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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Laurentina - 50 Anos à Mesa Com o Rei do Bacalhau


A assinalar 50 anos de história, o Laurentina – O Rei do Bacalhau continua a ter no bacalhau o grande protagonista, servido de várias formas e acompanhado por sabores que cruzam a tradição portuguesa com a influência moçambicana. Fomos experimentar alguns dos pratos da casa e perceber como esta identidade se mantém viva, cinco décadas depois.

Chegar aos 50 anos não é apenas uma questão de calendário. É sinal de uma história construída à mesa, de muitas refeições, muitas memórias e, neste caso, de uma ligação muito particular a um produto que faz parte da identidade gastronómica portuguesa. O Laurentina – O Rei do Bacalhau assinala cinco décadas de história e continua a ter no bacalhau o grande protagonista de uma casa que se tornou uma referência em Lisboa e que como, amantes do fiel amigo, nos penitenciamos desde já por ser esta apenas a primeira vez.

Antes de nos lançarmos à mesa, espaço para um pouco de história, que neste Restaurante faz todo o sentido, tal a epopeia apaixonante que se iniciou com António Pereira, fundador do Restaurante Laurentina, ainda criança, que aprendeu a cozinhar nas patuscadas que fazia com os amigos. Mais tarde, durante a juventude, viajou até Lourenço Marques, actual Maputo, em Moçambique, onde abriu o então famoso Leão d’Ouro, no Alto Maé. Durante 22 anos, dedicou-se à gestão do restaurante e aos segredos do bacalhau, experiência que viria a marcar definitivamente o seu percurso.
De regresso a Portugal, António Pereira quis partilhar, no centro de Lisboa, os sabores da sua arte tradicional e regional portuguesa, com origem nas Beiras, sem esquecer a forte ligação aos sabores africanos que trazia consigo. Abriu a sua casa aos familiares e amigos e, em 1976, nascia o Restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau.

O que então era uma novidade tornou-se, ao longo das décadas, uma tradição reconhecida além-fronteiras pela qualidade, pela experiência e pela forma particular de trabalhar o bacalhau. Mais de quatro décadas depois, perduram os segredos da casa, desde a selecção do bacalhau, sempre da Islândia, ao seu corte e demolha, passando pela arte de bem receber e servir os clientes.

O nome Laurentina está também ligado à cerveja Laurentina, uma das marcas mais emblemáticas de Moçambique. Foi essa ligação que ajudou a reforçar a identidade do restaurante e a manter viva a memória dos sabores, das referências e das experiências moçambicanas que fazem parte da sua história.

Hoje, a paixão de António Francisco Pereira pela cozinha e pela arte de bem gerir permanece intacta, continuada pelas mãos dos seus filhos, Rita e Marco Pereira. É essa passagem de testemunho que permite ao Laurentina celebrar 50 anos sem perder a ligação às suas origens, mantendo uma identidade reconhecível e uma forma muito própria de estar à mesa.

Começámos pelas entradas, com uma salada de polvo (14,50€), pataniscas de bacalhau (4,25€ unid.) e a chamuças exótica (6,50€ duas). Três propostas distintas que desde logo mostram essa convivência entre tradição e outras influências. A salada de polvo chegou com o polvo no ponto e revelou-se maravilhosa, cheia de frescura e simplicidade, enquanto as pataniscas nos levaram para o lado mais tradicional, ainda quentes, finas e saborosas, com o bacalhau bem presente. As chamuças acrescentaram uma dimensão mais aromática e especiada, fazendo a ponte para a matriz moçambicana que também integra a identidade do Laurentina, sem nunca se tornarem excessivamente picantes.

Depois, naturalmente, chegou o momento de dar palco ao bacalhau. E aqui a escolha recaiu em quatro interpretações bastante diferentes.

O Bacalhau à Brás (22,50€) é um daqueles pratos que dispensam apresentações. Bacalhau desfiado, batata e ovo numa combinação reconfortante, que continua a fazer sentido precisamente porque não precisa de grandes artifícios. Envolvente e cremoso, ganhou ainda mais expressão com a batata palha feita na casa, que acrescenta textura e reforça o sabor. É um prato de conforto, daqueles que nos fazem sentir imediatamente em casa.

