terça-feira, 3 de novembro de 2026

Quinta da Boavista e Quinta de São Luiz: Novas Colheitas, Diferentes Olhares Sobre o Douro


Nove novas colheitas revelam duas formas distintas de interpretar o património vitícola do Douro. Na Quinta da Boavista, a diversidade de parcelas e exposições; na Quinta de São Luiz, o carácter das vinhas antigas e a identidade das castas tradicionais. Duas quintas históricas, um território comum e diferentes olhares sobre a região.

As novidades do grupo Kopke chegam de duas quintas históricas do Douro, a Quinta da Boavista e a Quinta de São Luiz, propriedades que, apesar de partilharem a mesma região e uma longa ligação à vinha, têm percursos e patrimónios vitícolas com características próprias. As novas colheitas recentemente apresentadas são uma boa oportunidade para olhar para essas diferenças e perceber como cada uma procura traduzir a identidade do lugar nos vinhos que produz.

Na margem direita do Douro, perto do Pinhão, a Quinta da Boavista distingue-se pela diversidade da sua paisagem vitícola. São cerca de 35 hectares de vinha, distribuídos por patamares, terraços e socalcos de xisto, a diferentes altitudes e exposições. Um património que permite explorar várias interpretações da propriedade, indo desde vinhos de casta, como os Touriga Nacional e Touriga Franca, a referências que nascem de vinhas velhas e parcelas históricas, como o Vinha do Oratório e o Vinha do Ujo. É precisamente essa diversidade que sobressai nas seis referências agora apresentadas, onde cada vinho procura revelar uma faceta particular da quinta.

A Quinta de São Luiz, também ela profundamente ligada à história vitivinícola duriense, apresenta uma abordagem onde as vinhas antigas e a seleção de parcelas assumem um papel central. A Vinha Rumilã, com cepas centenárias e uma produção naturalmente reduzida, é um dos exemplos mais expressivos desse património. A par desta, o Vinhas Velhas recupera uvas de vinhas com mais de 50 anos, enquanto o branco Winemaker’s Collection Folgazão & Rabigato dá continuidade ao estudo de duas castas tradicionais no Baixo Corgo, recorrendo também a uvas da Quinta do Bairro. São três vinhos distintos, com produções limitadas, nos quais a origem das uvas e o tempo de estágio contribuem para definir o perfil de cada referência.

É aqui que encontro o principal ponto de ligação entre as duas quintas: a vontade de valorizar o património vitícola e de mostrar que o Douro não se esgota num único perfil ou numa só interpretação. Na Quinta da Boavista, essa leitura passa sobretudo pela diversidade de parcelas, altitudes e exposições; na Quinta de São Luiz, ganha expressão através da idade das vinhas, da seleção de castas e do trabalho sobre referências muito particulares. Duas formas de olhar para o mesmo território, com o enólogo Ricardo Macedo à frente deste trabalho, que chegam agora ao mercado através de nove novas colheitas - seis da Quinta da Boavista e três da Quinta de São Luiz.

QUINTA DA BOAVISTA VINHA DO LEVANTE 2023 BRANCO | DOURO | 13% | PVP  35€
ARINTO, VIOSINHO
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor amarelo citrino definido, brilhante e cristalino, tonalidade esverdeada, aspecto límpido e jovem. No plano aromático, revela perfil elegante, mostrando notas de fruta de pomar e citrina madura, alperce, pêssego, melão e toranja, surgindo uma ligeira pincelada floral, com a barrica muito bem integrada, um leve apontamento fumado em fundo, especiaria fina e uma interessante componente salina, com notas de pedra lascada e vinco mineral. Na boca tem o condão de nos prender a atenção desde o primeiro contacto,  oferecendo volume e untuosidade, boa largura e uma cremosidade fina, tudo sustentado por uma acidez vibrante e prolongada. A fruta mantém-se airosa e saborosa, surgindo também um subtil toque especiado. O conjunto é linear, harmonioso e muito prazeroso, com um final de boca longo e persistente.
A acidez e a dimensão mineral leva-me para ligações naturais com peixe gordo, talvel o bacalhau com todos, sem dúvida o marisco e pratos de peixe assado. Queijos de pasta semicurada poderão também resultar bem.

