terça-feira, 27 de outubro de 2026

Quinta Vale da Roca: Uma História de Família, Uma Vinha Singular e os seus Vinhos

Na encosta sul do Cabo da Roca, na Azóia, entre a Serra de Sintra e o Atlântico, a Quinta Vale da Roca construiu uma identidade vínica que se distingue da imagem mais habitual de Colares. O projecto nasceu da paixão pelo vinho de um casal de arquitectos portugueses, que herdou a propriedade depois de esta ter permanecido durante várias gerações na família fundadora, e ali começou por fazer a sua casa de família, abrindo depois as portas à hospitalidade, com uma oferta de alojamento local diferenciada despoletada pela vontade de partilhar a beleza e a tranquilidade deste lugar. Mais tarde acabou por plantar a sua própria vinha. 

Na escolha das castas, seguiram também o gosto pessoal, plantando variedades que apreciavam encontrar nos vinhos que bebiam. Essa opção ajuda a explicar a presença de castas pouco habituais na região, como a Encruzado e a Pinot Noir. Mais recentemente, a vinha passou por uma renovação, com a Fernão Pires e a Arinto a darem lugar a mais Encruzado e a alguma Pinot Noir. m 2025, a quinta iniciou uma nova etapa, com uma nova família proprietária a assumir a continuidade do projecto, tanto na vertente vínica como na de alojamento. 

A casa deixou, assim, de ser também a residência dos proprietários, passando a estar inteiramente dedicada à actividade da quinta e ao acolhimento de quem a visita.

Ao longo da vida da propriedade, muitas foram as mudanças, mas uma das histórias mais interessantes está debaixo das videiras. A vinha própria, com cerca de três hectares, foi crescendo à medida que surgiam oportunidades de adquirir terrenos vizinhos. O desafio, porém, estava longe de ser simples: os solos são pobres e formados a partir da alteração de rochas graníticas e sieníticas. Ao contrário do tradicional chão de areia que associamos a boa parte da viticultura mais emblemática de Colares, aqui foi necessário conquistar espaço à própria rocha, removendo grandes blocos de granito para criar terreno onde plantar vinha. Um trabalho exigente, que ajuda a perceber melhor a singularidade deste lugar e o esforço por detrás de cada garrafa.
 
João Ribas e António Figueiredo
Desta vinha nascem três vinhos monovarietais — Malvasia, Encruzado e Pinot Noir — reunidos sob a gama Quinta Vale da Roca. A marca Vinha da Roca alarga o portefólio com vinhos elaborados a partir de uvas adquiridas a produtores locais. Na adega, António Figueiredo procura interpretar as castas e as particularidades deste território atlântico, onde a frescura do clima e a proximidade do mar têm um papel importante na identidade dos vinhos. No Enoturismo, João Ribas é a cara presente e mão experiente que acompanha cada visitante e hóspede nesta experiência singular.

Depois de conhecer a história da propriedade, perceber o desafio que representa cultivar vinha neste terreno e descobrir as opções que dão forma ao projecto, chegou o momento de passar para a experiência no copo. A prova permitiu conhecer diferentes interpretações deste terroir numa viagem que completou a visita à Quinta Vale da Roca. 
Entre os vinhos provados, três ficaram particularmente na memória. O Malvasia, pela sua identidade e pela forma como interpreta o lugar onde as vinhas estão situação; o Pinot Noir 2022, que mostrou personalidade suficiente para não passar despercebido, revelando uma expressão própria numa região onde não é a casta que esperamos encontrar; e um rosé rasgadinho, seco e cheio de frescura, daqueles que deixam vontade de voltar a encontrar em futuras colheitas. Ficam as minhas notas de prova e impressões sobre os vinhos que tive oportunidade de provar.

VINHA DA ROCA 2024 BRANCO | LISBOA | 13% | PVP  11€
ARINTO, FERNÃO PIRES, MALVASIA FINA
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
16
Cor amarelo citrino, aberto e luminoso, esverdados subtis, aspecto límpido e jovem. No nariz revela um perfil fresco e elegante, com fruta de pomar, notas citrinas e de polpa amarela, bem conjugadas com um ligeiro apontamento floral e uma componente atlântica muito subtil. Na boca, a entrada é aguerrida, sem timidez, com uma acidez vivaz e um registo seco que lhe dão energia e definição. O prolongamento e a afinação acompanham a prova até um final longo e duradouro, confirmando um branco que alia frescura a uma estrutura bem delineada.
Esta acidez vivaz e o perfil seco faz com que pense nele como um bom parceiro para peixe grelhado, marisco ou uma cataplana de peixe.

