quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Adega Regional de Colares: Seis Vinhos, Uma Identidade Que Resiste


Colares continua a provar que a tradição também pode ganhar novas formas. Fui conhecer as mais recentes propostas da Adega Regional de Colares e encontrei seis vinhos que percorrem diferentes caminhos, mas que têm em comum uma coisa difícil de replicar: a identidade de um território moldado pela areia, pelo Atlântico e pela história.

Entre o Atlântico e a Serra de Sintra, num terroir onde a influência marítima se sente na vinha e se prolonga no copo, sobrevivem algumas das vinhas mais singulares do País, plantadas em solos de areia onde as raízes das videiras conseguem descer em profundidade à procura de humidade e de solo para além da areia. Poucas regiões vitivinícolas portuguesas têm uma identidade tão marcada pelo lugar onde nascem como Colares e, é neste cenário muito particular que se construiu a história dos Vinhos de Colares e, sobretudo, a resistência de castas como o Ramisco e a Malvasia de Colares.
Fundada em 1931, a Adega Regional de Colares nasceu precisamente com a missão de juntar produtores e preservar este património vitivinícola. Ao longo de décadas, tornou-se uma das principais guardiãs da denominação e de uma forma de fazer vinho que, apesar das dificuldades e da redução da área de vinha a que foi sujeita, continua a distinguir Colares de qualquer outra região portuguesa.
Hoje, entrar na Adega Regional de Colares é também encontrar diferentes maneiras de interpretar este território. De um lado, vinhos mais acessíveis e de perfil conscensual; do outro, os Arenae, onde as vinhas de areia, o pé-franco e as castas tradicionais ganham outra dimensão. É precisamente essa diversidade que estas novas colheitas ajudam a mostrar, com seis vinhos que vão do Chão Rijo aos Arenae, passando por brancos, rosés, tintos e um clarete que recupera uma expressão muito própria da região.
 
CHÃO RIJO 2019 TINTO | LISBOA | 12% | PVP  6,50€
CASTELÃO, TINTA RORIZ
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
16.5
Cor vermelho rubi de média concentração, luminoso, aspecto límpido e jovem. No nariz mostra fruta vermelha madura, ameixa e cereja, acompanhadas por notas subtis de ervas secas, ligeiro tostado e uma discreta componente balsâmica. Na boca revela uma estrutura de corpo médio, com a fruta a regressar logo de início acompanhada por uma sensação mineral, registo leve,  com uma acidez muito bem colocada que mantém o conjunto vivo, tanino já polido num conjunto que privilegia equilíbrio e frescura em vez de concentração, beneficiando claramente do tempo que passou até chegar ao copo e com um final seco e persistente. 
Brilha quando chega à mesa carnes vermelhas como porco preto, secretos grelhados, entrecosto, pratos de caça de menor intensidade ou um belo arroz de pato. 
 
CHÃO RIJO 2025 BRANCO | LISBOA | 11,5% | PVP  6,50€
MALVASIA, GALEGO DOURADO, JAMPAL, FERNÃO PIRES
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
16,5
Cor amarelo limão brilhante, aberto e luminoso, aspecto límpido, jovem e atrativo. Revela um perfil aromático fresco e expressivo, com incidência na fruta, com lima, limão, maçã verde e fruta de polpa branca, acompanhadas por discretas notas florais e uma sugestão mineral, aqui mais presente que no tinto. Na boca não engana e apresenta boa frescura, acidez firme, acutilante e uma sensação ligeiramente salina que lhe dá personalidade e vínculo ao terroir, num conjunto leve, directo e equilibrado, terminando fresco e com uma agradável persistência citrina.
Muito fácil de levar para companhia com comida com ligações vencedoras quando com peixe grelhado, marisco, saladas, ceviches, sushi e pratos de cozinha asiática.

CHÃO RIJO 2025 ROSÉ
| LISBOA | 12% | PVP  6,80€
CASTELÃO
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
17
Cor rosa salmão com reflexos acobreados, brilhante e atrativo, aspecto límpido e jovem. Aromaticamente fresco e delicado, dominado por morango, framboesa e outras pequenas bagas vermelhas, acompanhadas por discretas notas florais e a subtil nuance salina que lhe confere uma dimensão extra. Na boca confirma a leveza aromática, com acidez bem pontuada e vibrante, perfil fresco, mais seco e de textura macia. A componente mineral e a ligeira salinidade adicionam comprimento e um carácter atlântico evidente num final de boca longo e seco.
À mesa pensei logo nele para sardinhas assadas, peixe grelhado, marisco de concha, sushi e cozinha oriental. Um piscar de olho também às conservas de peixe de sardinha e cavala.
A novidade que acrescenta uma terceira leitura à gama e leva para um registo mais descontraído a influência atlântica de Colares. É um rosé de Castelão cheio de frescura e sem complicações, mas sem abdicar daquele toque salino, acidez vibrante e com grande presença à mesa. Espero que se continue com ele nas próximas colheitas.

