sábado, 29 de agosto de 2026

Kimbrel Laurioza 2022 Tinto

KIMBREL LAURIOZA 2022 TINTO | DOURO | 12,5% | PVP  74,50€
FIELD BLEND
KIMBREL WINE COMPANY UNIP, LDA
18

Se encontramos projectos no Douro que nascem com a ambição de fazer grandes quantidades de vinho, outros há cujo objectivo passa por fazer nascer precisamente o contrário. A Kimbrel, projecto duriense muito recente, pertence a este segundo grupo, apostando desde o início numa leitura mais próxima da vinha, dos seus lugares e das pequenas parcelas que compõem uma propriedade. O projecto instalou-se, em 2022, na histórica Quinta do Roncão, no Vale do Roncão, uma propriedade datada de 1851 e com cerca de 12 hectares de vinha, onde a presença de vinhas velhas e de muitas castas diferentes constitui uma das suas maiores riquezas. A produção é deliberadamente pequena e orientada para micro-lotes.
O Laurioza 2022 nasce precisamente dessa filosofia. É um field blend que mostra que a elegância também pode nascer de uma região tantas vezes associada à potência,  optando por uma extracção muito ligeira, oferecendo mais delicadeza e expressão da fruta, num relacionamento de equilíbrio entre todas as partes.
À mesa buscamos de imediato as carnes assadas, caça de pelo, cabrito, pratos de forno e cozinha tradicional duriense.
Cor vermelho rubi de média concentração, tonalidade granada, luminoso, brilhante e jovem. No plano aromático a fruta vermelha madura e vibrante mostra-se de imediato, num registo mais carnudo e menos floral e mato seco, à qual se junta a especiaria e subtil componente vegetal, balsâmicos frescos e subtil folha de eucalipto em fundo. Conquista verdadeiramente na boca, com muita elegância e energia ao mesmo tempo, volume médio, de textura mais delicada, evitando o caminho do peso e rusticidade por vezes desproporcional, revelando acidez vibrante, secura salivante que se afirma passo a passo, fruta fresca bem definida, fruto de bago, silvestre, com tanino polido, mas firme, maior profundidade e mais sedutor, resultando num belo conjunto, prazeroso, fresco e de longo final.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Kopke e Burmester Vintage 2024: Duas Leituras de um Grande Ano


Dois Vintage, o mesmo ano, dois perfis. O Kopke mais concentrado e estruturado; o Burmester mais elegante e expressivo. Ambos, porém, com aquilo que mais interessa num Vintage: frescura, equilíbrio e vislumbre de tempo pela frente.

No mundo do vinho e mais particularmente do Vinho do Porto, há anos que nos ficam na memória pelos vinhos que fazem nascer. A colheita de 2024 no Douro parece querer ser um deles quando olhamos para os Porto Vintage 2024 que aos pouco começam a ser apresentados. É o caso do lançamento conjunto dos novos Vintage da Kopke e da Burmester que vêm confirmar esta ideia de que poderemos estar perante um ano particularmente fabuloso para o Vinho do Porto. 
O inverno e a primavera amenos e chuvosos deram às vinhas boas reservas para enfrentar um verão quente e seco, enquanto as noites frescas e a descida das temperaturas durante a vindima permitiram uma maturação mais progressiva e equilibrada. O resultado foi matéria-prima com excelente sanidade e uma combinação particularmente feliz entre concentração, frescura e estrutura, ou seja, precisamente aquilo que se procura num Vintage com a ambição de guarda durante muitos anos.
Depois de alguns anos sem uma declaração clássica destas duas casas, o regresso acontece agora com dois vinhos que partem das mesmas condições de um ano vitícola muito equilibrado, mas que chegam ao copo com personalidades bem distintas.

Ambos assinados por Carlos Alves, Master Blender do Kopke Group, estes dois vinhos não procuram ser iguais, mas antes representar duas leituras diferentes do mesmo Douro, mas com a matéria-prima de vinhas com diferentes localizações. O Kopke Vintage 2024 nasce na Quinta de São Luiz, no Cima Corgo, enquanto o Burmester Vintage 2024 tem origem na Quinta do Arnozelo, no Douro Superior. São dois lugares com características próprias, diferentes altitudes, exposições e condições de maturação, e essa identidade da vinha acaba inevitavelmente por deixar a sua marca no vinho. A própria Quinta de São Luiz reúne parcelas a diferentes altitudes e exposições, enquanto o Arnozelo, situado na margem esquerda do Douro, beneficia de um microclima muito próprio do Douro Superior. Sem dúvida, uma das coisas que mais me fascinam no vinho. O mesmo ano, a mesma mão, a mesma chancela e a mesma região, mas o terroir de nascimento diferente dentro da própria região e temos filhos do mesmo ano a contar histórias diferentes.

