terça-feira, 25 de agosto de 2026

Laurentina - 50 Anos à Mesa Com o Rei do Bacalhau


A assinalar 50 anos de história, o Laurentina – O Rei do Bacalhau continua a ter no bacalhau o grande protagonista, servido de várias formas e acompanhado por sabores que cruzam a tradição portuguesa com a influência moçambicana. Fomos experimentar alguns dos pratos da casa e perceber como esta identidade se mantém viva, cinco décadas depois.

Chegar aos 50 anos não é apenas uma questão de calendário. É sinal de uma história construída à mesa, de muitas refeições, muitas memórias e, neste caso, de uma ligação muito particular a um produto que faz parte da identidade gastronómica portuguesa. O Laurentina – O Rei do Bacalhau assinala cinco décadas de história e continua a ter no bacalhau o grande protagonista de uma casa que se tornou uma referência em Lisboa e que como, amantes do fiel amigo, nos penitenciamos desde já por ser esta apenas a primeira vez.

Antes de nos lançarmos à mesa, espaço para um pouco de história, que neste Restaurante faz todo o sentido, tal a epopeia apaixonante que se iniciou com António Pereira, fundador do Restaurante Laurentina, ainda criança, que aprendeu a cozinhar nas patuscadas que fazia com os amigos. Mais tarde, durante a juventude, viajou até Lourenço Marques, actual Maputo, em Moçambique, onde abriu o então famoso Leão d’Ouro, no Alto Maé. Durante 22 anos, dedicou-se à gestão do restaurante e aos segredos do bacalhau, experiência que viria a marcar definitivamente o seu percurso.
De regresso a Portugal, António Pereira quis partilhar, no centro de Lisboa, os sabores da sua arte tradicional e regional portuguesa, com origem nas Beiras, sem esquecer a forte ligação aos sabores africanos que trazia consigo. Abriu a sua casa aos familiares e amigos e, em 1976, nascia o Restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau.

O que então era uma novidade tornou-se, ao longo das décadas, uma tradição reconhecida além-fronteiras pela qualidade, pela experiência e pela forma particular de trabalhar o bacalhau. Mais de quatro décadas depois, perduram os segredos da casa, desde a selecção do bacalhau, sempre da Islândia, ao seu corte e demolha, passando pela arte de bem receber e servir os clientes.

O nome Laurentina está também ligado à cerveja Laurentina, uma das marcas mais emblemáticas de Moçambique. Foi essa ligação que ajudou a reforçar a identidade do restaurante e a manter viva a memória dos sabores, das referências e das experiências moçambicanas que fazem parte da sua história.

Hoje, a paixão de António Francisco Pereira pela cozinha e pela arte de bem gerir permanece intacta, continuada pelas mãos dos seus filhos, Rita e Marco Pereira. É essa passagem de testemunho que permite ao Laurentina celebrar 50 anos sem perder a ligação às suas origens, mantendo uma identidade reconhecível e uma forma muito própria de estar à mesa.

Começámos pelas entradas, com uma salada de polvo (14,50€), pataniscas de bacalhau (4,25€ unid.) e a chamuças exótica (6,50€ duas). Três propostas distintas que desde logo mostram essa convivência entre tradição e outras influências. A salada de polvo chegou com o polvo no ponto e revelou-se maravilhosa, cheia de frescura e simplicidade, enquanto as pataniscas nos levaram para o lado mais tradicional, ainda quentes, finas e saborosas, com o bacalhau bem presente. As chamuças acrescentaram uma dimensão mais aromática e especiada, fazendo a ponte para a matriz moçambicana que também integra a identidade do Laurentina, sem nunca se tornarem excessivamente picantes.

Depois, naturalmente, chegou o momento de dar palco ao bacalhau. E aqui a escolha recaiu em quatro interpretações bastante diferentes.

O Bacalhau à Brás (22,50€) é um daqueles pratos que dispensam apresentações. Bacalhau desfiado, batata e ovo numa combinação reconfortante, que continua a fazer sentido precisamente porque não precisa de grandes artifícios. Envolvente e cremoso, ganhou ainda mais expressão com a batata palha feita na casa, que acrescenta textura e reforça o sabor. É um prato de conforto, daqueles que nos fazem sentir imediatamente em casa.

