sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Atlantis Reserva Verdelho 2020 Branco


ATLANTIS RESERVA VERDELHO 2020 BRANCO | DOP MADEIRA | 12% | PVP  29€
VERDELHO
MADEIRA WINE COMPANY, SA
17

Nasce num contexto de solos vulcânicos e influência atlântica, feito exclusivamente a partir da casta verdelho de uma parcela única na zona da Raposeira, na costa oeste da Madeira, não me escondendo desde o primeiro contacto, a sua proveniência e encontrando no estágio uma forma de ganhar dimensão sem perder sua frescura que está na sua identidade. Já com alguns anos de garrafa, é um daqueles brancos que nos pedem algum tempo no copo, algum namoro prévio ao casamento,  não se revelando apenas a fruta ou a frescura imediata, mostrando antes uma dimensão mais séria, onde a casta, o lugar e o estágio se encontram em equilíbrio.
A conversa com ele no copo é deveras interessante. A fruta já não aparece com a mesma exuberância de um branco jovem e imediato, dando lugar a uma expressão mais composta, onde a frescura continua a ter um papel decisivo, sendo precisamente aí que este Verdelho encontra o seu equilíbrio entre a passagem do tempo, a acidez que ainda lhe dá nervo e uma dimensão mais séria que o torna particularmente interessante à mesa.
Andou por maridagens de marisco de debulha e boa converseta, mas sem grandes complicações fará também companhia acertada com peixe assado, arroz de marisco, carnes brancas ou pratos onde exista alguma gordura que encontrarão na sua acidez e textura um bom contraponto. 
Cor amarelo com tonalidade dourada, luminosa, brilhante e já com sinais naturais de alguma evolução, sendo que, desde logo, mostra que já percorreu algum caminho. No nariz surge mais contido do que seria expectável mantendo a fruta bem presente, mas um pouco mais madura e integrada, acompanhada por sugestões cítricas, uma componente mineral, salina bem definida e discretas notas de evolução. A madeira não se sobrepõe, funcionando antes como uma camada adicional de complexidade. Na boca contamos com uma entrada envolvente, alguma amplitude e uma textura que o torna sério, mas é a acidez que mantém tudo no lugar. Fresco, seco e com boa tensão, vai revelando diferentes dimensões à medida que passa pelo palato, terminando longo, mineral e com boa persistência.
Não é o vinho que provavelmente encontraria na sua juventude. É outra coisa, e talvez seja precisamente aí que reside o seu interesse. A fruta perdeu algum protagonismo, ganhou complexidade e o conjunto mostra hoje uma maior integração. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Quinta dos Aciprestes 2025 Branco

QUINTA DOS ACIPRESTES 2025 BRANCO | DOURO | 13,5% | PVP  9,90€
RABIGATO, VIOSINHO, ARINTO  
REAL COMPANHIA VELHA
16,5

Um vinho que se afirma precisamente por não procurar ser mais do que aquilo que é e que encontra o seu lugar de forma natural. Um perfil fresco e directo, criado a partir das castas Rabigato, Viosinho e Arinto, que encontram aqui espaço para mostrar a sua componente aromática, a acidez e a frescura, preservando a sua expressão e a do terroir duriense onde nascem.
À mesa mostra bem a sua versatilidade. Mariscos, peixe grelhado e sushi são combinações naturais, mas também pratos onde exista alguma gordura ou intensidade de sabor beneficiam da sua frescura. Um bom peixe no forno, umas amêijoas à Bulhão Pato ou até uns enchidos de porco preto podem criar ligações particularmente interessantes.
Cor amarelo-citrino intenso, brilhante e luminosa, de aspecto límpido e jovem. Aromaticamente abre com notas de citrinos e fruta branca, acompanhadas por discretos apontamentos vegetais que lhe acrescentam dimensão, num conjunto limpo, fresco e bastante convidativo, sem procurar excessos de exuberância, mas revelando um perfil pronto e elegante. Na boca confirma a impressão deixada pelo aroma, oferecendo uma entrada fresca, boa textura e uma estrutura que lhe dá mais presença do que seria expectável num branco pensado para ser consumido jovem. A acidez está bem integrada, conduzindo a prova com dinamismo e deixando no final uma sensação refrescante e persistente. É um branco equilibrado, gastronómico e fácil de perceber, mas que não se limita a ser simplesmente fácil de beber.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Poeira Vinha da Torre 2018 Tinto