SÃO LUIZ WINEMAKER'S COLLECTION GRANDE RESERVA 2022 BRANCO | DOURO | 13,5% | PVP  30€
FOLGAZÃO, RABIGATO
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor amarelo citrino, tonalidade esverdeada, aspecto límpido, brilhante e jovem. No nariz, oferece, com elegância e delicadeza, fruta fresca de polpa amarela, num registo de maturação bonita, onde surgem pêssego, alperce e notas de fruto de pomar, melão, com a componente citrina a funcionar como tempero, acompanhada por uma pincelada floral e por apontamentos da passagem por barrica, muito bem integrados, com uma leve nota de panificação e uma subtil sugestão de pimenta branca.
Na boca, revela volume e uma textura cremosa, bem amparados por uma acidez vibrante. A fruta mantém-se bonita e sumarenta, com boa largura de boca, prolongamento e uma secura que equilibra o conjunto. É um vinho harmonioso e particularmente prazeroso, com um final longo, onde nunca se perde aquela finesse que marcou o primeiro contacto. Um branco de presença e dimensão, mas sem sacrificar a elegância.
Esta combinação de textura, acidez e estágio em madeira, faz com que pense em pratos de peixe assado no forno, bacalhau confitado ou pratos de aves com molhos mais delicados.

QUINTA DE SÃO LUIZ VINHAS VELHAS GRANDE RESERVA 2022 TINTO | DOURO | 14% | PVP  48€
VINHAS VELHAS
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18 
Cor vermelho rubi concentrado, profundo, auréola luminosa e brilhante, aspecto límpido e jovem.  Aromaticamnete apresenta-se cheio e complexo, mas com uma finesse que se revela desde o primeiro contacto. A fruta preta e vermelha, madura e fresca, surge bem definida, acompanhada por bonitas notas de frutos silvestres e de bosque com casca de laranja a aparecer em apontamento subtil, envolvida por um registo floral perfumado e equilibrado. Juntam-se a especiaria fina, uma componente balsâmica arejada, folha de tabaco seca e notas mentoladas em fundo, com uma sugestão de hortelã-da-ribeira. Um perfil aromático de grande equilíbrio e definição. Na boca, confirma a frescura que já anunciava no nariz. Tem volume e estrutura, mas sem se tornar pesado, mostrando um lado elegante, de textura macia e aveludada, sustentado por uma acidez que tempera o conjunto e uma ligeira secura que vai surgindo gradualmente, sem retirar espaço à fruta, enquanto o tanino se afirma, mas com uma expressão sedosa e macia. A passagem por barrica acrescenta amplitude e deixa novamente espaço à especiaria. Termina longo e persistente, num conjunto harmonioso que conjuga estrutura, frescura e finesse.

QUINTA DE SÃO LUIZ VINHA RUMILÃ GRANDE RESERVA 2020 TINTO
| DOURO | 14% | PVP  70€
VINHAS VELHAS
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18,5
Cor vermelho rubi concentrado, profundo, reflexos violeta mais denso, aspecto límpido e jovem. A componente aromática revela complexidade e riqueza, revelando o fruto silvestre preto com presença de destaque, maduro na medida certa, lado a lado com um registo floral afinado, de violetas e alguma esteva, notas provenientes do estágio em barrica bem integradas, subtil fumado, especiaria fina, um toque balsâmico refrescante e algum cacau, revelando um componente fresca que envolve todo o bouquet, onde se destacam apontamentos mentolados e de ervas aromáticas. Na boca entrega corpo e volume, mas num registo de equilíbrio notável e grande elegância. A textura é macia e sedosa, sustentada por uma acidez no ponto, que o torna cativante e envolvente sem esconder a fruta, bonita e fresca encostada ao tanino polido, mas firme e mantendo o conjunto coeso e harmonioso. Termina longo, sedutor e persistente, deixando uma excelente impressão e vontade de voltar a ele quase de imediato.