A possibilidade de os provar lado a lado tornou este primeiro contacto particularmente interessante. Longe de procurar diferenças para saber qual é o melhor, interessou-me perceber o que cada casa fez com um ano que lhes deu matéria-prima para construir vinhos de grande profundidade e longevidade. Naturalmente, encontrei dois Vintage ainda muito jovens, mas já suficientemente expressivos para deixarem perceber a sua identidade e, sobretudo, para me fazer imaginar aquilo que poderão vir a mostrar depois de alguns anos de garrafa.

KOPKE VINTAGE PORT 2024
| PORTO | 20% | PVP 90€
VINHAS VELHAS
19
Cor rubi muito profunda, densa e carregada, lágrima chorosa, revelador de juventude. No plano aromático começa mais tímido, quase reservado, como se precisasse de tempo para revelar tudo aquilo que tem para oferecer, mas rapidamente abre no copo, mostrando fruta preta e vermelha madura, notas de especiaria e apontamentos mais profundos, entre sugestões de cacau, ervas e uma discreta componente mentolada. Um perfil rico e complexo, que ganha claramente com o tempo e com a temperatura do vinho no copo. Na boca é onde o sentimos verdadeiramente e onde ele se afirma, com carácter, revelando uma estrutura impressionante e uma densidade que lhe dá profundidade, mas sem perder a frescura que considero uma das suas maiores virtudes. A fruta surge concentrada e madura, envolvida por taninos firmes, de enorme potencial, e por uma acidez muito bem vincada que percorre toda a prova e impede que o conjunto se torne pesado. Há volume, há estrutura, há concentração, mas há também muita frescura e uma energia que nos lembra que estamos perante um vinho ainda muito jovem. O final é longo, profundo e persistente, deixando uma combinação de fruta, especiaria, frescura e estrutura que promete uma evolução muito séria em garrafa.
 
BURMESTER VINTAGE PORT 2024
| PORTO | 20% | PVP  80€
TOURIGA NACIONAL, TOURIGA FRANCA, TINTA RORIZ, ALICANTE BOUSCHET
18,5
Cor vermelho rubi muito profunda, quase impenetrável no centro, opaco, lágrima marcada, aspecto límpido e jovem . No nariz apresenta-se desde logo mais aberto e expressivo, num registo de grande elegância, onde as notas florais surgem quase em primeiro plano, acompanhadas por fruta vermelha e preta de perfil fresco e algumas sugestões de esteva, num bouquet gracioso e delicado, que vai ganhando dimensão à medida que permanece no copo, revelando progressivamente maior profundidade. Na boca confirma o registo elegante que o aroma já deixava perceber, mostrando-se, num primeiro ataque,  fresco, envolvente e harmonioso, com uma acidez vivaz e bem marcada que lhe dá tensão, dinamismo e equilíbrio, com a fruta bem presente, acompanhada por tanino firme, ainda jovem, mas já com uma textura bastante polida. Sente-se algum calor, sobretudo no final de boca, mas sem comprometer o equilíbrio geral do vinho. É um Vintage que se mostra bonito, expressivo e muito apelativo desde já, mas que está ainda claramente no início do seu percurso. Termina fresco, longo e elegante, deixando uma sensação de harmonia que convida a voltar ao copo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Grandjó Late Harvest 2021 Branco

