sábado, 18 de julho de 2026

Do escritório para as vinhas do Douro: O sonho que deu vida aos vinhos Aromas do Côa

A Aromas do Cõa nasceu, oficialmente, no ano de 2022, no entanto, a sua história não se escreve apenas a partir deste ano, mas sim através do suor e da dedicação de várias gerações de uma família profundamente ligada ao mundo rural e à viticultura no coração do Douro Superior que, durante anos, se dedicou exclusivamente à produção e posterior venda das uvas, honrando os valores de sacrifício, resiliência e respeito pela terra transmitidos de avós para pais e de pais para filhos. 
Contudo, no seio da família, habitava um sonho capaz de alterar este desígnio, o sonho antigo de transformar o fruto do próprio trabalho numa marca identitária, capaz de engarrafar as emoções e as memórias daquela região.
Assim, o ponto de viragem viria a acontecer pela mão de Mário Antunes, um jovem "louco" de 36 anos - como se sentiu nessa altura - que exercia a profissão de Solicitador e que decidiu abdicar do conforto do trabalho de escritório para dar a cara por um projeto inteiramente movido pela paixão. O próprio descreve-se, com humor, como um "jovem louco", mas a sua decisão foi tudo menos um acaso. Foi o culminar de uma ligação umbilical à vinha, ao conhecimento profundo de cada parcela e à crença de que um grande vinho nasce na terra e nas raízes.
O crescimento da estrutura agrícola criou musculo e, desde 2014, num esforço de sustentação do projecto, a família investiu na consolidação do seu património e gere hoje cerca de 22 hectares de vinha, complementados por 5 hectares de olival e 4 de amendoal. Apontam ao controlo total do processo produtivo. Ao contrário de muitos projetos de produtores independentes, todos os vinhos da marca são vinificados na adega própria da família, utilizando exclusivamente uvas colhidas nos seus terrenos.
Ficamos a conhecer três dos seus vinhos. Dois brancos e um tinto. No campo dos vinhos brancos, o Aromas do Côa Branco 2023 surge como um lote tradicional do Douro Superior, plantadas em solos de xisto em Sebadelhe. O resultado é um vinho de cor límpida, com aroma elegante e uma acidez viva e refrescante na boca. Já o Aromas do Côa Edição Limitada Branco 2024 eleva a fasquia da exclusividade através de uma produção muito restrita de apenas 2000 garrafas, apresentando um lote arrojado de 90% Verdelho e 10% Rabigato que se destaca pelas notas nítidas de fruta branca, citrinos e um perfil mineral muito limpo e equilibrado. Por fim, o Aromas do Côa Tinto Superior 2023 combina 70% Touriga Nacional e 30% Touriga Franca, revelando uma textura firme, aroma intenso a frutas vermelhas e pretas com toques de especiarias, e um final longo e persistente.

AROMAS DO CÔA 2023 BRANCO | DOURO | 12,5% | PVP  6,99€
RABIGATO, VIOSINHO, CÓDEGA DO LARINHO
QUINTA DA AFRICANA, LDA
16,5
Cor amarelo citrino de tonalidade esverdeada, brilhante, aspecto límpido e jovem. Nariz elegante, com notas de fruta citrina a assomarem frescas e bem casadas com a compoenete mineral, pedra lascada e subtil toque floral. Boca com grande verticalidade, médio volume, textura macia, vibrante na acidez, crocante, com a fruta sumarenta e fresca, muito preciso e com final de boca longo e persistente. 
Bela surrpresa e excelente relação preço - qualidade. À mesa com mariscos cozidos, peixe branco grelhado e peixinho frito do rio para lutar esta crocância.

AROMAS DO CÔA EDIÇÃO LIMITADA 2024 BRANCO | DOURO | 13,5% | PVP  8,49€
VERDELHO, RABIGATO
QUINTA DA AFRICANA, LDA
17
Cor amarelo citrino com reflexos esverdeados,  um aspeto visual límpido, brilhante e jovem. No nariz revela uma intensidade aromática cativante, dominada por notas nítidas de fruta de polpa branca e tropical frescas, com pitada citrina vivaz, envolvidas por um perfil mineral muito limpo e subtil. Na boca oferece harmonia e precisão, mostrando uma acidez viva e bem integrada que confere uma enorme frescura e vivacidade à prova, num registo de equilíbrio, fruta bonita e sumarenta, com término de boca longo e  persistente.

