Nove novas colheitas revelam duas formas distintas de interpretar o património vitícola do Douro. Na Quinta da Boavista, a diversidade de parcelas e exposições; na Quinta de São Luiz, o carácter das vinhas antigas e a identidade das castas tradicionais. Duas quintas históricas, um território comum e diferentes olhares sobre a região.
As novidades do grupo Kopke chegam de duas quintas históricas do Douro, a Quinta da Boavista e a Quinta de São Luiz, propriedades que, apesar de partilharem a mesma região e uma longa ligação à vinha, têm percursos e patrimónios vitícolas com características próprias. As novas colheitas recentemente apresentadas são uma boa oportunidade para olhar para essas diferenças e perceber como cada uma procura traduzir a identidade do lugar nos vinhos que produz.
Na margem direita do Douro, perto do Pinhão, a Quinta da Boavista distingue-se pela diversidade da sua paisagem vitícola. São cerca de 35 hectares de vinha, distribuídos por patamares, terraços e socalcos de xisto, a diferentes altitudes e exposições. Um património que permite explorar várias interpretações da propriedade, indo desde vinhos de casta, como os Touriga Nacional e Touriga Franca, a referências que nascem de vinhas velhas e parcelas históricas, como o Vinha do Oratório e o Vinha do Ujo. É precisamente essa diversidade que sobressai nas seis referências agora apresentadas, onde cada vinho procura revelar uma faceta particular da quinta.
A Quinta de São Luiz, também ela profundamente ligada à história vitivinícola duriense, apresenta uma abordagem onde as vinhas antigas e a seleção de parcelas assumem um papel central. A Vinha Rumilã, com cepas centenárias e uma produção naturalmente reduzida, é um dos exemplos mais expressivos desse património. A par desta, o Vinhas Velhas recupera uvas de vinhas com mais de 50 anos, enquanto o branco Winemaker’s Collection Folgazão & Rabigato dá continuidade ao estudo de duas castas tradicionais no Baixo Corgo, recorrendo também a uvas da Quinta do Bairro. São três vinhos distintos, com produções limitadas, nos quais a origem das uvas e o tempo de estágio contribuem para definir o perfil de cada referência.
É aqui que encontro o principal ponto de ligação entre as duas quintas: a vontade de valorizar o património vitícola e de mostrar que o Douro não se esgota num único perfil ou numa só interpretação. Na Quinta da Boavista, essa leitura passa sobretudo pela diversidade de parcelas, altitudes e exposições; na Quinta de São Luiz, ganha expressão através da idade das vinhas, da seleção de castas e do trabalho sobre referências muito particulares. Duas formas de olhar para o mesmo território, com o enólogo Ricardo Macedo à frente deste trabalho, que chegam agora ao mercado através de nove novas colheitas - seis da Quinta da Boavista e três da Quinta de São Luiz.
ARINTO, VIOSINHO
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor amarelo citrino definido, brilhante e cristalino, tonalidade esverdeada, aspecto límpido e jovem. No plano aromático, revela perfil elegante, mostrando notas de fruta de pomar e citrina madura, alperce, pêssego, melão e toranja, surgindo uma ligeira pincelada floral, com a barrica muito bem integrada, um leve apontamento fumado em fundo, especiaria fina e uma interessante componente salina, com notas de pedra lascada e vinco mineral. Na boca tem o condão de nos prender a atenção desde o primeiro contacto, oferecendo volume e untuosidade, boa largura e uma cremosidade fina, tudo sustentado por uma acidez vibrante e prolongada. A fruta mantém-se airosa e saborosa, surgindo também um subtil toque especiado. O conjunto é linear, harmonioso e muito prazeroso, com um final de boca longo e persistente.
A acidez e a dimensão mineral leva-me para ligações naturais com peixe gordo, talvel o bacalhau com todos, sem dúvida o marisco e pratos de peixe assado. Queijos de pasta semicurada poderão também resultar bem.
SÃO LUIZ WINEMAKER'S COLLECTION GRANDE RESERVA 2022 BRANCO | DOURO | 13,5% | PVP 30€
FOLGAZÃO, RABIGATO
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor amarelo citrino, tonalidade esverdeada, aspecto límpido, brilhante e jovem. No nariz, oferece, com elegância e delicadeza, fruta fresca de polpa amarela, num registo de maturação bonita, onde surgem pêssego, alperce e notas de fruto de pomar, melão, com a componente citrina a funcionar como tempero, acompanhada por uma pincelada floral e por apontamentos da passagem por barrica, muito bem integrados, com uma leve nota de panificação e uma subtil sugestão de pimenta branca.