GRANDJÓ LATE HARVEST 2021 BRANCO | DOURO | 12% | PVP  37,50€
SEMILLON
REAL COMPANHIA VELHA, SA
18,5

Sempre que o Grandjó Late Harvest me chega ao copo cresce em mim um misto de ansiedade e nervoso miudinho que me assalta os sentidos de forma quase incontrolável.  Não apenas por ser uma das referências históricas da Real Companhia Velha nos vinhos doces, mas porque conheço bem as suas colheitas, que considero particularmente marcantes, e que me conduzem à ideia de que estou na presença do melhor Late Harvest nacional.  Depois de provar o 2021,  não tenho grandes dúvidas em afirmar que o coloco ao nível do que encontrei no 2013 e principalmente no 2007.
E não o faço numa comparação feita apenas pela memória. Há vinhos que impressionam pela intensidade e outros que nos conquistam pelo equilíbrio entre todas as suas componentes. Este Grandjó consegue precisamente isso. A doçura está lá, generosa e envolvente, mas encontra uma acidez que lhe dá nervo e impede qualquer sensação de peso. É um vinho concentrado, complexo e profundo, mas simultaneamente muito fresco e elegante.
Sem dúvida, uma daquelas provas em que, terminado o vinho, fica a sensação de ter estado perante algo especial, um Late Harvest de excelência, que colocaria ao lado dos grandes nomes mundiais. E isso, para mim, diz praticamente tudo.
À mesa, acompanha naturalmente sobremesas à base de fruta, frutos secos, caramelo ou chocolate branco, mas é com foie gras, queijos azuis ou queijos de pasta mole e alguma intensidade que coloco as minhas fichas e onde creio que revela das suas melhores combinações.
Cor amarela de tonalidade dourada intensa, brilhante e luminosa, aspecto límpido e cativante. Plano aromático de enorme complexidade, começando por revelar fruta madura de caroço, notas de alperce e citrinos confitados, mel e flores secas, a que se juntam sugestões de frutos secos, especiarias e uma componente ligeiramente caramelizada. A presença da botrytis acrescenta aquela dimensão por vezes difícil de descrever, mas imediatamente reconhecível, entre a fruta muito madura, o mel e uma delicada componente especiada. Um aroma profundo, que vai ganhando novas camadas à medida que permanece no copo. Na boca é simplesmente magnífico. Sem ser de uma densidade pesada, revela-se cremoso e envolvente, de entrada doce e mais concentrada, mas rapidamente a acidez assume o papel fundamental de equilibrar toda essa riqueza. Há fruta madura, citrinos, mel e frutos secos, acompanhados por uma textura untuosa, mas nunca pesada. Consigo perceber esta concentração impressionante, mas o vinho mantém uma frescura que o torna perigosamente fácil de beber. O final é muito longo, persistente e equilibrado, deixando uma combinação de doçura e frescura.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Dominio del Águila Albillo Viñas Viejas 2016 Branco

DOMINIO DEL ÁGUILA ALBILLO VIÑAS VIEJAS 2016 BRANCO | RIBEIRA DEL DUERO (ESP) | 13,5% | PVP  249€
ALBILLO MAYOR
DOMINIO DEL ÁGUILA, SL
19

Este é um daqueles brancos que nos obrigam a repensar a ideia que temos sobre o que pode ser um vinho branco e por isso merece aqui um maior enquadramento para que possa ser entendido com propriedade. Não vamos em modo prova cega. Sabemo-lo proveniente de vinhas velhas com mais de 100 anos da casta Albillo Mayor, em La Aguilera, na Ribera del Duero, situadas entre os 800 e os 900 metros de altitude, em solos de areia argilo-calcária, argila e cascalho. A vindima é manual, com prensagem de cachos inteiros e lenta fermentação natural em barricas de carvalho francês, seguindo-se um longo estágio sobre borras finas. É um vinho produzido com uma lógica de guarda, claramente para deixar o tempo trabalhar a matéria-prima, com uma ambição que o aproxima mais de alguns grandes brancos de longa evolução do que da imagem habitual de um branco espanhol.
Em 2024, já com oito anos de idade, tive o prazer de o beber e mostrou precisamente por que razão este vinho é tão procurado. Longe de revelar sinais de cansaço, apresentou uma complexidade que o tempo de garrafa começou a tornar ainda mais evidente, mantendo uma frescura e uma tensão absolutamente notáveis. Era já um branco com outra dimensão, onde a fruta primária tinha dado lugar a uma expressão mais profunda, mineral e muito subtil de evolução. Quanto à passagem por barrica, percebemos desde logo não a procurar esconder, mas antes oferecê-la integrada, numa estrutura onde fruta, mineralidade, acidez e tempo trabalharam em conjunto.
À mesa pede comida com alguma presença e estatuto. Funcionará muito bem com peixe assado ou grelhado, mariscos mais estruturados, polvo, aves assadas e pratos de cogumelos, mas também com queijos curados. A sua acidez e componente salina conseguem cortar a riqueza dos pratos, enquanto a textura e a evolução acompanham preparações mais elaboradas.
Cor amarela, tonalidade pálida evoluindo para um dourado ligeiro, brilhante e de aspecto ainda muito vivo e jovem. No nariz revela desde logo a sua complexidade, com fruta branca madura e notas de fruta de caroço, acompanhadas por sugestões cítricas, ervas secas e flores já ligeiramente secas ou a caminho disso, acompanhando subtis apontamentos minerais e de sílex lascado, fumo muito fino, cera de abelha, frutos secos e uma discreta componente tostada, mas integrada, resultado do longo estágio em madeira. Arrebata e enamora-nos os sentidos. Na boca é onde mais me impressionou. Amplo, denso e envolvente, mas sem perder tensão, mostra uma acidez muito bem preservada que dá equilíbrio à sua concentração. A fruta surge madura, acompanhada por sensações minerais, salinas e ligeiramente fumadas. Por sua vez, a madeira está presente, mas mais uma vez, integrada, funcionando mais como elemento de complexidade do que como protagonista, revelando um perfil com textura, profundidade e uma persistência notável, dando a saber que a evolução apenas lhe acrescentou camadas sem lhe retirar energia, terminando longo, fresco e salino.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Laurentina - 50 Anos à Mesa Com o Rei do Bacalhau