E antes de passarmos às interpretações mais tradicionais, demos um salto pela Moqueca de Bacalhau (26,50€). O mesmo peixe surge aqui num registo mais aromático e envolvente, apresentado em lascas bem definidas que se juntam à cremosidade do prato, sem que o seu sabor desapareça. Uma proposta que mostra como o bacalhau pode atravessar fronteiras e encontrar novas interpretações sem perder a sua identidade e fazendo o cruzamento de culturas que faz parte da história do Laurentina.

Seguimos por outro caminho com o Bacalhau Alto Assado (54€ 2 pax). Para quem gosta da posta alta que coloca o peixe no centro da experiência e deixa que a qualidade do produto fale por si. Uma preparação mais directa, onde a simplicidade do bem fazer é uma virtude e onde o acompanhamento não procura roubar protagonismo ao bacalhau.
 
No final lugar à Couvada de Bacalhau à Pereira da Laurentina (52€ 2 pax) que foi, para mim, o momento da refeição. Uma preparação que foge ao percurso mais previsível e que, mais do que surpreender, me fez fechar os olhos perante a intensidade do sabor. Como se algo me impelisse a cerrar os olhos em contemplação e, durante aqueles instantes, nada mais à minha volta interessasse. Ficamos apenas nós e o prato. Há sabores que se comem, outros que se apreciam e depois há aqueles que nos fazem parar. Este foi um deles. Daqueles pratos que fazem voltar qualquer um. E eu quero voltar.

Quatro pratos, quatro formas de interpretar o mesmo protagonista. E talvez seja precisamente essa capacidade de trabalhar o bacalhau sem o prender a uma única fórmula que ajuda a explicar uma parte dos 50 anos de história desta casa.
Como guardamos sempre um lugar para a derradeira parte da refeição, espaço ainda para uma verdadeiro desfile de sobremesas feitas no próprio dia. Baba de Camelo (6,50€), Mousse de Chocolate (6,50€) e Leite Creme Queimado (6,50€) representaram os clássicos, enquanto as Cerejas do Fundão (8€) e o Exótico de Coco com molho de Cereja do Fundão (7,50€) acrescentaram uma dimensão mais frutada e sazonal.

Mas houve uma sobremesa que mereceu uma atenção especial: o Pastel de Nata Caseiro e Gelado de Baunilha com Macadâmia (9,50€), feito ao momento. Há qualquer coisa de particularmente interessante quando um clássico tão português chega à mesa acabado de preparar. A massa, o creme e o calor do forno fazem aqui parte da experiência e não apenas da receita.

Cinquenta anos depois, o nome continua a dizer exactamente ao que se vem: encontrar o Rei do Bacalhau à mesa. Mas chegar a meio século também passa por saber respeitar todos os elementos que chegam ao prato. Não apenas o bacalhau, mas também a batata, a couve, o azeite e todos os restantes ingredientes que o acompanham e ajudam a construir cada preparação. No Laurentina, essa atenção ao conjunto faz-se sentir, permitindo que cada componente mantenha a sua identidade e contribua para o equilíbrio final.

Há também um valor especial na cozinha feita no momento, com o cuidado e o tempo necessários para que cada preparação chegue à mesa no seu melhor. A textura do bacalhau, o ponto da batata, a couve, a qualidade do azeite e a forma como todos estes elementos se encontram não são detalhes menores: são parte essencial da experiência. Não se trata apenas de servir, mas de cozinhar para quem está ali, naquele instante, valorizando cada produto e o trabalho de quem o transforma.
Talvez seja essa combinação entre qualidade, respeito por todos os ingredientes, cozinha feita no momento e uma identidade reconhecível que permite a uma casa continuar a receber diferentes gerações. E deixar que a história continue a ser escrita — prato após prato, mesa após mesa.

