sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Quinta da Moscadinha | Novos Caminhos para a Sidra Madeirense

Na Quinta da Moscadinha, na Camacha, a maçã não é apenas matéria-prima. É o ponto de partida para um projecto com o qual tive o primeiro contacto há cerca de pouco mais que um ano e que tem vindo a recuperar pomares antigos, alguns deles esquecidos durante décadas, e a procurar novas formas de trabalhar uma fruta que faz parte da história da Madeira. Pela mão de Márcio Nóbrega, produtor e proprietário da quinta, a tradição da Sidra na Ilha tem ganho novas interpretações, sem perder a ligação ao território e às variedades que lhe dão identidade.
O regresso à Quinta da Moscadinha acontece, recentemente, por ocasião da apresentação de três novidades que mostraram precisamente essa vontade de experimentar e de ir mais longe, nunca perdendo a linha condutora à tradição e à história.  É neste contexto que nasce a Ancestrale, uma sidra criada a partir de 98 variedades de maçã; a Altitude, uma rara sidra de pera produzida pelo método clássico; e a primeira Aguardente de Maçã da Quinta da Moscadinha.

A história começa, naturalmente, pela maçã. A Madeira conta com cerca de 135 variedades, embora apenas 42 estejam catalogadas, e foi precisamente essa diversidade que esteve na origem da Ancestrale. Durante a apanha de 2023, a equipa da Quinta da Moscadinha foi separando maçãs que não reconhecia entre as variedades normalmente utilizadas nos seus lotes. No final, todas acabaram reunidas numa mesma produção, dando origem a apenas 400 garrafas.
O resultado é uma sidra que pretende ser mais do que uma bebida, mas também uma espécie de retrato da diversidade dos antigos pomares madeirenses. Na segunda fermentação em garrafa foi utilizado o próprio mosto de maçã para o licor de tiragem, uma opção que procura manter a fruta e a sua origem no centro da expressão da sidra. 

QUINTA DA MOSCADINHA ANCESTRALE 2025 | NATURALLY SPARKLING - TRADITIONAL | 8,5 % | PVP 22€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS (98)
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
17,5
Cor amarela em tonalidade dourada, brilhante e atractiva, revelando uma expressão muito própria, oferencendo no aroma, a maçã em diferentes registos, entre fruta fresca e alguma componente mais madura, com notas que lembram pomar e casca de maçã, não fugindo do registo de frescura, mas adicionando riqueza ao bouquet. A boca é seca, tensa e refrescante, com uma acidez bem marcada e bolha, mais uma vez, muito delicada e envolvente, que se mostra sem se sobrepor à fruta. Final longo e prazeroso, mais gastronómica do que simplesmente refrescante, e que beneficia claramente de ser bebida com atenção. 

A segunda novidade levou-me para outro território. Uma sidra de pera, ou perry, produzida a partir de um antigo pomar situado a 1100 metros de altitude, considerado o mais alto da Ilha. Apesar de não ser uma fruta fácil para trabalhar em sidra pois apresenta baixa acidez, poucos nutrientes,  açúcares não fermentáveis e rendimento reduzido, a descoberta deste pomar e de uma variedade que se presume ser Conference, embora já revele sinais de hibridação, levou a Quinta da Moscadinha a experimentar. E em boa hora o fez.  Sem dúvida uma incursão pouco habitual no universo sidreiro madeirense, mas que resulta e, sobretudo, nos mostra uma forma diferente de olhar para outras frutas para além da maça. 

QUINTA DA MOSCADINHA ALTITUDE 2025 | NATURALLY SPARKLING - TRADITIONAL | 8,5 % | PVP 22€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
17
Cor amarelo citrino, bolha fina e persistente, revelando na componente aromática a fruta branca e de pomar, pitada floral e sempre com nota de frescura muito evidente. Na boca é delicada e elegante, secura média, com acidez firme e uma bolha fina, com subtil espuma, que ajuda a prolongar a prova. A pera deixa uma expressão diferente da maçã, menos directa e mais subtil, ligeira doçura, embora equilibrada e com boa persistência final. 