Na boca, revela volume e uma textura cremosa, bem amparados por uma acidez vibrante. A fruta mantém-se bonita e sumarenta, com boa largura de boca, prolongamento e uma secura que equilibra o conjunto. É um vinho harmonioso e particularmente prazeroso, com um final longo, onde nunca se perde aquela finesse que marcou o primeiro contacto. Um branco de presença e dimensão, mas sem sacrificar a elegância.
Esta combinação de textura, acidez e estágio em madeira, faz com que pense em pratos de peixe assado no forno, bacalhau confitado ou pratos de aves com molhos mais delicados.
QUINTA DE SÃO LUIZ VINHAS VELHAS GRANDE RESERVA 2022 TINTO | DOURO | 14% | PVP 48€
VINHAS VELHAS
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor vermelho rubi concentrado, profundo, auréola luminosa e brilhante, aspecto límpido e jovem. Aromaticamnete apresenta-se cheio e complexo, mas com uma finesse que se revela desde o primeiro contacto. A fruta preta e vermelha, madura e fresca, surge bem definida, acompanhada por bonitas notas de frutos silvestres e de bosque com casca de laranja a aparecer em apontamento subtil, envolvida por um registo floral perfumado e equilibrado. Juntam-se a especiaria fina, uma componente balsâmica arejada, folha de tabaco seca e notas mentoladas em fundo, com uma sugestão de hortelã-da-ribeira. Um perfil aromático de grande equilíbrio e definição. Na boca, confirma a frescura que já anunciava no nariz. Tem volume e estrutura, mas sem se tornar pesado, mostrando um lado elegante, de textura macia e aveludada, sustentado por uma acidez que tempera o conjunto e uma ligeira secura que vai surgindo gradualmente, sem retirar espaço à fruta, enquanto o tanino se afirma, mas com uma expressão sedosa e macia. A passagem por barrica acrescenta amplitude e deixa novamente espaço à especiaria. Termina longo e persistente, num conjunto harmonioso que conjuga estrutura, frescura e finesse.
VINHAS VELHAS
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18,5
Cor vermelho rubi concentrado, profundo, reflexos violeta mais denso, aspecto límpido e jovem. A componente aromática revela complexidade e riqueza, revelando o fruto silvestre preto com presença de destaque, maduro na medida certa, lado a lado com um registo floral afinado, de violetas e alguma esteva, notas provenientes do estágio em barrica bem integradas, subtil fumado, especiaria fina, um toque balsâmico refrescante e algum cacau, revelando um componente fresca que envolve todo o bouquet, onde se destacam apontamentos mentolados e de ervas aromáticas. Na boca entrega corpo e volume, mas num registo de equilíbrio notável e grande elegância. A textura é macia e sedosa, sustentada por uma acidez no ponto, que o torna cativante e envolvente sem esconder a fruta, bonita e fresca encostada ao tanino polido, mas firme e mantendo o conjunto coeso e harmonioso. Termina longo, sedutor e persistente, deixando uma excelente impressão e vontade de voltar a ele quase de imediato.
TOURIGA NACIONAL
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor vermelho rubi intenso, concentrado, nuances violeta, aspecto límpido e jovem. No nariz revela uma Touriga Nacional muito elegante e fresca, revelando, num primeiro contacto, fruta vermelha e preta maduras, bem casadas com um floral mais fino e menos exuberante e, à medida que vamos tendo tempo com ele no copo vamos percebendo as notas da passagem por barrica bem integradas. Boca com ataque vivaz, bom volume e estrutura, textura macia, envolvente, com subtil sensação mastigável, quase como um traço terroso em combinação com uma fruta muito bonita e sumarenta, tanino polido, mas firme, com término de boca longo e prazeroso.
A expressão mais elegante, fresca e com boa fruta da Touriga Nacional levam-me de imediato para os sabores de conforto dos assados no forno como um cabrito assado, borrego de confeção lenta ou para a posta de vitela na brasa, rojões tradicionais ou com pratos de caça de pelo.
BOA-VISTA TOURIGA FRANCA 2022 TINTO | DOURO | 14% | PVP 45€
TOURIGA FRANCA
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor vermelha rubi profunda e concentrada, auréola luminosa, aspecto límpido e jovem. No plano aromático revela, de forma expressiva, a fruta preta e silvestre madura, frutos do bosque, de bago, cereja preta, amora e cassis, perfumado subtil a seu lado, com notas de espaciaria bem medidas, leve apontamento quimico, grafite, perfil fresco. Volumoso e complexo na prova de boca, textura firme, macia, com acidez bem colocada, boa secura que nos faz aguçar o palato, continuando com a fruta muito distinta e fresca, tanino polido e um final de boca longo e persistente.
Pede comida, pratos de carne com alguma intensidade, sem exigir preparações demasiado pesadas, como um lombo de porco assado com ervas aromáticas, um arroz de pato tradicional ou em pratos de caça de penas.