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LAURENTINA - O REI DO BACALHAU

Tipo de Cozinha: Tradicional Portuguesa e alguns pratos de influência moçambicana
Copos de Vinho Adequados: Sim
Vinho a Copo: Sim
Estacionamento: Parque Público Pago
Preço médio sem bebidas: 35€-40€ 
Horários: Segunda-feira a sábado: 12:00h - 16:00h e 19:00h - 23:00h;
                Domingo: Fechado
 
Morada: Avenida Conde de Valbom 71A 
              1050-067 LISBOA
         
Telefone:  +351 217 960 260

terça-feira, 7 de julho de 2026

À Mesa com o Tejo: A experiência sofisticada do Bonança na Doca de Belém


Peixe fresco, esplanada, vista panorâmica e o Tejo como testemunha. O restaurante Bonança atracou na Doca de Belém e transformou a histórica Associação Naval de Lisboa num ponto de encontro mais sofisticado no qual se pode encontrar o equilíbrio perfeito entre pratos de autor, ambiente descontraído e uma lufada de ar fresco para os amantes da boa mesa à beira Rio.

Se a pressa e o reboliço turístico costumam ditar o ritmo de Belém, o Bonança surge como o antídoto perfeito. Esqueçe as filas intermináveis e o barulho dos elétricos. Aqui, o ritmo é outro: é o das marés, o do bater suave dos barcos na doca e o do tilintar dos copos que celebram o início de uma refeição sem pressas. 
Instalado no edifício da Associação Náutica mais antiga da Península Ibérica, o espaço conseguiu a proeza de honrar o peso da história sem se deixar ficar preso ao passado. O resultado? Uma atmosfera que equilibra uma elegância contemporânea com aquela descontração desarmante de quem tem o pé na areia ou, neste caso, o olhar fixo no rio.

Ao cruzar a porta de entrada, após passar pela esplanada, percebemos imediatamente que a viagem começa muito antes dos pratos chegarem à mesa. O restaurante aproveita a escala monumental do edifício histórico, distribuindo-se por dois pisos repletos de contrastes. O rés-do-chão acolhe-nos com a amplitude do antigo hangar e estaleiro de barcos do clube naval, sendo dominado pelo imponente mural de 1940, assinado por Miguel Barrias, que foi meticulosamente restaurado para servir de eixo visual a quem entra. Já a subida ao primeiro andar revela o verdadeiro segredo e a dualidade do espaço. 

É ali que se esconde a mítica sala antiga dos sócios, mantida praticamente sem alterações, envolta em tons de azul-escuro profundos que preservam as madeiras originais, os quadros históricos e o ambiente rústico de uma autêntica cápsula do tempo. A contrastar lado a lado com esta memória intocável, o novo primeiro piso abre-se em espaço e luz funcionando como um mezanino suspenso com uma varanda aberta e vista privilegiada para o Tejo. 

A esplanada, estrategicamente posicionada, serve de camarote de primeira fila para ver o Padrão dos Descobrimentos e o recorte da Ponte 25 de Abril ao fundo.

Mas vamos ao que realmente importa nesta nossa história: a mesa. O Bonança não se apoia apenas na sua localização privilegiada para conquistar o cliente. A verdadeira viagem faz-se através da ementa, uma autêntica ode ao Atlântico e à nossa costa que ganha vida pelas mãos e criatividade do chef Pedro Amendolas. Na cozinha, a liderança do chef reflete um respeito absoluto pela matéria-prima. A frescura do marisco salta imediatamente à vista, mas é o toque contemporâneo da sua equipa que rouba as atenções, provando que o rigor da alta gastronomia não precisa de ser cinzento ou formal demais.
 
Sob a mão precisa do Chef Pedro Amendolas, os pratos tradicionais são elevados a um nível de sofisticação invulgar. Na nossa visita tivemos oportunidade de, numa primeira parte e em modo partilha, várias opções de entrada, como o saboroso e suculento Pica-Pau, o clássico Ameijoas à Bulhão Pato, a vibrante Crudo de Lírio dos Açores, com água de tomate, uva e pinhão e o fresco Carpaccio de Atum Rabilho, com um creme de rábano, alcaparras fritas e azeite aromatizado de pimentos. 
 
