quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Quinta dos Aciprestes 2025 Branco

QUINTA DOS ACIPRESTES 2025 BRANCO | DOURO | 13,5% | PVP  9,90€
RABIGATO, VIOSINHO, ARINTO  
REAL COMPANHIA VELHA
16,5

Um vinho que se afirma precisamente por não procurar ser mais do que aquilo que é e que encontra o seu lugar de forma natural. Um perfil fresco e directo, criado a partir das castas Rabigato, Viosinho e Arinto, que encontram aqui espaço para mostrar a sua componente aromática, a acidez e a frescura, preservando a sua expressão e a do terroir duriense onde nascem.
À mesa mostra bem a sua versatilidade. Mariscos, peixe grelhado e sushi são combinações naturais, mas também pratos onde exista alguma gordura ou intensidade de sabor beneficiam da sua frescura. Um bom peixe no forno, umas amêijoas à Bulhão Pato ou até uns enchidos de porco preto podem criar ligações particularmente interessantes.
Cor amarelo-citrino intenso, brilhante e luminosa, de aspecto límpido e jovem. Aromaticamente abre com notas de citrinos e fruta branca, acompanhadas por discretos apontamentos vegetais que lhe acrescentam dimensão, num conjunto limpo, fresco e bastante convidativo, sem procurar excessos de exuberância, mas revelando um perfil pronto e elegante. Na boca confirma a impressão deixada pelo aroma, oferecendo uma entrada fresca, boa textura e uma estrutura que lhe dá mais presença do que seria expectável num branco pensado para ser consumido jovem. A acidez está bem integrada, conduzindo a prova com dinamismo e deixando no final uma sensação refrescante e persistente. É um branco equilibrado, gastronómico e fácil de perceber, mas que não se limita a ser simplesmente fácil de beber.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Poeira Vinha da Torre 2018 Tinto

POEIRA VINHA DA TORRE 2018 TINTO | DOURO | 13,5 | PVP  90€
VINHAS VELHAS
JORGE MANUEL N. MOREIRA
18

O Poeira Vinha da Torre 2018 é daqueles vinhos que, para mim, pertencem à categoria dos que verdadeiramente têm na génese de tudo o que vão ser a vinha onde nascem. A vinha, plantada em 1950, em Covas do Douro, situa-se a cerca de 400 metros de altitude, com exposição norte, solos pedregosos e uma grande diversidade de castas. Uma vinha velha pela qual Jorge Moreira procurou durante anos e que encontrou, na sua filosofia do Poeira, a oportunidade de mostrar aquilo que o Douro pode fazer quando a concentração não é confundida com excesso. 
Em boa verdade, é precisamente essa contenção que mais me chamou a atenção. Longe de me impressionar pelo peso ou pela potência que o perfil duriense tantas vezes aporta, surpreendeu-me pela elegância, pela frescura e pela complexidade, deixando que a vinha e o ano se expressem com alguma liberdade. Um vinho que não precisou de levantar a voz para se fazer notar e que me deixou escapar um sorriso de satisfação de prazer mais sôfrego. 
Obrigatório que se leve para a mesa para companhia a comida com alguma estrutura, funcionando particularmente bem com carnes vermelhas grelhadas ou assadas, pratos de caça e queijos curados, mas também poderá acompanhar pratos tradicionais de sabores intensos, onde a acidez consiga limpar o palato e os taninos encontrem matéria para dialogar. 
Cor vermelho rubi intenso, média concentração, aspecto límpido e ainda jovem. Surge inicialmente mais concentrado e algo reservado a nível de aromas, pedindo tempo para se revelar apesar de aberto cerca de uma hora antes ao momento de se beber. À medida que abre no copo, surgem notas de frutos vermelhos e azuis maduros, acompanhadas por sugestões de bosque, terra húmida, ervas secas e especiarias, com o carácter da madeira presente de forma muito discreta e bem integrada, primando pelo registo mais elegante e fresco. Na boca confirma a impressão aromática, revelando um tinto de grande equilíbrio, com corpo e presença, mas sem se tornar pesado, contando com acidez no ponto que lhe dá energia e frescura, enquanto o tanino, rico e bem desenhado, contribuem para uma estrutura sólida, que suporta a fruta bem expressiva, surgindo ainda uma componente vegetal seca que lhe acrescenta tensão e complexidade. A passagem por barrica permanece no lugar certo, funcionando como complemento e não como protagonista. O final é longo, muito persistente e marcado por uma combinação particularmente feliz entre frescura, estrutura e elegância.