BOA-VISTA TOURIGA NACIONAL 2022 TINTO
| DOURO | 14% | PVP  45€
TOURIGA NACIONAL
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor vermelho rubi intenso, concentrado, nuances violeta, aspecto límpido e jovem. No nariz revela uma Touriga Nacional muito elegante e fresca, revelando, num primeiro contacto, fruta vermelha e preta maduras, bem casadas com um floral mais fino e menos exuberante e, à medida que vamos tendo tempo com ele no copo vamos percebendo as notas da passagem por barrica bem integradas. Boca com ataque vivaz, bom volume e estrutura, textura macia, envolvente, com subtil sensação mastigável, quase como um traço terroso em combinação com uma fruta muito bonita e sumarenta, tanino polido, mas firme, com término de boca longo e prazeroso.
A expressão mais elegante, fresca e com boa fruta da Touriga Nacional levam-me de imediato para os sabores de conforto dos assados no forno como um cabrito assado, borrego de confeção lenta ou para a posta de vitela na brasa, rojões tradicionais ou com pratos de caça de pelo.

BOA-VISTA TOURIGA FRANCA 2022 TINTO | DOURO | 14% | PVP  45€
TOURIGA FRANCA
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor vermelha rubi profunda e concentrada, auréola luminosa, aspecto límpido e jovem. No plano aromático revela, de forma expressiva, a fruta preta e silvestre madura, frutos do bosque, de bago, cereja preta, amora e cassis, perfumado subtil a seu lado, com notas de espaciaria bem medidas, leve apontamento quimico, grafite, perfil fresco. Volumoso e complexo na prova de boca, textura firme, macia, com acidez bem colocada, boa secura que nos faz aguçar o palato, continuando com a fruta muito distinta e fresca, tanino polido e um final de boca longo e persistente.
Pede comida, pratos de carne com alguma intensidade, sem exigir preparações demasiado pesadas, como um lombo de porco assado com ervas aromáticas, um arroz de pato tradicional ou em pratos de caça de penas.

BOA-VISTA RESERVA 2022 TINTO | DOURO | 14% | PVP  45€
TOURIGA NACIONAL, TOURIGA FRANCA, TINTO CÃO, VINHA VELHA
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor vermelha rubi de média concentração, profunda, com auréola luminosa, aspecto límpido e jovem. O nariz revela desde logo profundidade e complexidade, com a fruta preta madura e fresca a assumir o primeiro plano, surgindo depois notas de casca de laranja, acompanhados por uma componente floral perfumada e bem doseada. Componente aromática de bosque que se cruza com especiaria abundante, enquanto apontamentos de caixa de charuto e um balsâmico fresco acrescentam profundidade e elegância ao conjunto. Na boca, mostra firmeza e dimensão, revelando-se volumoso, cheio e concentrado, mas sem perder elegância, com uma textura macia e aveludada, sustentada por uma acidez vivaz, no ponto certo de equilíbrio. A fruta mantém-se em destaque, acompanhada por apontamentos citrinos subtis e uma frescura que prolonga a sensação de harmonia. O tanino apresenta-se polido, mas denso, contribuindo para a estrutura e consistência do vinho. Tudo funciona em plena sintonia, num conjunto muito prazeroso de beber, que termina com um final de boca bastante longo e persistente.
Um reserva de grande presença que escolheria para um naco de novilho na brasa acompanhado por um arroz de forno de enchidos e uma fatia de torta de laranja com canela para final de festa.

QUINTA DA BOAVISTA VINHA DO UJO 2022 TINTO | DOURO | 14% | PVP  125€
VINHAS VELHAS
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
19