Tradição e criatividade. Há técnica, há assinatura de autor, mas acima de tudo há sabor português puro, sem camuflagens escusadas. Numa segunda fase, escolhemos a Tranche de Peixe do Dia Grelhado – Robalo – com legumes assados que trouxe à mesa o peixe inteiro para partilha pelos comensais. A frescura do Robalo e o ponto na grelha fizeram magia. Era preciso algo mais?
 
Na parte mais doce da refeição lugar a duas sobremesas completamente inesperadas, mas também quisemos arriscar. Em primeiro lugar a Mousse de Matcha, Figo Fumado e Amêndoas e depois, o arrojado Pudim Abade de Priscos, Merengue, Frutos Vermelhos e Hibiscus que é uma maravilha e se come sem olhar para trás.
 
A experiência gastronómica ganha ainda mais força quando estendemos o olhar para o copo. A pensar nos finais de tarde que convidam a prolongar a partilha, a carta de cocktails - desenhada pelo Chef de Bar Filipe Ventura - propõe um mergulho em sabores inovadores e curados ao detalhe. 
 
Desde reinterpretações de clássicos a criações de autor que casam na perfeição com a brisa salgada, onde cada bebida é pensada para ser o par ideal, quer para abrir o apetite antes da refeição, quer para desfrutar na varanda enquanto vê o sol esconder-se no horizonte ou, como no nosso caso, para fazer uma pausa entre as entradas e o prato principal. As escolhas recaíram sobre o Atlântico Noir, que é uma excelente alternativa ao meu preferido Negroni embora menos intenso e no best Seller da casa, mais doce, mas com frescura incrível. 
 
Seja para um almoço de negócios que se quer produtivo, mas inspirador, ou para um final de tarde em que o casaco já começa a fazer falta, mas a conversa flui melhor do que nunca, o Bonança cumpre o que promete. É um porto seguro para os amantes da boa mesa que não abdicam da sofisticação, mas que dispensam qualquer tipo de pretensiosismo. Em suma: uma lufada de ar fresco nesta Lisboa à beira-rio.

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BONANÇA - ASSOCIAÇÃO NAVAL DE LISBOA

Tipo de Cozinha: Cozinha Portuguesa Contemporânea
Na Cozinha: Chef Pedro Amendola
Copos de Vinho Adequados: Sim
Vinho a Copo: Sim
Estacionamento: Gratuito no Parque da Estação Fluvial de Belém ou facilitado a partir das 20:00h no parque interior da Marina (com acesso pela Estação Fluvial de Belém).
Preço médio sem bebidas: Carta: 25€ a 50€; Menu Executivo: 24€ (inclui couvert, prato, bebida e café).
Horários: De segunda-feira a quinta-feira das 12:00h às 00:00h; de sexta-feira a sábado das 12:00h às 02:00h; ao domingo das 12:00h às 16:00h
 
Morada: ANL - Doca de Belém 
                1400-038 LISBOA
         
Telefone:  +351 916 884 669

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Memórias de infância e sabores do mundo: O Menu de Primavera do Intemporal com assinatura do Chef António Simões


O menu de degustação Primavera cruza de forma sofisticada as memórias de infância do chef António Simões com técnicas e sabores do mundo, mantendo a aposta rigorosa nos produtos nacionais de época e na alta gastronomia que caracteriza o emblemático espaço de Paço de Arcos.

Regressamos ao Intemporal para conhecer o novo menu de Primavera, embora com o verão já a bater à porta.  Este é um daqueles lugares onde já fomos felizes e onde a forma como o tempo é moldado define toda a nossa experiência, sendo que este voltar é também feito de abertura de portas a um novo capítulo, já com a recomendação Michelin à porta e com um novo chef no comando.  Se és fã de alta gastronomia, prepara-te pois temos uma nova história para contar à mesa. 

