Na Quinta da Moscadinha, na Camacha, a maçã não é apenas matéria-prima. É o ponto de partida para um projecto com o qual tive o primeiro contacto há cerca de pouco mais que um ano e que tem vindo a recuperar pomares antigos, alguns deles esquecidos durante décadas, e a procurar novas formas de trabalhar uma fruta que faz parte da história da Madeira. Pela mão de Márcio Nóbrega, produtor e proprietário da quinta, a tradição da Sidra na Ilha tem ganho novas interpretações, sem perder a ligação ao território e às variedades que lhe dão identidade.
O regresso à Quinta da Moscadinha acontece, recentemente, por ocasião da apresentação de três novidades que mostraram precisamente essa vontade de experimentar e de ir mais longe, nunca perdendo a linha condutora à tradição e à história. É neste contexto que nasce a Ancestrale, uma sidra criada a partir de 98 variedades de maçã; a Altitude, uma rara sidra de pera produzida pelo método clássico; e a primeira Aguardente de Maçã da Quinta da Moscadinha.
A história começa, naturalmente, pela maçã. A Madeira conta com cerca de 135 variedades, embora apenas 42 estejam catalogadas, e foi precisamente essa diversidade que esteve na origem da Ancestrale. Durante a apanha de 2023, a equipa da Quinta da Moscadinha foi separando maçãs que não reconhecia entre as variedades normalmente utilizadas nos seus lotes. No final, todas acabaram reunidas numa mesma produção, dando origem a apenas 400 garrafas.
O resultado é uma sidra que pretende ser mais do que uma bebida, mas também uma espécie de retrato da diversidade dos antigos pomares madeirenses. Na segunda fermentação em garrafa foi utilizado o próprio mosto de maçã para o licor de tiragem, uma opção que procura manter a fruta e a sua origem no centro da expressão da sidra.
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS (98)
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
17,5
Cor amarela em tonalidade dourada, brilhante e atractiva, revelando uma expressão muito própria, oferencendo no aroma, a maçã em diferentes registos, entre fruta fresca e alguma componente mais madura, com notas que lembram pomar e casca de maçã, não fugindo do registo de frescura, mas adicionando riqueza ao bouquet. A boca é seca, tensa e refrescante, com uma acidez bem marcada e bolha, mais uma vez, muito delicada e envolvente, que se mostra sem se sobrepor à fruta. Final longo e prazeroso, mais gastronómica do que simplesmente refrescante, e que beneficia claramente de ser bebida com atenção.
A segunda novidade levou-me para outro território. Uma sidra de pera, ou perry, produzida a partir de um antigo pomar situado a 1100 metros de altitude, considerado o mais alto da Ilha. Apesar de não ser uma fruta fácil para trabalhar em sidra pois apresenta baixa acidez, poucos nutrientes, açúcares não fermentáveis e rendimento reduzido, a descoberta deste pomar e de uma variedade que se presume ser Conference, embora já revele sinais de hibridação, levou a Quinta da Moscadinha a experimentar. E em boa hora o fez. Sem dúvida uma incursão pouco habitual no universo sidreiro madeirense, mas que resulta e, sobretudo, nos mostra uma forma diferente de olhar para outras frutas para além da maça.
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
17
Cor amarelo citrino, bolha fina e persistente, revelando na componente aromática a fruta branca e de pomar, pitada floral e sempre com nota de frescura muito evidente. Na boca é delicada e elegante, secura média, com acidez firme e uma bolha fina, com subtil espuma, que ajuda a prolongar a prova. A pera deixa uma expressão diferente da maçã, menos directa e mais subtil, ligeira doçura, embora equilibrada e com boa persistência final.
A terceira novidade muda completamente de registo e entra no território dos destilados. A Aguardente de Maçã resulta da destilação de 2500 litros de sidra, que deram origem a apenas 216 litros de aguardente. Depois, passou três anos em barricas usadas de carvalho francês, antes de chegar ao mercado em 504 garrafas numeradas de 500 ml. A Quinta da Moscadinha chama-lhe o primeiro “rum” de maçã da Ilha, embora a própria designação não possa ser utilizada comercialmente, uma vez que “rum agrícola” corresponde a uma denominação protegida. No entanto, mais importante do que o nome é, neste caso, o caminho feito até ao resultado: partir da maçã madeirense, transformá-la em sidra, destilá-la e deixá-la evoluir durante três anos em madeira. O resultado está incrível.
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
18
Cor âmbar jovem, reflexos dourados, luminosa e atrativa. Plano aromático completamente diferente revelando uma expressão mais quente e profunda, com a fruta madura a surgir acompanhada por notas de madeira, especiarias e uma componente ligeiramente tostada, com o fruto seco torrado em fina aparição, mais complexidade e desafio. Na boca é envolvente, mas mantém uma boa definição, com a maçã a continuar presente por baixo da madeira e do álcool, textura macia e aveludada e com término de boca longo e ligeiramente especiado. Para beber com tempo e apreciar.
Oportunidade ainda para voltar a provar as Quinta da Moscadinha Sparkling e a TN do mesmo lote (2024) já provadas anteriormente e a Quinta da Moscadinha Madeira Royal Cider Meia Doce já de lote mais recente, mas que mantém o mesmo perfil da anterior.
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
JOSÉ MÁRCIO RODRIGUES DE NÓBREGA UNIPESSOAL, LDA
18
Cor âmbar, ligeiramente mais escura que a anterior, aspecto límpido e atraente. Revela perfil aromático intenso e envolvente, no qual surgem frutos secos, casca de laranja e compota, acompanhados por notas de madeira e uma discreta componente evolutiva que lhe acrescenta complexidade. Muito similar à anterior. Na boca é doce, mas equilibrada pela acidez, evitando a sensação pesada que poderia resultar do teor de açúcar. A textura é cheia e envolvente, com a madeira a marcar presença sem apagar a expressão da fruta. O final é persistente, quente e novamente marcado pelos frutos secos e pela casca de laranja.
No final percebemos que as três novidades têm em comum a dimensão limitada, mas sobretudo uma mesma filosofia. A de olhar para os pomares antigos não como património estático, mas como matéria viva, capaz de continuar a dar origem a novos produtos.
É uma abordagem que Márcio Nóbrega tem desenvolvido através da recuperação de pomares antigos e abandonados na Camacha e noutras zonas da ilha, muitas vezes em colaboração com agricultores locais e proprietários de terrenos que estavam sem utilização e, talvez seja essa uma das particularidade mais interessantes pela qual nos apaixonamos por este projecto.
A sidra aqui não aparece isolada da paisagem ou da história. Cruza-se com a recuperação agrícola, com o turismo e com a gastronomia, numa quinta que mantém também uma unidade de sidroturismo com 11 quartos e a Adega do Pomar, restaurante de cozinha tradicional madeirense e portuguesa, liderado pelo chef Fábio Vieira que nos preparou uma ementa de ligação à prova cheia de sentido.
________________________________________________________
QUINTA DA MOSCADINHA
Caminho Municipal dos Caboucos, N° 19
9135-378 CAMACHA
Contactos: +351 291 648 170 / 965 734 265













