sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Reflexos D’Alma: Quando o Melhor Plano é Não Ter Planos


Às vezes, tudo o que precisamos é de um lugar onde o mundo fique lá fora. Silêncio, campo, animais, piscina, um quarto confortável e tempo para não fazer absolutamente nada. No Reflexos D’Alma encontrámos isso e mais qualquer coisa: uma daquelas escapadinhas que acabam por superar aquilo que levávamos na expectativa.

O projecto Reflexos D’Alma nasceu de um sonho pessoal e familiar de Valter Águas, com quem tivemos oportunidade de conversar durante a nossa estadia e que nos contou um pouco da história por detrás do projecto. Depois de 17 anos em Angola, regressou a Portugal com a vontade de começar uma nova vida, mais ligada ao campo, à natureza e à hospitalidade. Um projecto pensado também como uma forma de encontrar a paz e a tranquilidade que procurava para si e para a família. 

Construído praticamente de raiz, o Reflexos D’Alma abriu portas em outubro de 2023, assumindo desde o início uma filosofia centrada num turismo rural de pequena escala, no contacto com a natureza, no sossego e numa relação próxima com quem por ali passa.

A propriedade dispõe apenas de seis suites, cada uma com a sua identidade, podendo também ser ocupada na totalidade, uma possibilidade que faz sentido para uma família ou para um grupo de amigos que queira ter o espaço por sua conta. No nosso caso, ficamos na unidade com jacuzzi, um quarto de boas dimensões e suficientemente espaçoso para que a estadia seja vivida sem aquela sensação, tão comum em alguns alojamentos, de que tudo foi pensado apenas para passar a noite.

Um quarto que merece uma referência à parte. É o único da propriedade com jacuzzi e, além das boas dimensões, tem uma decoração que foge ao convencional e que começa logo pela cama, de aspecto realmente impressionante. Depois surgem os pormenores, aqueles que ajudam a dar personalidade ao espaço: os cadeirões, a escolha dos elementos decorativos e, sobretudo, a bicicleta transformada em apoio ao lavatório, uma solução original que dá ao quarto um carácter muito próprio. Não é apenas uma questão de conforto; é um espaço onde se percebe que houve vontade de criar uma identidade e não simplesmente de mobilar um quarto.

Mas é quando saímos do quarto que começamos verdadeiramente a perceber a relação do conceito Reflexos D’Alma com o campo. A propriedade tem piscina, espaços exteriores para descansar, zonas destinadas a piqueniques e barbecue e, nos espaços preparados, encontramos os animais que fazem parte desta componente mais rural: galinhas, cabras, uma vaca, cavalos e patos. Não estão ali apenas como elemento decorativo de uma fotografia bonita. Fazem parte da própria identidade do lugar e ajudam a criar um ambiente diferente daquele que encontramos num alojamento convencional.
 
A piscina acaba naturalmente por ser um dos pontos de mais utilização durante os dias mais quentes como forma os que lá passamos. E foi também ali que surgiu um daqueles pequenos momentos que, apesar de aparentemente insignificantes, acabam por ficar na memória. A determinada altura, levaram-me um chá frio de frutos vermelhos para junto da piscina, sem que o tivesse pedido e sem qualquer custo adicional. É um pormenor, claro, mas é precisamente nestes pormenores que muitas vezes percebemos a diferença entre simplesmente disponibilizar um espaço e estar verdadeiramente atento a quem o está a utilizar.

Percebe-se que o Reflexos D’Alma não é apenas um negócio de alojamento, mas também o resultado de um projecto de vida, e isso acaba por se sentir na forma como somos recebidos e tratado. Mais do que juntar alojamento e natureza, procura criar um lugar onde o conforto e a privacidade convivem com uma forma mais simples e tranquila de estar no campo.
E existe ainda um detalhe que faz diferença: o Valter está muito presente no dia a dia do projecto. É uma presença natural, próxima, que ajuda a transmitir ao espaço um ambiente mais familiar e menos impessoal. 

A sua localizaçãoa também beneficia da proximidade de Estremoz. A cerca de dez minutos de carro, a cidade permite complementar facilmente uma estadia mais tranquila no campo com um passeio pela zona histórica, uma refeição num dos restaurantes locais ou uma visita ao mercado de sábado. Foi precisamente por Estremoz que passei durante esta experiência, aproveitando para andar pela cidade e descobrir um pouco melhor aquilo que existe para lá da propriedade.

No final, aquilo que fica do Reflexos D’Alma não é apenas o quarto, a piscina ou a possibilidade de passar uns dias no campo. É a combinação de tudo isso com uma forma de receber que se sente próxima e pouco artificial. A presença do Valter, os animais, os espaços exteriores e até aquele simples chá levado até à piscina acabam por construir uma experiência que não precisa de grandes artifícios para funcionar.