AROMAS DO CÔA SUPERIOR 2023 TINTO | DOURO | 13,5% | PVP  8,49€
TOURIGA NACIONAL, TOURIGA FRANCA
QUINTA DA AFRICANA, LDA
16
Cor vermelho rubi de média concentração, embora mais denso, com bonita auréola luminosa, aspecto límpido e jovem. No plano aromático a fruta vermelha e preta desempenha o papel principal, com elegância e frescura, em perfeito casamento com notas florais bem medidas, alguma esteva e violeta, subtil especiado. Boca de médio volume, textura macia e aveludada, acidez equilibrada, boa secura, fruta sumarenta aninhada num tanino polido e pronto, prazeroso a beber e com término de boca longo e persistente.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Quinta de Cidrô 2025 Rosé

QUINTA DE CIDRÔ 2025 ROSÉ | DOURO | 13% | PVP  16€
TOURIGA NACIONAL
REAL COMPANHIA VELHA, SA
17,5

Estamos perante um exemplo evidente da evolução dos vinhos rosé do Douro rumo à máxima elegância. Nasce na altitude da Quinta de Cidrô e destaca-se por uma frescura e acidez natural únicas, adoptando um perfil moderno inspirado no estilo clássico da Provence. Leve, seco e altamente gastronómico, é escolha acertada para a mesa, brilhando ao acompanhar desde a frescura do sushi e de saladas mediterrânicas até à envolvência de pratos de marisco, massas leves ou carpaccios.
Cor rosa pálido muito límpido e brilhante, subtis reflexos salmão, atrativo e jovem. No nariz, o primeiro contacto revela-se fino, sedutor e marcado por uma intensidade aromática muito limpa, onde destaco as notas nítidas de frutas vermelhas, com maior relevo para o morango e a framboesa fresca, que surgem subtilmente envolvidas por elegantes nuances florais e com componente mineral a assomar em fundo. Na boca, a experiência confirma as expectativas de frescura criadas pelo olfato, com um ataque vivo e muito equilibrado, ancorado numa acidez cortante e mineral que dá ritmo à prova e nos faz pensar em comida, cativando por este perfil seco e focado e surpreendendo pelo bom volume e pela textura aveludada que oferece, preenchendo o palato de forma delicada antes de caminhar para um final de boca persistente, limpo e refrescante.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Dow's Porto Vintage 2003

DOW'S PORTO VINTAGE 2003 | PORTO | 20% | PVP  89,75€
CASTAS TRADICIONAIS DOURO
SYMINGTON FAMILY ESTATES VINHOS, LDA
19

Sei que vou estragar um bocadinho do suspense, mas começo já por dizer que este Dow's Porto Vintage 2003 estava fabuloso. Passadas mais de duas décadas desde a colheita, provar e beber este Vintage em 2026 revelou-me um vinho que atingiu uma maturidade esplêndida. Apresenta-se num perfil distintamente mais seco, austero e aristocrático — e isto apesar de 2003 ter sido um ano vitivinícola marcado por condições climatéricas extremas no Douro, com um calor intenso que o poderia ter desviado deste caminho. 
Em vez disso, encontramos agora um corpo perfeitamente cinzelado pelo tempo, que mantém uma acidez viva e uma complexidade profunda, assegurando a excelência deste momento quando nos chega ao copo.
À mesa, para levar esta experiência ainda mais alto, nada como apostar em harmonizações clássicas. O casamento ideal faz-se com um queijo Stilton ou com o nosso Queijo DOP Serra da Estrela, passando pelo chocolate negro e frutos silvestres pretos nas sobremesas. Se preferires algo mais simples, funciona de forma soberba para acompanhar uma boa conversa de fim de refeição, ao lado de frutos secos tostados como nozes e amêndoas.
Cor rubi extraordinariamente ainda profunda e opaca, com reflexos granada densos nas bordas que começam a denunciar as suas mais de duas décadas de descanso na garrafa. No nariz, a experiência aromática é intensa e complexa, desvendando camadas sucessivas que começam com notas pronunciadas de frutos pretos maduros, como amoras e ameixas secas, casadas com toques florais subtis de esteva e violetas, sendo que, à medida que o vinho respira, surgem nuances elegantes de chocolate negro, especiarias e uma discreta nota mineral. No paladar, a entrada é marcante, revelando uma estrutura encorpada, poderosa e de enorme concentração, muito fiel ao que esperava desta Casa, oferecendo um perfil mais seco e aristocrático, onde os taninos firmes e maduros se apresentam perfeitamente cinzelados e integrados. Uma acidez viva e equilibrada atravessa toda a prova, conferindo frescura à riqueza da fruta preta e do cacau. O final de boca é incrivelmente longo, persistente e focado, deixando uma assinatura oevidente de pimenta preta moída e especiarias que prolonga a sensação de sofisticação muito para além do último gole.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Guru Vinha da Calçada 2021 Branco