Cor rubi de média concentração, tonalidade violácea, lágrima definida no copo, aspecto límpido e jovem. No nariz, revela-se rico e complexo, num registo de grande elegância e delicadeza. A fruta vermelha e preta madura surge bem definida, com destaque para a cereja preta, ameixa preta e a romã, enquanto a  componente de bosque ganha expressão, trazendo consigo notas de pinhal, caruma verde e algum mato seco. O conjunto é envolvido por um balsâmico fresco e elegante, a que se junta uma componente especiada, num perfil aromático fresco, desafiante e cheio de nuances que vão aparecendo à medida que se ajeita ao copo. Na boca, é daqueles vinhos que nos deixam sem palavras. Mostra volume e estrutura, mas é a elegância e o equilíbrio que verdadeiramente se impõem. Gracioso, sedutor e muito prazeroso, apresenta uma textura macia e aveludada, com uma acidez precisa e firme, que conduz a prova num prolongamento delicado. A fruta mantém-se saborosa e cheia, enquanto o tanino, polido e fino, sustenta o conjunto sem lhe retirar leveza. Tudo parece fazer sentido desde o primeiro contacto. Um vinho uno, harmonioso e de enorme finesse, cujo final de boca parece não terminar.
Um vinho que à mesa precisa impressiona com um borrego assado no forno e suas batatas bem embebidas nos sucos que a carne foi largando ao longo de demorada cozedura. 

QUINTA DA BOAVISTA VINHA DO ORATÓRIO 2022 TINTO | DOURO | 14,5% | PVP  125€
VINHAS VELHAS
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18,5
Cor vermelho de tonalidade púrpura, concentrado, aspecto límpido e jovem. No nariz, o primeiro impacto é de grande pureza e elegância, com a fruta vermelha e preta madura a surgir em perfeita definição, acompanhada por notas de fruto azul de bago e com uma pincelada floral que impõe mais expressão e frescura, num registo que vai ganhando profundidade com apontamentos delicados de torrefação, fumados, especiaria e um balsâmico refrescante, num conjunto aromático de grande riqueza e complexidade que se vai revelando camada após camada. Na boca, confirma-se toda essa dimensão, oferecendo estrutura e presença, de textura macia e aveludada, sem perder elegância em virtude da sua acidez, vibrante e viva, que lhe imprime ritmo e frescura, enquanto uma secura fina e salivante prolonga a sensação de equilíbrio. O tanino mostra-se poderoso e genuíno, com carácter e firmeza, sem comprometer a harmonia do conjunto. O final é longo, muito persistente e deixa uma marca difícil de esquecer.
À mesa podemos continuar com o que deixamos do anterior - o borrego assado no forno -, pedir uma alcatra de vitela assada lentamente ou um prato de caça, como veado ou javali.

Márcio Nóbrega (Responsável viticultura Kopke Group) e Ricardo Macedo (Enólogo Quinta da Boavista e Quinta de São Luiz))

domingo, 1 de novembro de 2026

São Domingos Lopo de Freitas 2019 Branco

SÃO DOMINGOS LOPO DE FREITAS 2019 BRANCO | BAIRRADA | 14% | PVP 34,89€
VIOGNIER
CAVES DO SOLAR DE SÃO DOMINGOS, SA
17,5

Um vinho de homenagem ao homem que traçou os destinos as Caves do Solar de São Domingos desde 1970 e que mereceu desde logo a minha atenção pela escolha da casta, a Viognier, uma variedade pouco habitual no panorama da Bairrada. Mas, curiosidade à parte,  foi sobretudo no copo que me conquistou, mostrando-se num grande momento de forma, mesmo já com alguns anos de garrafa,  continuando cheio de vida, com uma frescura e uma expressão que deixam antever ainda bastante margem para evoluir e continuar a dar cartas durante mais uns bons anos. 
Um branco de inverno a olhar para os dias quentes onde na mesa se encontre uma cataplana de peixe e marisco, uma caldeirada a chorar ou um queijo de meia cura com um naco de pão dos bons. Enorme prazer a beber e a reforçar a ideia de que vale a pena dar tempo a certos vinhos.
Cor amarelo citrino intenso, tonalidade palha com ligeiros reflexos esverdeados, aspecto límpido e sem grande nota de idade. Plano aromático elegante e complexo, oferecendo desde logo notas de fruta de pomar e citrinos frescos envolvido num misto floral e ervas aromáticas, com as notas da passagem por barrica completamente integradas, aparecendo um ligeiro tostado, cera de abelha, espargo verde, tisana de mel e limão, envolvente e desafiador mantendo um perfil de frescura e equilíbrio notável. Boca com volume, textura macia e sedutora, com ataque inicial vibrante, a secar o palato, salivante, pedregoso, fruta branca e citrina, toranja, maça verde, com uma tensão que nos agarra e um prolongamento a perder de vista. Está num momento delicioso, muito preciso e a puxar o copo seguinte. Final de boca longo e persistente.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Viña Tondonia Reserva 2013 Tinto