Talvez seja essa a melhor forma de resumir o Reflexos D’Alma: um projecto que nasceu de uma vontade pessoal, cresceu em torno do campo e encontrou na hospitalidade uma forma muito própria de receber quem por ali passa. Um lugar para abrandar o ritmo durante uns dias, conhecer Estremoz com outra calma e, sobretudo, sentir que do outro lado existe alguém verdadeiramente presente no projecto que criou.

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REFLEXOS D'ALMA 
Rural, Familiar, Férias, Luxo, Escapadinha
 
6 Suites (2 pessoas)
1 Villa Deluxe (6 pessoas)

Estacionamento: Gratuito
Restaurante: Não (apenas pequeno-almoço)

Morada: Estrada Nacional 372
               7100–712 ESTREMOZ

         
Telefone:  +351 268 011 718

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Júlio B. Bastos Grande Reserva Alicante Bouschet 2015 Tinto

JÚLIO B. BASTOS GRANDE RESERVA ALICANTE BOUSCHET 2015 TINTO | ALENTEJO | 13,5% | PVP  94€
ALICANTE BOUSCHET
JULIO BASTOS
18,5

A casta Alicante Bouschet encontrou no Alentejo um dos territórios onde melhor consegue mostrar a sua força, mas também a capacidade de fazer nascer vinhos com grande potencial de envelhecimento e complexidade. Estamos aqui perante uma expressão particularmente séria dessa relação, com berço em Estremoz, pensado para sair no momento julgado como certo e que apela à guarda. A pisa em lagares de mármore e estágio em barricas novas de carvalho francês ajudam a construir um tinto de grande estrutura, mas é sobretudo o tempo em garrafa que permite perceber a dimensão deste vinho. Neste caso, a prova trouxe uma semi-surpresa, pois embora já estivesse à espera e apesar dos anos passados, encontrei um vinho de enorme juventude, cheio de raça e com argumentos mais do que suficientes para continuar a envelhecer na garrafeira se resistirmos à tentação de o beber… não foi o caso.
A sua estrutura impressionante pede pratos à altura. A companhia foi um chuleton temperado apenas com umas pedras de sal, mas um bom bife grelhado, carnes de caça, borrego assado ou pratos de carne cozinhados lentamente serão também motivos de felicidade gastronómica. A minha escolha vai sobretudo para uma carne de sabor intenso, cozinhada sem demasiados artifícios, deixando que a fruta, a acidez e a estrutura da Alicante Bouschet façam o resto.
Cor ainda muito carregada, vermelho concentrado, com luminosa auréola mais aberta, aspecto límpido e jovem. No plano aromático, começa por mostrar um nariz profundo e concentrado, dominado pela fruta preta madura, ameixa e amora, a que se juntam notas balsâmicas, especiadas, cacau subtil e um discreto lado vegetal que lhe dá frescura. A madeira está presente, mas bem integrada na estrutura geral, contribuindo mais para a complexidade do que para se sobrepor à fruta. Na boca é onde mais impressiona a sua juventude, revelando-se cheio, musculado e com muita raça, dono de uma estrutura tânica firme, acidez suficiente para lhe dar equilíbrio e uma concentração de fruta que permanece muito viva, contribuindo para um conjunto denso, mas não pesado. Já não se apresenta austero, bruto e quase silencioso, como terá sido noutra fase da sua vida, mas está mais elegante, mais arrumado e com as diferentes componentes perfeitamente encaixadas, continuando cheio de vigor e vida. Termina com um final longo e persistente, deixando a sensação muito clara de que ainda não chegou ao seu ponto máximo de evolução. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Real Companhia Velha Royal Oporto Vintage 1977

REAL COMPANHIA VELHA ROYAL OPORTO VINTAGE 1977 | PORTO | 20% | PVP  100€ a 110€
TOURIGA FRANCA, TINTA RORIZ, TINTA BARROCA, TOURIGA NACIONAL
REAL COMPANHIA VELHA VINHOS
18

Quando falamos de Vinho do Porto, 1977 é um daqueles anos que ficou associado a uma colheita de grande qualidade, reconhecida entre os anos clássicos do Porto Vintage. É, por isso, particularmente interessante voltar a um vinho dessa colheita quase cinco décadas depois e perceber de que forma o tempo o transformou. 
Foi nesse contexto que provei o Real Companhia Velha Porto Vintage 1977, uma garrafa que me surpreendeu pela forma como chegou ao copo. Mais tímido e envergonhado a princípio, talvez porque não lhe demos a atenção devida numa abertura antecipada, rapidamente entrou em diálogo alegre connosco, mostrando poucos sinais de cansaço e revelando-se luminoso, complexo e, sobretudo, cheio de vida, num muito bom momento de forma.
À mesa, um Vintage com esta idade pede harmonizações que não lhe retirem protagonismo. Queijos de pasta azul, como Stilton ou Roquefort, são parceiros naturais, mas sugiro também que seja companhia acertada para sobremesas de chocolate negro, frutos secos, figos ou um simples bolo inglês pouco doce. Ainda assim, perante a complexidade, o equilíbrio que mostrou e o prazer que deu a beber, talvez a melhor companhia seja mesmo alguma conversa tranquila e tempo para o beber devagar. 
Visualmente atrativo, mantém a coloração vermelha, embora já desvanecida e com pouca densidade, mostrando agora nuances mais próximas das de um Colheita, com subtis tonalidades de âmbar jovem e alguns acastanhados. Luminoso e brilhante. Componente aromática profunda, complexa, com camadas distintas, mas num casamento feliz, marcado pelas notas mais terciarias e menos pela fruta, revelando notas de bolo inglês, frutos secos, especiaria exótica a temperar o conjunto, cardamomo, canela, bolacha americana de cacau, limpo, embora com o lado especiado a dominar o bouquet. Na boca encontra-se cheio de vida, em bom momento de forma, com acidez bem casada com a fruta, a doçura e o álcool, harmonioso, alguma fruta preta desidratada, ameixa, figo seco, mantém a pitada especiada e o registo mais fresco, menos denso, prazeroso a beber e comprimento final de boca extenso e duradouro.