A terceira novidade muda completamente de registo e entra no território dos destilados. A Aguardente de Maçã resulta da destilação de 2500 litros de sidra, que deram origem a apenas 216 litros de aguardente. Depois, passou três anos em barricas usadas de carvalho francês, antes de chegar ao mercado em 504 garrafas numeradas de 500 ml. A Quinta da Moscadinha chama-lhe o primeiro “rum” de maçã da Ilha, embora a própria designação não possa ser utilizada comercialmente, uma vez que “rum agrícola” corresponde a uma denominação protegida. No entanto, mais importante do que o nome é, neste caso, o caminho feito até ao resultado: partir da maçã madeirense, transformá-la em sidra, destilá-la e deixá-la evoluir durante três anos em madeira. O resultado está incrível.

QUINTA DA MOSCADINHA AAGUARDENTE DE MAÇA SC 2023 | DISTILADA | 45,8 % | PVP 120€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
18
Cor âmbar jovem, reflexos dourados, luminosa e atrativa. Plano aromático completamente diferente revelando uma expressão mais quente e profunda, com a fruta madura a surgir acompanhada por notas de madeira, especiarias e uma componente ligeiramente tostada, com o fruto seco torrado em fina aparição, mais complexidade e desafio. Na boca é envolvente, mas mantém uma boa definição, com a maçã a continuar presente por baixo da madeira e do álcool, textura macia e aveludada e com término de boca longo e ligeiramente especiado. Para beber com tempo e apreciar.

Oportunidade ainda para voltar a provar as Quinta da Moscadinha Sparkling e a TN do mesmo lote (2024) já provadas anteriormente e a Quinta da Moscadinha Madeira Royal Cider Meia Doce já de lote mais recente, mas que mantém o mesmo perfil da anterior.

QUINTA DA MOSCADINHA MADEIRA ROYAL CIDER MEIO DOCE 2024 | FORTIFIED | 14 % | PVP 60€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
JOSÉ MÁRCIO RODRIGUES DE NÓBREGA UNIPESSOAL, LDA
18
Cor âmbar, ligeiramente mais escura que a anterior, aspecto límpido e atraente.  Revela perfil aromático intenso e envolvente, no qual surgem frutos secos, casca de laranja e compota, acompanhados por notas de madeira e uma discreta componente evolutiva que lhe acrescenta complexidade. Muito similar à anterior. Na boca é doce, mas equilibrada pela acidez, evitando a sensação pesada que poderia resultar do teor de açúcar. A textura é cheia e envolvente, com a madeira a marcar presença sem apagar a expressão da fruta. O final é persistente, quente e novamente marcado pelos frutos secos e pela casca de laranja.

No final percebemos que as três novidades têm em comum a dimensão limitada, mas sobretudo uma mesma filosofia. A de olhar para os pomares antigos não como património estático, mas como matéria viva, capaz de continuar a dar origem a novos produtos. 
É uma abordagem que Márcio Nóbrega tem desenvolvido através da recuperação de pomares antigos e abandonados na Camacha e noutras zonas da ilha, muitas vezes em colaboração com agricultores locais e proprietários de terrenos que estavam sem utilização e, talvez seja essa uma das particularidade mais interessantes pela qual nos apaixonamos por este projecto.
A sidra aqui não aparece isolada da paisagem ou da história. Cruza-se com a recuperação agrícola, com o turismo e com a gastronomia, numa quinta que mantém também uma unidade de sidroturismo com 11 quartos e a Adega do Pomar, restaurante de cozinha tradicional madeirense e portuguesa, liderado pelo chef Fábio Vieira que nos preparou uma ementa de ligação à prova cheia de sentido.