POEIRA VINHA DA TORRE 2018 TINTO | DOURO | 13,5 | PVP  90€
VINHAS VELHAS
JORGE MANUEL N. MOREIRA
18

O Poeira Vinha da Torre 2018 é daqueles vinhos que, para mim, pertencem à categoria dos que verdadeiramente têm na génese de tudo o que vão ser a vinha onde nascem. A vinha, plantada em 1950, em Covas do Douro, situa-se a cerca de 400 metros de altitude, com exposição norte, solos pedregosos e uma grande diversidade de castas. Uma vinha velha pela qual Jorge Moreira procurou durante anos e que encontrou, na sua filosofia do Poeira, a oportunidade de mostrar aquilo que o Douro pode fazer quando a concentração não é confundida com excesso. 
Em boa verdade, é precisamente essa contenção que mais me chamou a atenção. Longe de me impressionar pelo peso ou pela potência que o perfil duriense tantas vezes aporta, surpreendeu-me pela elegância, pela frescura e pela complexidade, deixando que a vinha e o ano se expressem com alguma liberdade. Um vinho que não precisou de levantar a voz para se fazer notar e que me deixou escapar um sorriso de satisfação de prazer mais sôfrego. 
Obrigatório que se leve para a mesa para companhia a comida com alguma estrutura, funcionando particularmente bem com carnes vermelhas grelhadas ou assadas, pratos de caça e queijos curados, mas também poderá acompanhar pratos tradicionais de sabores intensos, onde a acidez consiga limpar o palato e os taninos encontrem matéria para dialogar. 
Cor vermelho rubi intenso, média concentração, aspecto límpido e ainda jovem. Surge inicialmente mais concentrado e algo reservado a nível de aromas, pedindo tempo para se revelar apesar de aberto cerca de uma hora antes ao momento de se beber. À medida que abre no copo, surgem notas de frutos vermelhos e azuis maduros, acompanhadas por sugestões de bosque, terra húmida, ervas secas e especiarias, com o carácter da madeira presente de forma muito discreta e bem integrada, primando pelo registo mais elegante e fresco. Na boca confirma a impressão aromática, revelando um tinto de grande equilíbrio, com corpo e presença, mas sem se tornar pesado, contando com acidez no ponto que lhe dá energia e frescura, enquanto o tanino, rico e bem desenhado, contribuem para uma estrutura sólida, que suporta a fruta bem expressiva, surgindo ainda uma componente vegetal seca que lhe acrescenta tensão e complexidade. A passagem por barrica permanece no lugar certo, funcionando como complemento e não como protagonista. O final é longo, muito persistente e marcado por uma combinação particularmente feliz entre frescura, estrutura e elegância.

domingo, 16 de agosto de 2026

Isento Reserva Vinha da Fonte Santa Touriga Franca 2023 Tinto

ISENTO RESERVA VINHA DA FONTE SANTA TOURIGA FRANCA 2023 TINTO | DOURO | 14% | PVP  8,95€
TOURIGA FRANCA
SA´VINUM, LDA
16,5