sábado, 19 de setembro de 2026

Dona Berta Vinha do Avô Reserva 2023 Branco

DONA BERTA VINHA DO AVÔ RESERVA 2023 BRANCO | DOURO | 13,5% | PVP  30€
CÓDEGA, CÓDEGA DO LARINHO, VIOSINHO, GOUVEIO, MALVASIVA FINA, RABIGATO
HERNÂNI A. M. VERDELHO
17,5

Um vinho Especial - informa-se desde logo no contra-rótulo -, resultado de um ano difícil, mas cuja resiliência das vinhas, localizadas no coração da Quinta do Carrenho a cerca de 500 metros de altitude, centenárias e habituadas aos desafios do Douro Superior, souberam dar base para um vinho de memória.
Apesar de aberto ainda jovem, mostra-se um branco com estrutura, profundidade e capacidade de evolução, apostando nele para anos vindouros, onde o tempo fará a sua magia.
É um vinho que pede mesa. Peixe grelhado, robalo ou dourada no forno, bacalhau, arroz de peixe ou marisco são escolhas naturais. Devido à proximidade, não deixo de pensar nele para o casar com o peixe do rio, seja frito ou assado no forno.
Cor amarela citrina definida, intenso e brilhante, aspecto límpido e jovem. No plano aromático começa por mostrar-se bastante expressivo, mas sem excessos, mantendo uma linha de elegância e frescura onde surgem aromas de fruta branca e de caroço, como maçã, pera e uma sugestão de pêssego, acompanhados por notas cítricas que lhe dão frescura. Aos poucos aparecem também apontamentos florais e um lado mais mineral, quase pedregoso, que contribui para a sensação de profundidade. A passagem parcial por madeira está bem integrada, acrescentando volume e alguma complexidade aromática sem se sobrepor ao carácter da fruta. Na boca ganha outra dimensão. A acidez dá-lhe frescura e tensão, mas existe também uma textura envolvente e cremosa, com um volume que impede que o vinho se torne apenas mais um branco fresco do Douro. A fruta reaparece com boa definição, acompanhada por uma ligeira sensação mineral e por uma estrutura que sustenta bem o conjunto. O final é persistente, seco e equilibrado, deixando uma agradável combinação entre frescura, textura e complexidade.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Luis Pato Vinha Pan Bruto 2021 Branco

LUIS PATO VINHA PAN BRUTO 2021 BRANCO | BAIRRADA | 12% | PVP  26 €
BAGA
LUÍS PATO UNIPESSOAL, LDA
17,5

O nome Luís Pato está há muito ligado à Bairrada e, sobretudo, à capacidade de mostrar a Baga em diferentes registos. Este vinho segue precisamente essa ideia, levando a casta para o universo dos espumantes e fazendo dela a protagonista de um vinho de carácter bem definido. Proveniente da Vinha Pan, com uma abordagem de pouca intervenção, 100% Baga e cerca de 30 meses de estágio em garrafa. Perfil bem seco e tenso, faceta gastronómica fugindo da ideia de espumante de entrada.
Esta acidez e a secura fazem-no particularmente adequado para mariscos, ostras, percebes e peixe grelhado, mas também para pratos de maior intensidade, como bacalhau à Brás, arroz de peixe ou frituras de peixe. A Baga deu-lhe estrutura suficiente para acompanhar uma tábua de enchidos, presunto e queijos de forma irrepreensível.
Cor amarela com tonalidade alperce, acobreado muito luminoso e aberto, bolha fina e cordão persistente. No nariz lugar aos citrinos, sobretudo casca de limão, alguma fruta de caroço de perfil mais contido e notas que lembram ervas aromáticas, com uma componente mineral e ligeiramente salgada a dar-lhe dimensão. Na boca confirma a frescura que a Baga consegue transmitir neste contexto, com acidez firme, secura bem marcada, espuma leve e fina, estrutura que lhe dá presença sem o tornar pesado, com um final de boca ligeiramente austero, persistente e fresco.