VIÑA TONDONIA RESERVA 2013 TINTO | RIOJA (ESP) | 13% | PVP  39€
TEMPRANILLO, GARNACHA, GRACIANO, MAZUELO
R. LOPES DE HEREDIA VIÑA TONDONIA, SA
18,5

Um grande exemplo da capacidade de envelhecimento dos Rioja clássicos, onde a complexidade da evolução em garrafa convive com uma frescura quase surpreendente. Ainda teria muito para contar não tivesse chegado a sua hora. 
Elegante, profundo e cheio de camadas, não procura impressionar pela exuberância, mas pela forma como se vai revelando no copo, recompensando a atenção e o tempo que lhe dedicamos, mantendo uma facilidade de prova notável e reforçando a ideia de estar perante um belíssimo Tondonia, ainda com caminho pela frente.
No prato, pede uma cozinha de sabores apurados, mas sem excessos que escondam a sua elegância. Acompanha muito bem um cabrito ou borrego assado lentamente, perdiz estufada, pratos de caça de média intensidade ou cogumelos silvestres. Também nos poderá fazer felizes com um arroz de forno com enchidos tradicionais.
Cor vermelho rubi intenso, média concentração, com ligeiros reflexos tijolo, aspecto límpido e ainda com pouca nota da idade que carrega. No nariz é com entusiamo que se vê a abrir e a ganhar camadas a cada segundo que está no copo, com notas de fruta vermelha silvestre fresca , de bago, mirtilo, groselha e ginja, ligada a uma pitada citrina, casca de laranja ou tangerina seca, com notas de barrica avinhada, folha de tabaco seca, caixa de charuto, componente balsâmica,  especiaria doce e subtil baunilha, cravinho e canela, com toque animal muito ligeiro e elegante, misturado com nuances de verniz, sensação de bosque, turfa de outono, folhas secas,  enorme frescura. Na boca começa por mostrar o resultado do ano mais seco na Rioja com um registo de acidez cortante e sumarenta, eixo central para toda a prova, elevado a sensação de leveza e facilidade em se beber. Dono de bom volume e estrutura, após este primeiro ataque mais rústico e seco, cheio de tensão e de longo prolongamento, percebemos a sua textura macia, encostada a um tanino polido e acetinado, sem arestas, oferecendo a fruta bem sumarenta e viva, com uma componente mineral presente, um pó de giz, terra seca, especiaria em tempero, com prolongamento final enorme.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Verdelho O Original 2025 Branco

VERDELHO O ORIGINAL 2025 BRANCO | IG AÇORES | 12,5% | PVP  29,99 €
VERDELHO
AZORES WINE COMPANY, LDA
17,5

O nome não deixa grande margem para dúvidas: este é o Verdelho que António Maçanita quer afirmar como o original, o das ilhas, aquele que nasce num território onde a vinha se instala nas fendas da rocha vulcânica, protegida por currais de pedra e exposta à proximidade do mar, tão próximo que se refere no contra-rótulo como o sítio “onde se ouve o cantar do caranguejo”. A identidade deste branco constrói-se precisamente nessa relação entre a casta, os solos vulcânicos e a influência atlântica, com a frescura, a mineralidade e a salinidade no centro da sua expressão. Destaco-lhe o lado enérgico, vivaz, com uma acidez salgada, muito linear e precisa, que nos acompanha do início ao final da prova.
Também não me deixou dúvidas que é um branco que pede mar à mesa. Ostras, lapas, cracas e outros bivalves serão escolhas naturais para acompanhar a sua salinidade, mas também o peixe grelhado, como a gigante corvina que lhe serviu de companhia, o marisco fresco ou pratos de peixe de preparação simples, onde a acidez e a mineralidade possam assumir protagonismo.
Cor amarelo citino aberto e luminoso, reflexos esverdeados, límpido e jovem. Plano aromático rico e desafiante, com as notas de fruta citrina a dominarem em primeiro plano, toranja, limão galego, em boa parceria com as notas de fruto tropical mais refrescante como o maracujá e a goiaba, complementados pela matriz vulcânica e mineral que acabam depois por tomar conta do bouquet com notas de pedra lascada, pólvora, componente salina e iodada, maresia em fundo. Na boca temos uma entrada muito directa, linear e focada, num primeiro ataque elétrico, energético, acidez vibrante que nos faz salivar de imediato e pensar em comida quase ao mesmo tempo, volume médio, textura sedosa e até envolvente, voltando aos sabores cítricos e mais amargos na fruta e sem desdenhar a assinatura mineral e ao lado pedregoso com subtil nota de giz. Termina longo e muito salino.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Quinta Vale da Roca: Uma História de Família, Uma Vinha Singular e os seus Vinhos