domingo, 16 de agosto de 2026

Isento Reserva Vinha da Fonte Santa Touriga Franca 2023 Tinto

ISENTO RESERVA VINHA DA FONTE SANTA TOURIGA FRANCA 2023 TINTO | DOURO | 14% | PVP  8,95€
TOURIGA FRANCA
SA´VINUM, LDA
16,5

Há castas que estamos habituados a encontrar quase sempre em companhia de outras, contribuindo para os lotes com o melhor das suas características. No Douro, a Touriga Franca é, seguramente, uma delas. Por isso, quando aparece sozinha, a curiosidade aumenta. 
O Isento Reserva Touriga Franca 2023 dá este protagonismo à casta, com uvas provenientes da Vinha da Fonte Santa, em Soutelo do Douro, no Cima Corgo, uma vinha situada entre os 100 e os 250 metros de altitude, em solos xistosos. Assumindo este papel principal, fui perceber um pouco melhor a sua personalidade quando não tem de dividir o palco. 
Encontrei um perfil no qual se percebe que não se procura complicar. Há fruta, há especiaria, há madeira, mas sobretudo existe equilíbrio. É um daqueles tintos que se apresenta com uma estrutura bem definida, sem deixar que o corpo ou o estágio em barrica se sobreponham à fruta. A Touriga Franca mostra aqui um lado bastante acessível, elegante e gastronómico, sendo daqueles vinhos que rapidamente me fizeram pensar mais na mesa do que propriamente na ficha técnica. 
E foi precisamente aí que o pensamento me levou: sabores que acompanhem a sua fruta e estrutura sem as esconder. Um bom cabrito assado, vitela no forno, rojões ou uma tábua de enchidos são companhias naturais. Também o vejo muito bem junto de uma cozinha de conforto, daquelas em que o molho, o forno e os temperos fazem parte da experiência e em que o copo ajuda, simplesmente, a prolongar a conversa. 
Cor vermelho rubi, com boa intensidade e concentração média, aspecto límpido, brilhante e jovem. No nariz revela um perfil marcado pela fruta madura, com ameixa e fruta preta em primeiro plano, acompanhadas por alguma compota e um lado floral discreto. Surgem ainda notas de especiarias finas e um apontamento de baunilha, com a madeira a marcar presença, mas sem dominar o conjunto. Na boca confirma a primeira impressão, mostrando um vinho estruturado, mas equilibrado, com taninos redondos, polidos, bem integrados e uma acidez que lhe dá frescura e algum dinamismo. A fruta mantém-se presente, enquanto a madeira surge novamente bem integrada, contribuindo mais para a definição do conjunto do que propriamente para lhe impor carácter. O final é persistente, elegante e envolvente, deixando uma sensação de equilíbrio que torna o vinho particularmente fácil de acompanhar à mesa.

sábado, 15 de agosto de 2026

Casa Ferreirinha Reserva Especial 1997 Tinto

CASA FERREIRINHA RESERVA ESPECIAL 1997 TINTO | DOURO | 13% | PVP  350€
TOURIGA FRANCA, TOURIGA NACIONAL, TINTA RORIZ
SOGRAPE VINHOS, SA
18