ARENAE MALVASIA 2023 BRANCO | COLARES | 12% | PVP  22,60€
MALVASIA DE COLARES
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
18
Cor amarela citrina, aberta e com pouca densidade, luminoso, brilhante, límpido e jovem.  No plano aromático revela a complexidade e riqueza esperada, agarrando-nos num registo e muita frescura e elegância onde a fruta citrina se cruza com notas de maçã cozida, ervas aromáticas, subtil anisado, mel e cera de abelha, surgindo, depois a acompanhar, nuances mais salinas e minerais. Na boca revela-se seco e fresco em volume médio, com uma acidez muito presente e uma interessante sensação agridoce que lhe dá profundidade, juntando-se à componente atlântica, bem marcada, prolongando-se num final de boca onde a mineralidade, a salinidade e uma ligeira sensação iodada ganham protagonismo. 
À mesa pedimos MAR, percebes, cracas, lapas, marisco de concha, peixe grelhado, arroz de marisco e ostras só com a sua água.
 
ARENAE RAMISCO 2017 TINTO | COLARES | 12% | PVP  25,50€
RAMISCO
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
18,5
Cor vermelho rubi com subtil nota evolução, média concentração, ainda com boa densidade e luminosidade, límpido e ainda assim jovem. Plano aromático profundo e que nos leva de imediato para Colares, com as notas de ginja, fruta vermelha madura, alguma erva seca, cedro e discretas e bem integradas notas balsâmicas, a que se junta a assinatura atlântica tão característica. Na boca revela estar num grande momento, mostrando-se seco, austero e elegante, com taninos firmes, mas muito mais polidos do que seriam num Ramisco jovem, onde a acidez é uma das suas grandes virtudes, trazendo tensão e frescura a um conjunto de grande identidade, onde a marca salina e mineral se mostra persistente num final é longo, seco e prazeroso.
O cabrito saloio assado no forno, o borrego, a caça de pele, cogumelos e pratos de forno. Está a entrar o outono na Serra, na cozinha e na mesa. 

 
ARENAE CLARETE 2025 TINTO
| LISBOA | 11% | PVP  16,90€
RAMISCO, MOLAR
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
18
Cor vermelho rubi intenso, pouco concentrado, luminoso e brilhante, aspecto límpido e jovem. Plano aromático fresco e expressivo, com fruta vermelha de perfil delicado, cereja, romã e ginja, apontamentos florais bem medidos, subtil componente salina, com presença de pinhal, pinhão e leve componente vegetal que lhe acrescentam identidade, sem nunca perder elegância. Na boca é onde mais surpreende com um primeiro ataque de vivacidade, frescura e leveza,  para depois nos abraçar com uma acidez deliciosa que lhe dá tensão e energia, oferecendo a fruta bem definida e taninos finos, discretos e perfeitamente integrados, textura sedosa, embora trincável, sem o peso ou a concentração que normalmente associamos a um tinto, enquanto o final, fresco e persistente, confirma um vinho pensado mais para a elegância e para a mesa do que para a força. Longe de ser simples, um encontro feliz onde a austeridade potencial do Ramisco encontra na Molar a suavidade e a fruta necessárias para construir um conjunto muito equilibrado e surpreendentemente gastronómico. (Clica no link para publicação dedicada)
 
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ADEGA REGIONAL DE COLARES 

Morada: Alameda Coronel Linhares de Lima, 32, 
               2705-351 COLARES

Horário: Segunda-feira a sábado, 09h00–13h00 e 14h00–18h00. Encerra aos domingos e feriados nacionais e municipais.
 