BOA-VISTA RESERVA 2022 TINTO | DOURO | 14% | PVP 45€
TOURIGA NACIONAL, TOURIGA FRANCA, TINTO CÃO, VINHA VELHA
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18
Cor vermelha rubi de média concentração, profunda, com auréola luminosa, aspecto límpido e jovem. O nariz revela desde logo profundidade e complexidade, com a fruta preta madura e fresca a assumir o primeiro plano, surgindo depois notas de casca de laranja, acompanhados por uma componente floral perfumada e bem doseada. Componente aromática de bosque que se cruza com especiaria abundante, enquanto apontamentos de caixa de charuto e um balsâmico fresco acrescentam profundidade e elegância ao conjunto. Na boca, mostra firmeza e dimensão, revelando-se volumoso, cheio e concentrado, mas sem perder elegância, com uma textura macia e aveludada, sustentada por uma acidez vivaz, no ponto certo de equilíbrio. A fruta mantém-se em destaque, acompanhada por apontamentos citrinos subtis e uma frescura que prolonga a sensação de harmonia. O tanino apresenta-se polido, mas denso, contribuindo para a estrutura e consistência do vinho. Tudo funciona em plena sintonia, num conjunto muito prazeroso de beber, que termina com um final de boca bastante longo e persistente.
Um reserva de grande presença que escolheria para um naco de novilho na brasa acompanhado por um arroz de forno de enchidos e uma fatia de torta de laranja com canela para final de festa.
QUINTA DA BOAVISTA VINHA DO UJO 2022 TINTO | DOURO | 14% | PVP 125€
VINHAS VELHAS
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
19
Cor rubi de média concentração, tonalidade violácea, lágrima definida no copo, aspecto límpido e jovem. No nariz, revela-se rico e complexo, num registo de grande elegância e delicadeza. A fruta vermelha e preta madura surge bem definida, com destaque para a cereja preta, ameixa preta e a romã, enquanto a componente de bosque ganha expressão, trazendo consigo notas de pinhal, caruma verde e algum mato seco. O conjunto é envolvido por um balsâmico fresco e elegante, a que se junta uma componente especiada, num perfil aromático fresco, desafiante e cheio de nuances que vão aparecendo à medida que se ajeita ao copo. Na boca, é daqueles vinhos que nos deixam sem palavras. Mostra volume e estrutura, mas é a elegância e o equilíbrio que verdadeiramente se impõem. Gracioso, sedutor e muito prazeroso, apresenta uma textura macia e aveludada, com uma acidez precisa e firme, que conduz a prova num prolongamento delicado. A fruta mantém-se saborosa e cheia, enquanto o tanino, polido e fino, sustenta o conjunto sem lhe retirar leveza. Tudo parece fazer sentido desde o primeiro contacto. Um vinho uno, harmonioso e de enorme finesse, cujo final de boca parece não terminar.
Um vinho que à mesa precisa impressiona com um borrego assado no forno e suas batatas bem embebidas nos sucos que a carne foi largando ao longo de demorada cozedura.
QUINTA DA BOAVISTA VINHA DO ORATÓRIO 2022 TINTO | DOURO | 14,5% | PVP 125€
VINHAS VELHAS
KOPKE GROUP FINE WINES, SA
18,5
Cor vermelho de tonalidade púrpura, concentrado, aspecto límpido e jovem. No nariz, o primeiro impacto é de grande pureza e elegância, com a fruta vermelha e preta madura a surgir em perfeita definição, acompanhada por notas de fruto azul de bago e com uma pincelada floral que impõe mais expressão e frescura, num registo que vai ganhando profundidade com apontamentos delicados de torrefação, fumados, especiaria e um balsâmico refrescante, num conjunto aromático de grande riqueza e complexidade que se vai revelando camada após camada. Na boca, confirma-se toda essa dimensão, oferecendo estrutura e presença, de textura macia e aveludada, sem perder elegância em virtude da sua acidez, vibrante e viva, que lhe imprime ritmo e frescura, enquanto uma secura fina e salivante prolonga a sensação de equilíbrio. O tanino mostra-se poderoso e genuíno, com carácter e firmeza, sem comprometer a harmonia do conjunto. O final é longo, muito persistente e deixa uma marca difícil de esquecer.
À mesa podemos continuar com o que deixamos do anterior - o borrego assado no forno -, pedir uma alcatra de vitela assada lentamente ou um prato de caça, como veado ou javali.
![]() |
| Márcio Nóbrega (Responsável viticultura Kopke Group) e Ricardo Macedo (Enólogo Quinta da Boavista e Quinta de São Luiz)) |