O tempo é muitas vezes o maior teste a que um grande vinho pode ser submetido, e o Casa Ferreirinha Reserva Especial 1997 é um daqueles casos em que os anos acrescentaram dimensão e carácter, transformando a força e a estrutura da juventude numa expressão mais complexa, serena e de imensa finesse. 
Lançado apenas dez anos depois da vindima, esta foi uma colheita que a Casa Ferreirinha decidiu guardar até encontrar o momento certo para a apresentar e, prová-lo em 2026, quase três décadas depois da vindima, foi descobrir um vinho ainda plenamente vivo, complexo e surpreendentemente elegante. Naturalmente, estão aqui todas as marcas de uma longa evolução — a fruta já não fala sozinha, contando agora com a companhia das notas terciárias, maior profundidade e uma textura mais polida —, mas tudo surge numa harmonia que só os anos conseguem construir. Um vinho que nos chegou ao copo com a serenidade de quem já viveu muito, mas que o fez de forma gloriosa, mantendo frescura, elegância e uma extraordinária capacidade de continuar a emocionar. Um dos grandes momentos desta noite.
Não é um vinho que procure demonstrar a força da juventude, mas antes a beleza da maturidade.
Cor vermelho de tonalidade granada profunda, já com os reflexos acastanhados que denunciam a longa evolução em garrafa, mas sem sinais de perda de vivacidade. No nariz reconhecemos de imediato a sua complexidade e envolvência, com fruta madura ainda presente, agora acompanhada por notas de tabaco, especiarias, folha seca, madeira antiga e discretos apontamentos balsâmicos e terrosos. Precisamos de tempo para que os aromas abram e vão revelando novas nuances à medida que a temperatura sobe. Na boca mostra uma textura sedosa e muito elegante, com taninos completamente prontos e uma acidez que continua a dar-lhe vida e equilíbrio. A fruta surge mais contida do que num vinho jovem, cedendo espaço às notas terciárias e a uma dimensão mais profunda e complexa, mas sem perder definição. A estrutura permanece firme, embora já totalmente domesticada pelos anos, e o conjunto evolui com grande harmonia até um final longo, persistente e muito fino. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Arenae Clarete 2025 Tinto

ARENAE CLARETE 2025 TINTO | LISBOA | 11% | PVP  16,90€
RAMISCO, MOLAR
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
18

Há vinhos que quando nos chegam ao copo trazem consigo mais do que uma região, uma vinha com esta ou aquela particularidade ou esta e aquela casta: trazem também uma memória. O Arenae Clarete 2025 recupera uma antiga forma de fazer vinho em Colares, com a designação de “Monda”, quando a Molar, vindimada mais cedo, ajudava a suavizar a austeridade do Ramisco, e permitia obter vinhos mais leves e prontos a beber. Hoje, essa combinação regressa numa interpretação deliberadamente mais delicada, nascida das vinhas de areia e da influência atlântica, onde frescura, fruta e elegância se sobrepõem à extração e à estrutura. 

"O espanto é o princípio da filosofia."
Platão, Teeteto, 155d

Provei-o com particular entusiasmo e confesso que foi uma agradável surpresa, com a sua pitada de fora da caixa, uma verdadeira lufada de ar fresco até no que habitualmente se encontra vindo da Adega Regional de Colares. Um Clarete que olha para uma tradição praticamente esquecida para propor uma leitura diferente, mais descontraída e muito gastronómica, do terroir de Colares.
No fundo, um tinto perfeito para este verão mais quentinho — até aqui em Sintra —, que dá nova vida a uma antiga tradição dos agricultores e produtores de vinho desta região e que, à mesa, é assustadoramente bom.
Traga para companhia uma bela sardinhada, umas latinhas de conserva, a carne vermelha grelhada ou até o Leitão de Negrais sem abusar do molho.
São cerca de 1000 e poucas garrafas e eu já abasteci.
Cor vermelho rubi intenso, pouco concentrado, luminoso e brilhante, aspecto límpido e jovem. Plano aromático fresco e expressivo, com fruta vermelha de perfil delicado, cereja, romã e ginja, apontamentos florais bem medidos, subtil componente salina, com presença de pinhal, pinhão e leve componente vegetal que lhe acrescentam identidade, sem nunca perder elegância. Na boca é onde mais surpreende com um primeiro ataque de vivacidade, frescura e leveza,  para depois nos abraçar com uma acidez deliciosa que lhe dá tensão e energia, oferecendo a fruta bem definida e taninos finos, discretos e perfeitamente integrados, textura sedosa, embora trincável, sem o peso ou a concentração que normalmente associamos a um tinto, enquanto o final, fresco e persistente, confirma um vinho pensado mais para a elegância e para a mesa do que para a força. Longe de ser simples, um encontro feliz onde a austeridade potencial do Ramisco encontra na Molar a suavidade e a fruta necessárias para construir um conjunto muito equilibrado e surpreendentemente gastronómico.