A assinalar 50 anos de história, o Laurentina – O Rei do Bacalhau continua a ter no bacalhau o grande protagonista, servido de várias formas e acompanhado por sabores que cruzam a tradição portuguesa com a influência moçambicana. Fomos experimentar alguns dos pratos da casa e perceber como esta identidade se mantém viva, cinco décadas depois.

Chegar aos 50 anos não é apenas uma questão de calendário. É sinal de uma história construída à mesa, de muitas refeições, muitas memórias e, neste caso, de uma ligação muito particular a um produto que faz parte da identidade gastronómica portuguesa. O Laurentina – O Rei do Bacalhau assinala cinco décadas de história e continua a ter no bacalhau o grande protagonista de uma casa que se tornou uma referência em Lisboa e que como, amantes do fiel amigo, nos penitenciamos desde já por ser esta apenas a primeira vez.

Antes de nos lançarmos à mesa, espaço para um pouco de história, que neste Restaurante faz todo o sentido, tal a epopeia apaixonante que se iniciou com António Pereira, fundador do Restaurante Laurentina, ainda criança, que aprendeu a cozinhar nas patuscadas que fazia com os amigos. Mais tarde, durante a juventude, viajou até Lourenço Marques, actual Maputo, em Moçambique, onde abriu o então famoso Leão d’Ouro, no Alto Maé. Durante 22 anos, dedicou-se à gestão do restaurante e aos segredos do bacalhau, experiência que viria a marcar definitivamente o seu percurso.
De regresso a Portugal, António Pereira quis partilhar, no centro de Lisboa, os sabores da sua arte tradicional e regional portuguesa, com origem nas Beiras, sem esquecer a forte ligação aos sabores africanos que trazia consigo. Abriu a sua casa aos familiares e amigos e, em 1976, nascia o Restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau.

O que então era uma novidade tornou-se, ao longo das décadas, uma tradição reconhecida além-fronteiras pela qualidade, pela experiência e pela forma particular de trabalhar o bacalhau. Mais de quatro décadas depois, perduram os segredos da casa, desde a selecção do bacalhau, sempre da Islândia, ao seu corte e demolha, passando pela arte de bem receber e servir os clientes.

O nome Laurentina está também ligado à cerveja Laurentina, uma das marcas mais emblemáticas de Moçambique. Foi essa ligação que ajudou a reforçar a identidade do restaurante e a manter viva a memória dos sabores, das referências e das experiências moçambicanas que fazem parte da sua história.

Hoje, a paixão de António Francisco Pereira pela cozinha e pela arte de bem gerir permanece intacta, continuada pelas mãos dos seus filhos, Rita e Marco Pereira. É essa passagem de testemunho que permite ao Laurentina celebrar 50 anos sem perder a ligação às suas origens, mantendo uma identidade reconhecível e uma forma muito própria de estar à mesa.

Começámos pelas entradas, com uma salada de polvo (14,50€), pataniscas de bacalhau (4,25€ unid.) e a chamuças exótica (6,50€ duas). Três propostas distintas que desde logo mostram essa convivência entre tradição e outras influências. A salada de polvo chegou com o polvo no ponto e revelou-se maravilhosa, cheia de frescura e simplicidade, enquanto as pataniscas nos levaram para o lado mais tradicional, ainda quentes, finas e saborosas, com o bacalhau bem presente. As chamuças acrescentaram uma dimensão mais aromática e especiada, fazendo a ponte para a matriz moçambicana que também integra a identidade do Laurentina, sem nunca se tornarem excessivamente picantes.

Depois, naturalmente, chegou o momento de dar palco ao bacalhau. E aqui a escolha recaiu em quatro interpretações bastante diferentes.