QUINTA VALE DA ROCA ENCRUZADO 2023 BRANCO | LISBOA | 11,5% | PVP  18€
ENCRUZADO
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17
Cor amarelo citrino, aberto, leve tonalidade palha, aspcto límpido e jovem. No nariz, ainda se revelam algumas marcas da passagem por barrica, com notas de baunilha e fruto seco, acompanhadas por fruta de polpa amarela e um floral perfumado que acrescenta intensidade ao conjunto. Na boca, apresenta menor volume, mas não perde presença, sustentado por uma fina camada de untuosidade que envolve o palato sem o tornar pesado e acidez equilibrada e bem pontuada, que lhe confere frescura e definição, enquanto a barrica surge mais integrada, embora continue presente, com a baunilha a deixar a sua marca. A componente salina acrescenta carácter e conduz a um final longo e persistente.
Aqui, à mesa, a minha escolha recai num peixe assado no forno ou um robalo grelhado, bem como em carnes brancas e preparações com molhos ligeiramente cremosos.

QUINTA VALE DA ROCA MALVASIA 2021 BRANCO | LISBOA | 13% | PVP  16€
MALVASIA
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17,5
Cor amarelo citrino, tonalidade esverdeada com reflexos palha, brilhante, límpido e de aspecto jovem. No plano aromático, mostra-se exuberante, com a fruta em primeiro plano, sobretudo notas de polpa amarela e fruta de caroço, bem conjugadas com um lado floral subtil, uma fina expressão salina e mineral, leve apontamento de cera de abelha em fundo. Na boca, o primeiro ataque é marcado pela salinidade, logo acompanhado por uma acidez vibrante, que seca o palato e imprime energia ao conjunto, revelando um perfil mineral expressivo, sem comprometer a boa cremosidade, enquanto surgem notas de azedas que acrescentam um lado mais ácido e vegetal. Vertical, firme e bem definido, termina longo, deixando uma impressão fresca e salina demonstrativo da presença próxima do Atlântico.
Um dose de Ostras ao natural, um peixe grelhado na ou uma travessa de marisco cozido. A felicidade às vezes é algo bastante simples. 

EMÍLIA DA ROCA 2024 ROSÉ | LISBOA | 12% | PVP  19€
CASTELÃO
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17
Cor rosa salmão intenso, com subtis acobreados, luminoso e brilhante, aspecto límpido e jovem. No plano aromático, começa por se mostrar mais delicado e tímido, revelando, ainda assim, de imediato, fruta vermelha e preta de bosque, com destaque para cereja e framboesa, num registo de bago fresco, acompanhado por um recorte salino e uma subtil nota terrosa. Na boca, recebe-nos com uma acidez atlântica implacável, crocante e vibrante, que define o perfil e lhe imprime tensão. Seco e preciso, conjuga tensão e elegância de mão dada, sem perder a delicadeza da expressão aromática, terminando longo, com uma persistência salina que prolonga a prova e lhe reforça a vocação gastronómica. 
Um rosé seco, tenso e elegante, daqueles que não ficam à margem da mesa, puxa pelo prato e pede comida por perto. Um tártaro ou um prego de atum sff.

VINHA DA ROCA 2024 TINTO | LISBOA | 14,5% | PVP  11€
TINTA RORIZ, TOURIGA NACIONAL, CASTELÃO
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
15,5
Cor vermelho rubi de média concentração, aspecto límpido e jovem. No plano aromático a fruta assume o protagonismo desde o primeiro contacto, num perfil directo e expressivo, onde se destacam notas de cereja, ameixa vermelha e framboesa, prolongando-se do nariz à boca. Mais opulento na expressão, mostra-se macio e envolvente, com taninos polidos que contribuem para uma prova fluida e acessível, que não procura impor-se pela complexidade ou pela estrutura, conquista pela expressão frutada, pela suavidade do conjunto e por um final longo e persistente.
À mesa será bem acompanhado por carnes grelhadas, um bom hambúrguer e pratos de cozinha italiana com carne.