Há castas que estamos habituados a encontrar quase sempre em companhia de outras, contribuindo para os lotes com o melhor das suas características. No Douro, a Touriga Franca é, seguramente, uma delas. Por isso, quando aparece sozinha, a curiosidade aumenta. 
O Isento Reserva Touriga Franca 2023 dá este protagonismo à casta, com uvas provenientes da Vinha da Fonte Santa, em Soutelo do Douro, no Cima Corgo, uma vinha situada entre os 100 e os 250 metros de altitude, em solos xistosos. Assumindo este papel principal, fui perceber um pouco melhor a sua personalidade quando não tem de dividir o palco. 
Encontrei um perfil no qual se percebe que não se procura complicar. Há fruta, há especiaria, há madeira, mas sobretudo existe equilíbrio. É um daqueles tintos que se apresenta com uma estrutura bem definida, sem deixar que o corpo ou o estágio em barrica se sobreponham à fruta. A Touriga Franca mostra aqui um lado bastante acessível, elegante e gastronómico, sendo daqueles vinhos que rapidamente me fizeram pensar mais na mesa do que propriamente na ficha técnica. 
E foi precisamente aí que o pensamento me levou: sabores que acompanhem a sua fruta e estrutura sem as esconder. Um bom cabrito assado, vitela no forno, rojões ou uma tábua de enchidos são companhias naturais. Também o vejo muito bem junto de uma cozinha de conforto, daquelas em que o molho, o forno e os temperos fazem parte da experiência e em que o copo ajuda, simplesmente, a prolongar a conversa. 
Cor vermelho rubi, com boa intensidade e concentração média, aspecto límpido, brilhante e jovem. No nariz revela um perfil marcado pela fruta madura, com ameixa e fruta preta em primeiro plano, acompanhadas por alguma compota e um lado floral discreto. Surgem ainda notas de especiarias finas e um apontamento de baunilha, com a madeira a marcar presença, mas sem dominar o conjunto. Na boca confirma a primeira impressão, mostrando um vinho estruturado, mas equilibrado, com taninos redondos, polidos, bem integrados e uma acidez que lhe dá frescura e algum dinamismo. A fruta mantém-se presente, enquanto a madeira surge novamente bem integrada, contribuindo mais para a definição do conjunto do que propriamente para lhe impor carácter. O final é persistente, elegante e envolvente, deixando uma sensação de equilíbrio que torna o vinho particularmente fácil de acompanhar à mesa.

sábado, 15 de agosto de 2026

Casa Ferreirinha Reserva Especial 1997 Tinto

CASA FERREIRINHA RESERVA ESPECIAL 1997 TINTO | DOURO | 13% | PVP  350€
TOURIGA FRANCA, TOURIGA NACIONAL, TINTA RORIZ
SOGRAPE VINHOS, SA
18

O tempo é muitas vezes o maior teste a que um grande vinho pode ser submetido, e o Casa Ferreirinha Reserva Especial 1997 é um daqueles casos em que os anos acrescentaram dimensão e carácter, transformando a força e a estrutura da juventude numa expressão mais complexa, serena e de imensa finesse. 
Lançado apenas dez anos depois da vindima, esta foi uma colheita que a Casa Ferreirinha decidiu guardar até encontrar o momento certo para a apresentar e, prová-lo em 2026, quase três décadas depois da vindima, foi descobrir um vinho ainda plenamente vivo, complexo e surpreendentemente elegante. Naturalmente, estão aqui todas as marcas de uma longa evolução — a fruta já não fala sozinha, contando agora com a companhia das notas terciárias, maior profundidade e uma textura mais polida —, mas tudo surge numa harmonia que só os anos conseguem construir. Um vinho que nos chegou ao copo com a serenidade de quem já viveu muito, mas que o fez de forma gloriosa, mantendo frescura, elegância e uma extraordinária capacidade de continuar a emocionar. Um dos grandes momentos desta noite.
Não é um vinho que procure demonstrar a força da juventude, mas antes a beleza da maturidade.
Cor vermelho de tonalidade granada profunda, já com os reflexos acastanhados que denunciam a longa evolução em garrafa, mas sem sinais de perda de vivacidade. No nariz reconhecemos de imediato a sua complexidade e envolvência, com fruta madura ainda presente, agora acompanhada por notas de tabaco, especiarias, folha seca, madeira antiga e discretos apontamentos balsâmicos e terrosos. Precisamos de tempo para que os aromas abram e vão revelando novas nuances à medida que a temperatura sobe. Na boca mostra uma textura sedosa e muito elegante, com taninos completamente prontos e uma acidez que continua a dar-lhe vida e equilíbrio. A fruta surge mais contida do que num vinho jovem, cedendo espaço às notas terciárias e a uma dimensão mais profunda e complexa, mas sem perder definição. A estrutura permanece firme, embora já totalmente domesticada pelos anos, e o conjunto evolui com grande harmonia até um final longo, persistente e muito fino.