O Bacalhau à Brás (22,50€) é um daqueles pratos que dispensam apresentações. Bacalhau desfiado, batata e ovo numa combinação reconfortante, que continua a fazer sentido precisamente porque não precisa de grandes artifícios. Envolvente e cremoso, ganhou ainda mais expressão com a batata palha feita na casa, que acrescenta textura e reforça o sabor. É um prato de conforto, daqueles que nos fazem sentir imediatamente em casa.

E antes de passarmos às interpretações mais tradicionais, demos um salto pela Moqueca de Bacalhau (26,50€). O mesmo peixe surge aqui num registo mais aromático e envolvente, apresentado em lascas bem definidas que se juntam à cremosidade do prato, sem que o seu sabor desapareça. Uma proposta que mostra como o bacalhau pode atravessar fronteiras e encontrar novas interpretações sem perder a sua identidade e fazendo o cruzamento de culturas que faz parte da história do Laurentina.

Seguimos por outro caminho com o Bacalhau Alto Assado (54€ 2 pax). Para quem gosta da posta alta que coloca o peixe no centro da experiência e deixa que a qualidade do produto fale por si. Uma preparação mais directa, onde a simplicidade do bem fazer é uma virtude e onde o acompanhamento não procura roubar protagonismo ao bacalhau.
 
No final lugar à Couvada de Bacalhau à Pereira da Laurentina (52€ 2 pax) que foi, para mim, o momento da refeição. Uma preparação que foge ao percurso mais previsível e que, mais do que surpreender, me fez fechar os olhos perante a intensidade do sabor. Como se algo me impelisse a cerrar os olhos em contemplação e, durante aqueles instantes, nada mais à minha volta interessasse. Ficamos apenas nós e o prato. Há sabores que se comem, outros que se apreciam e depois há aqueles que nos fazem parar. Este foi um deles. Daqueles pratos que fazem voltar qualquer um. E eu quero voltar.

Quatro pratos, quatro formas de interpretar o mesmo protagonista. E talvez seja precisamente essa capacidade de trabalhar o bacalhau sem o prender a uma única fórmula que ajuda a explicar uma parte dos 50 anos de história desta casa.
Como guardamos sempre um lugar para a derradeira parte da refeição, espaço ainda para uma verdadeiro desfile de sobremesas feitas no próprio dia. Baba de Camelo (6,50€), Mousse de Chocolate (6,50€) e Leite Creme Queimado (6,50€) representaram os clássicos, enquanto as Cerejas do Fundão (8€) e o Exótico de Coco com molho de Cereja do Fundão (7,50€) acrescentaram uma dimensão mais frutada e sazonal.

Mas houve uma sobremesa que mereceu uma atenção especial: o Pastel de Nata Caseiro e Gelado de Baunilha com Macadâmia (9,50€), feito ao momento. Há qualquer coisa de particularmente interessante quando um clássico tão português chega à mesa acabado de preparar. A massa, o creme e o calor do forno fazem aqui parte da experiência e não apenas da receita.

Cinquenta anos depois, o nome continua a dizer exactamente ao que se vem: encontrar o Rei do Bacalhau à mesa. Mas chegar a meio século também passa por saber respeitar todos os elementos que chegam ao prato. Não apenas o bacalhau, mas também a batata, a couve, o azeite e todos os restantes ingredientes que o acompanham e ajudam a construir cada preparação. No Laurentina, essa atenção ao conjunto faz-se sentir, permitindo que cada componente mantenha a sua identidade e contribua para o equilíbrio final.

Há também um valor especial na cozinha feita no momento, com o cuidado e o tempo necessários para que cada preparação chegue à mesa no seu melhor. A textura do bacalhau, o ponto da batata, a couve, a qualidade do azeite e a forma como todos estes elementos se encontram não são detalhes menores: são parte essencial da experiência. Não se trata apenas de servir, mas de cozinhar para quem está ali, naquele instante, valorizando cada produto e o trabalho de quem o transforma.
Talvez seja essa combinação entre qualidade, respeito por todos os ingredientes, cozinha feita no momento e uma identidade reconhecível que permite a uma casa continuar a receber diferentes gerações. E deixar que a história continue a ser escrita — prato após prato, mesa após mesa.

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LAURENTINA - O REI DO BACALHAU

Tipo de Cozinha: Tradicional Portuguesa e alguns pratos de influência moçambicana
Copos de Vinho Adequados: Sim
Vinho a Copo: Sim
Estacionamento: Parque Público Pago
Preço médio sem bebidas: 35€-40€ 
Horários: Segunda-feira a sábado: 12:00h - 16:00h e 19:00h - 23:00h;
                Domingo: Fechado
 
Morada: Avenida Conde de Valbom 71A 
              1050-067 LISBOA
         
Telefone:  +351 217 960 260