QUINTA VALE DA ROCA PINOT NOIR 2022 TINTO | LISBOA | 13,5% | PVP  29€
PINOT NOIR
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17,5
Cor vermelho rubi de média concentração mais aberto, luminoso, reflexos granada, aspecto límpido e atraente. Aromaticamente, presenteia-nos com elegância e a frescura de uma fruta vermelha muito bonita, onde se destacam a cereja, a ginja, a romã e a framboesa. A estas juntam-se notas de flor seca, pinhal e turfa de pinhal, um subtil apontamento de cedro e uma fina componente salina que parece agarrar-se a todo o conjunto, reforçando a sensação de frescura e a identidade atlântica. Na boca, apresenta médio volume e estrutura, mas sem perder delicadeza e elegância. A textura é macia, quase mastigável, enquanto a acidez, no ponto, se revela vibrante e tensa, sustentando uma secura prolongada. A fruta regressa em excelente forma, acompanhada pelo carácter atlântico e por um tanino firme, mas mais polido, com a componente especiada bem integrada. Termina longo e prazeroso.
Está aberta a época dos jantares de caça onde este pinot noir fará todo o sentido, assim como com carnes vermelhas grelhadas e risotos de cogumelos.

QUINTA VALE DA ROCA PINOT NOIR 2023 TINTO | LISBOA | 13,5% | PVP  29€
PINOT NOIR
QUINTA VALE DA ROCA - SOC. AGRO TURÍSTICA, LDA
17
Cor vermelho rubi de média concentração, luminoso e atraente, aspecto límpido e jovem. No nariz, brilha a fruta vermelha, com destaque para cereja e a romã, bem rodeada por notas de bosque e uma fina camada marítima que me recorda estar perante um Pinot Noir de costa. Na boca, apresenta volume médio, ainda assim um pouco mais cheio do que esperava, com textura macia e uma acidez precisa, sustentada por uma secura bem desenhada, regressando os apontamentos que nos remetem para o lugar, entre o salino e o terroso, conferindo identidade ao conjunto. O tanino firme dá estrutura à prova e acompanha o vinho até um final longo, onde a frescura e o carácter atlântico continuam a marcar presença.
A pensar na mesa, apostaria em magret de pato, codorniz assada ou pratos de cogumelos, no fundo, sabores de outono que podem acompanhar a expressão do vinho.

A experiência de enoturismo disponível permite descobrir a propriedade, adega, vinhas e os seus vinhos através de visitas e provas, proporcionando um contacto mais próximo com a história da quinta e cada singularidade que define a identidade do projecto. Uma forma de conhecer este recanto de Sintra também através do que chega ao copo.
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QUINTA VALE DA ROCA

Morada: Rua Casal Farripas 8, 
                2705-001 AZÓIA
                COLARES
 
Telefone: +351 968 207 782 / +351 961 308 799
Estacionamento: Gratuito

Visitas e provas: Consultar todas as opções e formas de reservar em https://valedaroca.com/pt/wine-tasting/

domingo, 25 de outubro de 2026

Quinta de Cidrô Gewurztraminer 2024 Branco

QUINTA DE CIDRÔ GEWURZTRAMINER 2024 BRANCO | DOURO | 13,5% | PVP  18,90€
GEWURZTRAMINER
REAL COMPANHIA VELHA, SA
16,5

Esta é uma casta de consenso difícil, cuja exuberância aromática tem o costume de afastar possíveis adeptos, mas que no terroir da Quinta de Cidrô parece ganhar outros argumentos que me despertam a curiosidade.
A casta cumpre aquilo que dela esperava no plano aromático, com rosas e lichias bem definidas, mas o vinho ganha interesse pela componente mineral e, sobretudo, por uma acidez vibrante e tensa que lhe confere frescura e uma expressão mais firme do que é habitual nesta variedade. 
Apostaria nele para a mesa com cozinha asiática, sobretudo pratos de inspiração tailandesa, sushi ou ceviche. 
Cor amarelo citrina, aberta, luminoso, nuances esverdeadas, aspeto límpido e muito jovem. No nariz, surgem bem vincados os aromas a rosas e lichias, num perfil clássico da casta, como seria de esperar, mas com uma marca mineral que lhe acrescenta identidade e deixa perceber a influência do terroir em que nasce. Perfumado e distinto, confirma na boca as notas florais e de lichia, embora seja a acidez vibrante e tensa a assumir o protagonismo. Seco e com uma expressão mais firme, quase bruta, do que habitualmente associamos à Gewürztraminer, surpreende pela frescura e termina longo, com uma persistência que convida a voltar ao copo.

sábado, 24 de outubro de 2026

Cazé-Thibaut Jossias Extra Brut 2020 Branco

CAZÉ-THIBAUT JOSSIAS EXTRA BRUT 2020 BRANCO | CHAMPAGNE (FRA) | 12,5% | RM | PVP  65€
PINOT NOIR
EARL CAZE THIBAUT
Dégorgement 02/2025
17,5

