A fruta surge madura, acompanhada por sensações minerais, salinas e ligeiramente fumadas. Por sua vez, a madeira está presente, mas mais uma vez, integrada, funcionando mais como elemento de complexidade do que como protagonista, revelando um perfil com textura, profundidade e uma persistência notável, dando a saber que a evolução apenas lhe acrescentou camadas sem lhe retirar energia, terminando longo, fresco e salino.