Telefone: +351 219 291 210
Estacionamento: Gratuito

Visitas e provas: É possível fazer uma visita sem guia ao edifício principal do século XIX, acompanhada de uma prova informal na loja. A reserva é recomendada e o mínimo é de duas pessoas. Seguir este link para mais informações, preços sempre actualizados e reservas.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Armán Finca Os Loureiros Edición Limitada 2021 Branco

ARMÁN FINCA OS LOUREIROS EDICIÓN LIMITADA 2021 BRANCO | DO RIBEIRO (ESP) | 13% | PVP  29€
TREIXADURA
BODEGAS CASAL DE ARMA'N, SL
17,5

Daqueles brancos que me despertou a atenção logo pelo primeiro contacto, mostrando a Treixadura com uma dimensão que vai muito além da fruta e da frescura, revelando volume, textura e uma interessante complexidade trazida pelo estágio em madeira e sobre as borras. 
Gostei particularmente da forma como tudo se conjuga sem que a madeira tome conta do vinho, havendo profundidade e uma dimensão mais gorda, mas também equilíbrio e frescura, num branco que pede tempo no copo e, sobretudo, pede mesa.
Fez com que pensasse em pratos com algum peso e onde existisse matéria suficiente para acompanhar o seu volume e textura. Um bom peixe assado, um bacalhau no forno ou um arroz de marisco bem feito, mas também com polvo assado ou uma ave assada com algum molho. Vai correr bem de certeza.  
Cor amarela intensa e definida, tonalidade palha, brilhante, aspecto límpido e ainda jovem. No plano aromático mostra boa intensidade e definição, rico, mas elegante e fino ,começando por fruta de polpa madura, como pera, maçã e sugestões de pêssego, a que se juntam notas cítricas maduras, um pouco evoluídas e recorte mineral evidente. A madeira surge bem integrada, aportando apontamentos subtis de baunilha e especiaria, acompanhados por uma pitada de pastelaria, revelando ainda uma componente floral discreta. Com o tempo no copo parece ganhar dimensão e profundidade. Boca num plano de prova superior ao nariz, com um primeiro ataque vivaço e a mostrar acidez com tensão e prolongamento, mas cremoso e estruturado, textura macia - um dos seus pontos fortes-, com a componente de fruta a surgir novamente bem definida, acompanhada por notas de especiaria e uma madeira que se mantém integrada. Há volume e alguma untuosidade, mas sem perder a frescura necessária para que o conjunto não se torne pesado. Termina longo e com boa persistência.

domingo, 4 de outubro de 2026

D. Graça Espumante Bruto Tinto Cão 2020 Rosé

D. GRAÇA ESPUMANTE BRUTO TINTO CÃO 2020 ROSÉ  | DOURO | 12,5% | PVP  17,95€
TINTO CÃO
VINILOURENÇO, LDA
Dégorgement 08/2024
17 

A casta Tinto Cão é uma das castas mais interessantes e menos consensuais do Douro, sobretudo quando sai dos lugares mais previsíveis e habituais. Neste caso, a Vinilourenço leva-a um pouco mais longe, criando um espumante tinto bruto, numa interpretação pouco habitual que preserva a identidade da casta sem esconder a sua personalidade. Em rosé tranquilo já começamos a vê-la com o destaque que merece e com belíssimos resultados, mas em rosé espumante é raro. O resultado convence, ganhando leveza e frescura através da bolha, fugindo um pouco ao perfil habitual dos espumantes, com grande apetência gastronómica e que merece ser descoberto.
A acidez e a estrutura tânica permitem acompanhá-lo com bacalhau, polvo assado, arroz de forno, carnes brancas mais condimentadas ou mesmo uma bela sardinhada de final de verão. Se há alguma gordura ou molho a equilibrar claramente será uma escolha acertada.
Cor amarela com tonalidade casca de alperce, subtis acobreados, luminoso e brilhante, aspecto límpido com bolha fina e cordão persistente. No plano aromático começa fresco e expressivo, com fruta vermelha num perfil delicado, onde surgem notas de morango, framboesa e frutos silvestres, acompanhadas por um discreto lado floral, revelando nuances mais finas de panificação e brioche, muito bem integradas na componente frutada, sem que esta perca a sua vivacidade. Encontro-lhe ainda uma subtil sugestão mineral e citrina que contribuem para a sensação de frescura que oferece. Na boca mostra-se seco, fresco e cremoso, com acidez bem presente e uma mousse fina que percorre o palato sem se sobrepor ao conjunto, reaparecendo a fruta vermelha com boa definição, acompanhada por uma ligeira sensação mineral e novamente por apontamentos de pão e brioche. Revela bela tensão final, equilíbrio, elegância e generosa persistência. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Dalva Late Bottled Vintage Port 2019