Na encosta sul do Cabo da Roca, na Azóia, entre a Serra de Sintra e o Atlântico, a Quinta Vale da Roca construiu uma identidade vínica que se distingue da imagem mais habitual de Colares. O projecto nasceu da paixão pelo vinho de um casal de arquitectos portugueses, que herdou a propriedade depois de esta ter permanecido durante várias gerações na família fundadora, e ali começou por fazer a sua casa de família, abrindo depois as portas à hospitalidade, com uma oferta de alojamento local diferenciada despoletada pela vontade de partilhar a beleza e a tranquilidade deste lugar. Mais tarde acabou por plantar a sua própria vinha. 

Na escolha das castas, seguiram também o gosto pessoal, plantando variedades que apreciavam encontrar nos vinhos que bebiam. Essa opção ajuda a explicar a presença de castas pouco habituais na região, como a Encruzado e a Pinot Noir. Mais recentemente, a vinha passou por uma renovação, com a Fernão Pires e a Arinto a darem lugar a mais Encruzado e a alguma Pinot Noir. m 2025, a quinta iniciou uma nova etapa, com uma nova família proprietária a assumir a continuidade do projecto, tanto na vertente vínica como na de alojamento. 

A casa deixou, assim, de ser também a residência dos proprietários, passando a estar inteiramente dedicada à actividade da quinta e ao acolhimento de quem a visita.

Ao longo da vida da propriedade, muitas foram as mudanças, mas uma das histórias mais interessantes está debaixo das videiras. A vinha própria, com cerca de três hectares, foi crescendo à medida que surgiam oportunidades de adquirir terrenos vizinhos. O desafio, porém, estava longe de ser simples: os solos são pobres e formados a partir da alteração de rochas graníticas e sieníticas. Ao contrário do tradicional chão de areia que associamos a boa parte da viticultura mais emblemática de Colares, aqui foi necessário conquistar espaço à própria rocha, removendo grandes blocos de granito para criar terreno onde plantar vinha. Um trabalho exigente, que ajuda a perceber melhor a singularidade deste lugar e o esforço por detrás de cada garrafa.
 
João Ribas e António Figueiredo
Desta vinha nascem três vinhos monovarietais — Malvasia, Encruzado e Pinot Noir — reunidos sob a gama Quinta Vale da Roca. A marca Vinha da Roca alarga o portefólio com vinhos elaborados a partir de uvas adquiridas a produtores locais. Na adega, António Figueiredo procura interpretar as castas e as particularidades deste território atlântico, onde a frescura do clima e a proximidade do mar têm um papel importante na identidade dos vinhos. No Enoturismo, João Ribas é a cara presente e mão experiente que acompanha cada visitante e hóspede nesta experiência singular.

Depois de conhecer a história da propriedade, perceber o desafio que representa cultivar vinha neste terreno e descobrir as opções que dão forma ao projecto, chegou o momento de passar para a experiência no copo. A prova permitiu conhecer diferentes interpretações deste terroir numa viagem que completou a visita à Quinta Vale da Roca. 
Entre os vinhos provados, três ficaram particularmente na memória. O Malvasia, pela sua identidade e pela forma como interpreta o lugar onde as vinhas estão situação; o Pinot Noir 2022, que mostrou personalidade suficiente para não passar despercebido, revelando uma expressão própria numa região onde não é a casta que esperamos encontrar; e um rosé rasgadinho, seco e cheio de frescura, daqueles que deixam vontade de voltar a encontrar em futuras colheitas. Ficam as minhas notas de prova e impressões sobre os vinhos que tive oportunidade de provar.