GURU VINHA DA CALÇADA 2021 BRANCO | DOURO | 12,5% | PVP  80€
FIELD BLEND CASTAS INDÍGENAS
WINE & SOUL, LDA
19

No coração do Douro Superior, a uns impressionantes 600 metros de altitude onde o vento fresco molda a paisagem, nasce, pelas mãos da prestigiada dupla de enólogos Sandra Tavares da Silva e Jorge Serôdio Borges, este branco, expressão líquida de uma autêntica relíquia histórica. As suas uvas provêm exclusivamente de uma única parcela centenária plantada em solos de transição granítica, uma assinatura geológica rara na região que confere ao vinho uma identidade única, sendo que, neste field blend se reúnem castas indígenas ancestrais como a Viosinho, a Rabigato, a Códega do Larinho e a Gouveio, que crescem em perfeita simbiose. Acabamos por estar na presença de uma das mais exclusivas joias do panorama vinícola português pois desta parcela,  após estágio paciente durante dois anos em foudres de madeira – que lhe preserva uma pureza etérea, acidez cortante e um perfil salino absolutamente inesquecível -, saem apenas 1.533 garrafas. 
À mesa somos obrigados a chamar por harmonizações perfeitas sugerindo peixes gordos assados no forno, mariscos nobres, como lavagante suado, ou pratos ricos de aves de caça e queijos curados de ovelha.Cor amarela citrina, tonalidade palha brilhante e límpida, subtis reflexos esverdeados, luminoso e jovem. No plano aromático, destaca-se pela contenção e elegância, menos óbvio e exuberante, revelando aromas a casca de limão, toranja e nectarina, pitada floral bem encostada, envolvidos por uma mineralidade profunda a pedra molhada e discretas notas de baunilha, fruto do estágio resguardado em madeira usada. Na boca, impressiona pelo equilíbrio entre cremosidade e tensão, com ataque primário sedoso e untuoso, mas logo balanceado por uma acidez vibrante e uma forte salinidade característica do solo granítico terminando longo e persistente, com tensão e muito preciso,  deixando uma sensação limpa e elegante. 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Domäne Serrig Vogelsang Kabinett 2021 Branco

DOMÄNE SERRIG VOGELSANG KABINETT 2021 BRANCO | MOSEL (GER) | 9,5% | PVP  105,90€
RIESLING
DOMANE SERRIG
18,5

Há vinhos que se compram pela história, sem os conhecermos e outros que só nos conquistam quando pela primeira vez nos cai no copo . Quando soube que o icónico produtor Markus Molitor tinha assumido as rédeas da histórica propriedade Domäne Serrig, uma jóia fundada pelo Kaiser Guilherme II em 1904 no vale do Saar, a minha curiosidade disparou e a oportunidade de o fazer chegar à mesa num jantar temático foi gatilho suficiente para que o momento tivesse lugar. Apesar de nascido num ano fresco e clássico, este não me pareceu um Kabinett comum. O que me fascinou nele foi um estado de equilíbrio quase impossível entre uma subtil doçura frutada deliciosa, mas que imediatamente é dominada por uma acidez elétrica e uma mineralidade salina tão profundas que o vinho parece levitar na boca de forma a nos prender a atenção do primeiro ao último segundo. 
À mesa esta salinidade crua leva-me de imediato para um casamento com o mar, umas vieiras salteadas na manteiga ou a acompanhar a frescura cítrica de um ceviche de robalo, mas também penso da cozinha asiática e num caril tailandês aromático, com leite de coco no qual a ligeira doçura do vinho acalma o picante, enquanto as notas cítricas dão vida aos sabores orientais.
Cor amarelo citrino muito aberto e luminoso, reflexos esverdeados brilhantes, aspecto límpido e jovem. No nariz, a primeira impressão é de uma pureza quase cirúrgica, muito contido, não mostrando fruta primária de forma exuberante e evidente, revelando antes uma mineralidade fumada avassaladora, que evoca pedra lascada, pólvora e a ardósia molhada. À medida que o vinho respira, começam a emergir notas cítricas vibrantes de lima e toranja, acompanhadas por nuances subtis de maçã verde, pêssego e um delicado toque de flor branca, mantendo um registo muito elegante e fino. Na boca, a experiência atinge outro patamar com um primeiro ataque incrivelmente leve, mas longe de mostrar qualquer tipo de fragilidade ou falta de tensão, oferecendo a doçura natural da uva, que não se sobrepõe em momento algum, surgindo perfeitamente integrada e quase camuflada por uma acidez elétrica e cortante, que nos faz salivar instantaneamente, acompanhando a pegada salina e mineral profunda do seu perfil, onde a fruta cítrica fresca serve de fio condutor e nos conduz  a um final de boca incrivelmente longo, limpo e focado.