DALVA LATE BOTTLED VINTAGE 2019  | PORTO | 20% | PVP  14,50€
CASTAS TRADICIONAIS DOURO
GRANVINHOS, LDA
17

Um LBV (Late Bottled Vintage) apostado sobretudo na fruta e numa estrutura suficientemente firme para não deixar que a doçura domine o conjunto, ainda numa dimensão relativamente jovem, mas já com o tempo necessário para se apresentar mais polido e pronto a beber. Surpreendeu-me pela sua frescura e uma relação qualidade-preço feliz.
Estamos perante um Porto que funciona muito bem com queijos de pasta dura e cura prolongada ou ainda com queijos azuis, o Blue Stilton – o meu pairing de eleição-, mas também com sobremesas onde o chocolate negro tenha papel de destaque. Eu experimentaria ainda com uma sobremesa de frutos vermelhos pouco doce, permitindo que a boa fruta do LBV dialogue com o prato sem criar um conjunto excessivamente pesado.
Cor vermelho rubi profundo e opaco, auréola luminosa de tonalidade violácea, límpido e de aspecto muito jovem. Expressivo no plano aromático, onde a fruta preta e vermelha madura se cruza com sugestões de frutos silvestres,  framboesa, ameixa e amora silvestre, subtil floral bem encaixado num evidente e interessante lado mentolado e balsâmico, revelando ainda, à medida que se habitua ao copo, notas de especiarias, sobretudo pimenta e algumas nuances de alcaçuz, com um discreto fundo de cacau/chocolate negro. Na boca continua em evidência este perfil baseado em frescura e grande equilíbrio, não deixando de mostrar bom corpo e envolvência, com a fruta novamente em primeiro plano, casada com a componente especiada que lhe acrescenta alguma complexidade, traço de cacau negro em final, com tanino polido, mas firme, textura macia, terminando com boa persistência,  deixando a fruta e um cacau subtil em fundo a brincar com o nosso palato.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Buçaco Rosado Reservado 2020 Rosé

BUÇACO ROSADO RESERVADO 2020 ROSÉ | IVV | 13% | PVP  69€
BAGA
ALEXANDRE DE ALMEIDA PROD E COM DE VINHOS, SOC UNIP, LDA
18

Quando se fala dos vinhos Buçaco, temos de ter em conta que estamos perante um território diferente, onde a tradição e a capacidade de envelhecimento contam tanto como a própria colheita. E a história ou será mais Estória também conta. Criado para a adega do Palace Hotel-Bussaco, este rosé segue a tradição dos vinhos Buçaco, pensados desde a origem para acompanhar a gastronomia do hotel e envelhecer com dignidade em garrafa. O Reservado Rosé mantém esse propósito, apresentando-se como um vinho de mesa sério e gastronómico, longe do perfil imediato e descontraído que normalmente associamos à categoria dos rosés. É um rosé que apetece agora que as temperaturas baixam, diria um rosé de inverno com grande presença no verão, se for para o levar à mesa. Estejam preparados para um rosé com estrutura, acidez, secura e, repito, uma dimensão gastronómica que o coloca de forma certeira na companhia de comida.  A idade? Apenas um número.
Cor salmão intenso, com tonalidade acobreada, sinal de alguma evolução, aspecto límpido e atrativo. No nariz começa por se mostrar um pouco contido, quase como uma face séria e fria,  onde a fruta vermelha surge subtilmente acompanhada por notas florais, vinco mineral e um discreto, mas presente, lado terroso. Com o tempo no copo fica mais evidente uma componente de ervas secas e especiaria, acrescentando-lhe complexidade e profundidade. A boca confirma essa percepção aromática. Seguimos num registo seco, tenso e com uma acidez muito viva, mostrando uma estrutura pouco habitual num rosé português, mas perfeitamente integrada, com textura, profundidade e uma frescura que lhe dá enorme equilíbrio, deixando a fruta marcar presença, embora mais contida, sempre enquadrada pela acidez e por uma componente mineral que prolonga a prova. Há aqui uma nota de evolução em garrafa que, sem dúvida, lhe trouxe maior integração e alguma suavidade ao conjunto, mas sem retirar o nervo e a identidade do vinho. Termina longo, fresco e muito gastronómico, deixando uma excelente impressão.