VINHA DA ROCA 2024 BRANCO | LISBOA | 13% | PVP  11€
ARINTO, FERNÃO PIRES, MALVASIA FINA
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
16
Cor amarelo citrino, aberto e luminoso, esverdados subtis, aspecto límpido e jovem. No nariz revela um perfil fresco e elegante, com fruta de pomar, notas citrinas e de polpa amarela, bem conjugadas com um ligeiro apontamento floral e uma componente atlântica muito subtil. Na boca, a entrada é aguerrida, sem timidez, com uma acidez vivaz e um registo seco que lhe dão energia e definição. O prolongamento e a afinação acompanham a prova até um final longo e duradouro, confirmando um branco que alia frescura a uma estrutura bem delineada.
Esta acidez vivaz e o perfil seco faz com que pense nele como um bom parceiro para peixe grelhado, marisco ou uma cataplana de peixe.

QUINTA VALE DA ROCA ENCRUZADO 2023 BRANCO | LISBOA | 11,5% | PVP  18€
ENCRUZADO
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17
Cor amarelo citrino, aberto, leve tonalidade palha, aspcto límpido e jovem. No nariz, ainda se revelam algumas marcas da passagem por barrica, com notas de baunilha e fruto seco, acompanhadas por fruta de polpa amarela e um floral perfumado que acrescenta intensidade ao conjunto. Na boca, apresenta menor volume, mas não perde presença, sustentado por uma fina camada de untuosidade que envolve o palato sem o tornar pesado e acidez equilibrada e bem pontuada, que lhe confere frescura e definição, enquanto a barrica surge mais integrada, embora continue presente, com a baunilha a deixar a sua marca. A componente salina acrescenta carácter e conduz a um final longo e persistente.
Aqui, à mesa, a minha escolha recai num peixe assado no forno ou um robalo grelhado, bem como em carnes brancas e preparações com molhos ligeiramente cremosos.

QUINTA VALE DA ROCA MALVASIA 2021 BRANCO | LISBOA | 13% | PVP  16€
MALVASIA
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17,5
Cor amarelo citrino, tonalidade esverdeada com reflexos palha, brilhante, límpido e de aspecto jovem. No plano aromático, mostra-se exuberante, com a fruta em primeiro plano, sobretudo notas de polpa amarela e fruta de caroço, bem conjugadas com um lado floral subtil, uma fina expressão salina e mineral, leve apontamento de cera de abelha em fundo. Na boca, o primeiro ataque é marcado pela salinidade, logo acompanhado por uma acidez vibrante, que seca o palato e imprime energia ao conjunto, revelando um perfil mineral expressivo, sem comprometer a boa cremosidade, enquanto surgem notas de azedas que acrescentam um lado mais ácido e vegetal. Vertical, firme e bem definido, termina longo, deixando uma impressão fresca e salina demonstrativo da presença próxima do Atlântico.
Um dose de Ostras ao natural, um peixe grelhado na ou uma travessa de marisco cozido. A felicidade às vezes é algo bastante simples. 

EMÍLIA DA ROCA 2024 ROSÉ | LISBOA | 12% | PVP  19€
CASTELÃO
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17
Cor rosa salmão intenso, com subtis acobreados, luminoso e brilhante, aspecto límpido e jovem. No plano aromático, começa por se mostrar mais delicado e tímido, revelando, ainda assim, de imediato, fruta vermelha e preta de bosque, com destaque para cereja e framboesa, num registo de bago fresco, acompanhado por um recorte salino e uma subtil nota terrosa. Na boca, recebe-nos com uma acidez atlântica implacável, crocante e vibrante, que define o perfil e lhe imprime tensão. Seco e preciso, conjuga tensão e elegância de mão dada, sem perder a delicadeza da expressão aromática, terminando longo, com uma persistência salina que prolonga a prova e lhe reforça a vocação gastronómica. 
Um rosé seco, tenso e elegante, daqueles que não ficam à margem da mesa, puxa pelo prato e pede comida por perto. Um tártaro ou um prego de atum sff.