E antes de passarmos às interpretações mais tradicionais, demos um salto pela Moqueca de Bacalhau (26,50€). O mesmo peixe surge aqui num registo mais aromático e envolvente, apresentado em lascas bem definidas que se juntam à cremosidade do prato, sem que o seu sabor desapareça. Uma proposta que mostra como o bacalhau pode atravessar fronteiras e encontrar novas interpretações sem perder a sua identidade e fazendo o cruzamento de culturas que faz parte da história do Laurentina.

Seguimos por outro caminho com o Bacalhau Alto Assado (54€ 2 pax). Para quem gosta da posta alta que coloca o peixe no centro da experiência e deixa que a qualidade do produto fale por si. Uma preparação mais directa, onde a simplicidade do bem fazer é uma virtude e onde o acompanhamento não procura roubar protagonismo ao bacalhau.
 
No final lugar à Couvada de Bacalhau à Pereira da Laurentina (52€ 2 pax) que foi, para mim, o momento da refeição. Uma preparação que foge ao percurso mais previsível e que, mais do que surpreender, me fez fechar os olhos perante a intensidade do sabor. Como se algo me impelisse a cerrar os olhos em contemplação e, durante aqueles instantes, nada mais à minha volta interessasse. Ficamos apenas nós e o prato. Há sabores que se comem, outros que se apreciam e depois há aqueles que nos fazem parar. Este foi um deles. Daqueles pratos que fazem voltar qualquer um. E eu quero voltar.

Quatro pratos, quatro formas de interpretar o mesmo protagonista. E talvez seja precisamente essa capacidade de trabalhar o bacalhau sem o prender a uma única fórmula que ajuda a explicar uma parte dos 50 anos de história desta casa.
Como guardamos sempre um lugar para a derradeira parte da refeição, espaço ainda para uma verdadeiro desfile de sobremesas feitas no próprio dia. Baba de Camelo (6,50€), Mousse de Chocolate (6,50€) e Leite Creme Queimado (6,50€) representaram os clássicos, enquanto as Cerejas do Fundão (8€) e o Exótico de Coco com molho de Cereja do Fundão (7,50€) acrescentaram uma dimensão mais frutada e sazonal.

Mas houve uma sobremesa que mereceu uma atenção especial: o Pastel de Nata Caseiro e Gelado de Baunilha com Macadâmia (9,50€), feito ao momento. Há qualquer coisa de particularmente interessante quando um clássico tão português chega à mesa acabado de preparar. A massa, o creme e o calor do forno fazem aqui parte da experiência e não apenas da receita.

Cinquenta anos depois, o nome continua a dizer exactamente ao que se vem: encontrar o Rei do Bacalhau à mesa. Mas chegar a meio século também passa por saber respeitar todos os elementos que chegam ao prato. Não apenas o bacalhau, mas também a batata, a couve, o azeite e todos os restantes ingredientes que o acompanham e ajudam a construir cada preparação. No Laurentina, essa atenção ao conjunto faz-se sentir, permitindo que cada componente mantenha a sua identidade e contribua para o equilíbrio final.

Há também um valor especial na cozinha feita no momento, com o cuidado e o tempo necessários para que cada preparação chegue à mesa no seu melhor. A textura do bacalhau, o ponto da batata, a couve, a qualidade do azeite e a forma como todos estes elementos se encontram não são detalhes menores: são parte essencial da experiência. Não se trata apenas de servir, mas de cozinhar para quem está ali, naquele instante, valorizando cada produto e o trabalho de quem o transforma.
Talvez seja essa combinação entre qualidade, respeito por todos os ingredientes, cozinha feita no momento e uma identidade reconhecível que permite a uma casa continuar a receber diferentes gerações. E deixar que a história continue a ser escrita — prato após prato, mesa após mesa.

_________________________________________________________________________
LAURENTINA - O REI DO BACALHAU

Tipo de Cozinha: Tradicional Portuguesa e alguns pratos de influência moçambicana
Copos de Vinho Adequados: Sim
Vinho a Copo: Sim
Estacionamento: Parque Público Pago
Preço médio sem bebidas: 35€-40€ 
Horários: Segunda-feira a sábado: 12:00h - 16:00h e 19:00h - 23:00h;
                Domingo: Fechado
 
Morada: Avenida Conde de Valbom 71A 
              1050-067 LISBOA
         
Telefone:  +351 217 960 260

Sem comentários:

Enviar um comentário