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QUINTA DA MOSCADINHA

Caminho Municipal dos Caboucos, N° 19
9135-378 CAMACHA
Contactos: +351 291 648 170 / 965 734 265

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Monte da Peceguina 2025 Rosé

MONTE DE PECEGUINA 2025 ROSÉ | ALENTEJO | 12,5% | PVP  14,50€
ARAGONEZ, TRINCADEIRA
HERDADE DA MALHADINHA NOVA, SA 
16,5

Os dias continuam longos, quentes e a aceitar que um vinho rosé a privilegiar a expressão da fruta, numa abordagem limpa, directa e fresca, seja companhia bem escolhida tanto para a mesa como para momentos em que apenas apetece beber um bom rosé. Aqui encontro um belo exemplar deste conceito,  particularmente versátil à mesa, mas também, justamente, para qualquer momento. Gosto de o imaginar com peixe grelhado, marisco, ceviches, saladas com alguma complexidade, massas de inspiração mediterrânica ou pratos onde ervas aromáticas e legumes tenham presença. Se a ideia for petiscos e entradas também temos conversa e, sobretudo quando servido fresco, funcionará com naturalidade como vinho de início de refeição.
Cor rosa-claro com tonalidade salmão luminosa e subtil, aspecto límpido, jovem e atractivo. Componente aromática com boa intensidade, marcado pela fruta vermelha fresca, com uma expressão limpa e convidativa, onde a componente frutada surge acompanhada por notas florais e uma sensação de frescura que o torna muito apelativo. Na boca confirma essa leitura, mostrando equilíbrio entre fruta e acidez, com uma textura elegante e uma passagem de boca fresca e envolvente, afastando-se de um registo mais pesado e de exuberância desnecessária, seguindo antes uma combinação de leveza, frescura e precisão que o faz terminar seco, persistente e com vontade de voltar ao copo.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Carvalhas 2020 Branco

CARVALHAS 2020 BRANCO | DOURO | 13% | PVP  29,90€
GOUVEIO, VIOSINHO
REAL COMPANHIA VELHA, SA
18

Passados já seis anos após a colheita fui recentemente surpreendido pela forma como o tempo assentou neste branco da Real Companhia Velha. Mantém uma expressão luminosa, fresca e muito viva, mas já revela uma complexidade que vai mais além da fruta primária. A nota da passagem pela barrica, bem presente no seu percurso, aparece agora perfeitamente integrada, enquanto a acidez continua a dar-lhe nervo e equilíbrio. Um branco duriense que mostra como algumas referências ganham ainda mais interesse quando deixadas evoluir em garrafa e descobrimos que nem perderam a identidade nem a frescura que lhes deram origem.
À mesa brilha. Poderia ficar somente por esta afirmação, mas acrescento que estamos perante um daqueles brancos que permitem alguma latitude no prato. Peixe assado no forno, robalo ou dourada grelhados, mariscos, arroz de tamboril ou mesmo um bacalhau de preparação mais simples serão boas companhias. 
Cor amarela citrino definido, luminosa e brilhante, nuances esverdeadas, aspecto límpido e ainda pouco demonstrador da sua idade. No nariz surge exuberante e vivaz, dominado pelo fruto citrino e de pomar, com notas de pêssego, limão e mel, acompanhadas por pimenta branca e uma sugestão mineral de pedra lascada. A barrica, que faz parte do perfil deste vinho, está agora muito bem integrada, presente, mas sem se impor, contribuindo mais para a complexidade do conjunto do que para uma marca evidente de madeira. É um nariz rico, complexo e muito expressivo.
Em boca revela volume e corpo, mas mantém uma elegância que impede que o conjunto se torne pesado, mostrando uma bela textura e uma presença subtil da barrica, com entrada com pés de veludo, quase sedoso, mas rapidamente ganha tensão através de uma acidez crocante, vibrante e cheia de nervo, mostrando-se envolvente, com prolongamento e uma persistência muito convincente, terminando longo e fresco. Um branco que aos seis anos demonstra uma evolução muito equilibrada, conservando fruta, frescura e vivacidade enquanto acrescenta complexidade e profundidade. Grande final.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Código Granius 2024 Branco