VINHA DA ROCA 2024 TINTO | LISBOA | 14,5% | PVP  11€
TINTA RORIZ, TOURIGA NACIONAL, CASTELÃO
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
15,5
Cor vermelho rubi de média concentração, aspecto límpido e jovem. No plano aromático a fruta assume o protagonismo desde o primeiro contacto, num perfil directo e expressivo, onde se destacam notas de cereja, ameixa vermelha e framboesa, prolongando-se do nariz à boca. Mais opulento na expressão, mostra-se macio e envolvente, com taninos polidos que contribuem para uma prova fluida e acessível, que não procura impor-se pela complexidade ou pela estrutura, conquista pela expressão frutada, pela suavidade do conjunto e por um final longo e persistente.
À mesa será bem acompanhado por carnes grelhadas, um bom hambúrguer e pratos de cozinha italiana com carne.

QUINTA VALE DA ROCA PINOT NOIR 2022 TINTO | LISBOA | 13,5% | PVP  29€
PINOT NOIR
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17,5
Cor vermelho rubi de média concentração mais aberto, luminoso, reflexos granada, aspecto límpido e atraente. Aromaticamente, presenteia-nos com elegância e a frescura de uma fruta vermelha muito bonita, onde se destacam a cereja, a ginja, a romã e a framboesa. A estas juntam-se notas de flor seca, pinhal e turfa de pinhal, um subtil apontamento de cedro e uma fina componente salina que parece agarrar-se a todo o conjunto, reforçando a sensação de frescura e a identidade atlântica. Na boca, apresenta médio volume e estrutura, mas sem perder delicadeza e elegância. A textura é macia, quase mastigável, enquanto a acidez, no ponto, se revela vibrante e tensa, sustentando uma secura prolongada. A fruta regressa em excelente forma, acompanhada pelo carácter atlântico e por um tanino firme, mas mais polido, com a componente especiada bem integrada. Termina longo e prazeroso.
Está aberta a época dos jantares de caça onde este pinot noir fará todo o sentido, assim como com carnes vermelhas grelhadas e risotos de cogumelos.

QUINTA VALE DA ROCA PINOT NOIR 2023 TINTO | LISBOA | 13,5% | PVP  29€
PINOT NOIR
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17
Cor vermelho rubi de média concentração, luminoso e atraente, aspecto límpido e jovem. No nariz, brilha a fruta vermelha, com destaque para cereja e a romã, bem rodeada por notas de bosque e uma fina camada marítima que me recorda estar perante um Pinot Noir de costa. Na boca, apresenta volume médio, ainda assim um pouco mais cheio do que esperava, com textura macia e uma acidez precisa, sustentada por uma secura bem desenhada, regressando os apontamentos que nos remetem para o lugar, entre o salino e o terroso, conferindo identidade ao conjunto. O tanino firme dá estrutura à prova e acompanha o vinho até um final longo, onde a frescura e o carácter atlântico continuam a marcar presença.
A pensar na mesa, apostaria em magret de pato, codorniz assada ou pratos de cogumelos, no fundo, sabores de outono que podem acompanhar a expressão do vinho.

A experiência de enoturismo disponível permite descobrir a propriedade, adega, vinhas e os seus vinhos através de visitas e provas, proporcionando um contacto mais próximo com a história da quinta e cada singularidade que define a identidade do projecto. Uma forma de conhecer este recanto de Sintra também através do que chega ao copo.
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QUINTA VALE DA ROCA

Morada: Rua Casal Farripas 8, 
                2705-001 AZÓIA
                COLARES
 
Telefone: +351 968 207 782 / +351 961 308 799
Estacionamento: Gratuito

Visitas e provas: Consultar todas as opções e formas de reservar em https://valedaroca.com/pt/wine-tasting/