Este Champagne chegou-me pela recomendação de um amigo e foi uma daquelas descobertas que dão ainda mais prazer a este mundo do vinho. Nascido em berço de vigneron, em Vandières, na Vallée de la Marne, a partir de Pinot Noir, revela uma expressão de parcela que conjuga fruta, frescura e mineralidade num conjunto prazeroso e elegante.
À mesa, a sua vivacidade e estrutura fazem dele uma boa companhia para ostras, mariscos ou peças de sashimi, mas também serviu de boa parelha para bom presunto, salada de polvo e de ovas bem temperadas. 
Cor amarela intenso, tonalidade dourada clara, com reflexos ligeiramente acobreados, aspecto límpido , bolha extremamente fina, cordão fluído e persistente. No plano aromático encontramos, de forma nítida, notas de frutos vermelhos frescos como a groselha e a framboesa, evoluindo para toques de citrinos maduros, flores secas e nuances de frutos pretos, aparecendo, à medida que abre no copo, subtis notas de especiaria, num plano muito fino e integrado e sem nunca mascarar a fruta.  Surpreende na prova de boca, revelando um registo vibrante e enérgico, de grande tensão e foco, pureza mineral, onde a acidez firme conduz a fruta vermelha pelo palato, com mousse leve e envolvente, terminando longo, seco e com o lado salino e mineral vincado.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Soc. Vin. de Palmela Botelharia Moscatel de Setúbal 1996

SOC. VIN. DE PALMELA BOTELHARIA MOSCATEL DE SETÚBAL 1996 | PENÍNSULA DE SETÚBAL | 17% | PVP  48€
MOSCATEL
SVP, SA
17

Gosto de Moscatéis de Setúbal mais antigos, onde a passagem do tempo deixe marca e o lado mais exuberante e excessivo não esteja tão presente. Aqui não é a concentração que mais me conquista, mas a elegância e o equilíbrio, fazendo neste vinho toda a diferença, com uma doçura equilibrada, sem o peso ou a densidade que por vezes encontramos neste estilo. Um Moscatel que conjuga riqueza aromática e delicadeza, merecendo, por isso, toda a minha atenção. Faz agora 30 anos. Parabéns.
À mesa, acompanharia muito bem uma torta de Azeitão ou doces conventuais à base de ovos e amêndoa. Numa aproximação mais sôfrega também mereça ser apreciado sozinho, com tempo e atenção.
Cor âmbar jovem, tonalidade caramelizada, ligeiramente turvo, embora brilhante. Rico e complexo no plano aromático, destacando as notas clássicas presentes neste tipo de vinho como casca de laranja, flor de laranjeira, algum melaço e frutos passa, envolvente e desafiante. Na boca, a doçura está bem integrada, sem tornar o conjunto pesado ou se mostrar excessivamente denso, primando pela elegância e o equilíbrio que mais me agradam, dando ao vinho uma delicadeza que valorizo particularmente. Dono de final de boca longo e duradouro.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Malhadinha 2024 Branco

MALHADINHA 2024 BRANCO | ALENTEJO | 13,5% | PVP  30€
ARINTO, VIOSINHO, ALVARINHO, VIOGNIER, CHARDONNAY
HERDADE DA MALHADINHA NOVA, SA 
17,5

Conquistou-me pelo equilíbrio entre fruta, frescura e uma barrica discreta, que acrescenta complexidade sem retirar protagonismo à elegância do conjunto. Com volume, textura cremosa e uma acidez que mantém tudo no lugar, é um branco com clara vocação gastronómica, que pede mesa e bons produtos. 
Vejo-o a acompanhar na perfeição um peixe nobre no forno ou um prato de bacalhau, onde a sua estrutura e frescura poderão brilhar. Um vinho que deixa vontade de continuar à mesa com ele no copo.
Cor amarelo citrino intenso, brilhante e com ligeiras nuances esverdeadas, aspecto límpido e jovem. O nariz recebe-nos de forma elegante e fresca, antecipando alguma complexidade aromática ao revelar notas de fruta de polpa branca, maça verde, pêssego e melão, e notas florais subtis a seu lado, com a passagem por barrica a surgir num plano discreto, integrada, sem se sobrepor à fruta, com subtil tostado e especiaria  a compor o bouquet. Na boca, revela volume e estrutura, oferecendo textura cremosa e sedutora que se vê amparada por uma acidez que mantém o conjunto fresco e elegante, onde a fruta continua a brilhar e a passagem por barrica é um pormenor que lhe garante maior amplitude e presença sem comprometer a harmonia, terminando com longo final de boca que nos impele ao copo seguinte.