CÓDIGO GRANIUS 2024 BRANCO | DÃO | 12% | PVP  18€
MALVASIA FINA, BICAL
NO RULES WINES, LDA
17,5

A recente conquista do título de Master of Wine pelo Tiago Macena deu-me um bom pretexto, como se fossem precisas justificações solenes, para voltar a olhar com atenção para os vinhos em que coloca o seu conhecimento e a sua forma de entender o Dão. O Código Granius Branco 2024 chegou-me ao copo com essa curiosidade adicional, mas acabou por valer sobretudo pelo que encontrei dentro da garrafa. Malvasia-Fina e Bical, granito, frescura e uma acidez que dá ao vinho uma energia muito própria, complementada por uma maior precisão que o 2022 que também provei no passado. Deixou-me a sensação de um branco que sabe exactamente o que quer ser. Fresco, directo e gastronómico, sem procurar mais protagonismo do que aquele que a sua origem e as castas lhe impõem. 
À mesa também vamos por este caminho mais directo sugerindo o peixe grelhado, o marisco, saladas e ceviches mais compostos. A cozinha regional portuguesa onde o azeite e o peixe mais gordo têm papel de destaque também serão escolha acertada.
Cor amarela citrino aberta, luminosa e brilhante, nuances esverdeadas, aspecto límpido e jovem. No plano aromático encontramos um bouquet marcado pelo granito, no qual as notas de pedra lascada, chão molhado e subtil fósforo,  se entrelaçam com as notas de fruta citrina e de pomar, limonado, fina componente vegetal, pederneira, rico e desafiante, embora elegante e fresco. Boca de médio volume, com cremosidade envolvente, textura macia, com acidez vibrante e vivaz, ficando a trabalhar horas extra, conjunto muito equilibrado entre a fruta e a componente mineral, registo preciso, imperando o equilíbrio, a vivacidade e o nervo que lhe dá impulsão, limpando tudo e com final de boca longo, persistente e elegante. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Quinta da Extrema Edição II 2017 Branco

QUINTA DA EXTREMA EDIÇÃO II 2017 BRANCO | DOURO | 12,5% | PVP  34,90€
ENCRUZADO, RABIGATO
COLINAS DO DOURO SOCIEDADE AGRÍCOLA, LDA
18

No meu copo está um daqueles brancos durienses que ajudam a desmontar a ideia de que os grandes vinhos da região têm necessariamente de ser tintos e que os brancos são para beber jovens. O produtor indica-o como um vinho pensado para evoluir vários anos em garrafa. E assim é. Se não contar com as boas particularidades do tempo de espera – 9 anos -, o vinho está como novo. Tendo em conta que vos estou a falar de um 2017, acho particularmente interessante o facto de todas as minhas notas continuarem a apontar para frescura, tensão e capacidade de continuar em evolução. Classifico-o como o tipo de branco que vale a pena beber com alguma atenção - e não demasiado frio -deixando-o respirar no copo e que fale connosco.
À mesa pede comida com alguma complexidade. Peixe assado, bacalhau, marisco, aves ou mesmo pratos de cogumelos estarão à altura da sua textura e acidez. Com pratos mais delicados, a sua elegância pode sobressair e com pratos com alguma gordura, a acidez ganha ainda mais sentido.
Cor amarelo citrino com tonalidade palha, mostrando ainda reflexos esverdeados e aspecto jovem, límpido e brilhante. No plano aromático compro que o tempo parece ter-lhe feito particularmente bem. Mantém um perfil muito elegante e contido, com citrinos, toranja, maçã e notas de pedra lascada, sílex, acompanhadas por nuances discretas de pastelaria e madeira. Tudo muito fino e harmonioso. Não é um vinho exuberante que procura impressionar pela intensidade aromática, a sua força está precisamente nesta subtileza e definição. Na boca mostra-se cremoso, amplo e tenso, com uma acidez muito viva que lhe dá nervo e prolonga todo o conjunto, oferecendo boa textura, mas também uma componente crocante e mineral que impede qualquer sensação de peso extra. O final é longo, persistente e surpreendentemente fresco para um branco com esta idade.