Após a saída de Miguel Laffan, a liderança exclusiva da cozinha foi entregue ao Chef António Simões, anterior chef residente, cuja visão muito pessoal promete redefinir a identidade gastronómica da mítica Casa do Fiscal. Sentimos uma atmosfera renovada a partir do momento em que passamos a porta de entrada, com um sentido de cumplicidade na sala, o sorriso na comunicação, no olhar, sem perder um ritmo mais focado e uma energia que parece pulsar em cada movimento. Se o requinte e a elegância intemporal do espaço se mantêm intocáveis, a abordagem ao prato ganhou nova energia com um registo de sofisticação técnica, harmonia produto e sazonalidade e onde cada elemento conta uma história que nos faz recuar às experiências mais longínquas e mais recentes do jovem chef.

PRELÚDIO: Do Jardim ao Mar, Caviar, Morango Verde, Balsâmico Branco
O Menu de Primavera é o manifesto desta transformação e a introdução a uma narrativa profundamente pessoal. O Chef António Simões convida os comensais a folhear o seu próprio diário de bordo através de 11 momentos cirúrgicos, divididos em cinco atos. 
Nesta nova história, as suas memórias de infância, enraizadas no centro do país, entre o Rabaçal e Condeixa, cruzam-se com os sabores e técnicas do mundo que absorveu nas suas viagens e o resultado é notável, oferecendo um equilíbrio virtuoso entre a terra e o mar, mostrando respeito absoluto pelo produto nacional que brilha na frescura do Lírio dos Açores ou na profundidade atlântica do Goraz com gamba da costa e berbigão. 

PRELÚDIO: Ovos Rotos, Toro, Batata Crocante, Gema Curada
No entanto, e para regozijo dos nossos sentidos, o chef não hesita em cruzar fronteiras ao introduzir a reinterpretação audaz, mas memorável do Khao Soi tailandês ou ao homenagear o encontro de culturas no prato Desde 1543 ou a buscar o conforto conhecido do Cordeiro de Leite. A fechar a narrativa, a doçaria da Chef de Pastelaria Letícia Silva, com destaque para a frescura do prato Morango finalizado à mesa com ginger beer e que reforça que esta nova era é feita de frescura, arrojo e, acima de tudo, identidade. 

PRELÚDIO: Coscorão, Bacalhau, Poejo, Pimento Fumado
A viagem gastronómica proposta pelo Chef António Simões desdobra-se num ritmo coreografado, onde cada prato assume o papel de um capítulo vivido. No PRELÚDIO, o primeiro ato focado nos snacks de boas-vindas, o nosso grande destaque vai para o Coscorão. Esta tradicional base estaladiça portuguesa é aqui elevada ao estatuto de alta gastronomia, servindo de suporte a uma delicada combinação de bacalhau, poejo e o toque subtil do pimento fumado, com cebola caramelizada e gel de azeitona verde, num equilíbrio perfeito entre crocância e cremosidade. 

PASSAGEM: Lírio dos Açores, Cenoura, Kumquat, Tamarindo
Logo de seguida, na PASSAGEM para os momentos mais estruturados, brilha o prato batizado de Desde 1543. Esta criação é uma autêntica homenagem histórica ao encontro de culturas aquando da chegada dos navegadores portugueses ao Japão. 

PASSAGEM: Desde 1543, Presunto Bolota, Dashi de Cogumelos, Ervilha Lágrima
No prato, o cruzamento cultural faz-se com a riqueza do presunto ibérico de bolota e o umami profundo de um dashi de cogumelos, que serve de palco à frescura delicada da ervilha lágrima, um dos produtos mais nobres e efémeros da primavera.

PERMANÊNCIA: Pão de Fermentação Lenta e Sementes, Manteiga de Cabra, Azeite
O percurso ganha novas texturas no momento da PERMANÊNCIA, um ato no qual acabamos por nos dedicar ao culto do pão. Longe de ser apenas um acompanhamento, este momento assume um protagonismo fabuloso através de um pão de fermentação lenta de fabrico próprio, cozido na perfeição, com uma côdea estaladiça e o miolo húmido. O serviço é enriquecido por uma untuosa manteiga de cabra e por um azeite selecionado do Alentejo. Obriga-nos a desacelerar e a saborear a simplicidade na sua forma mais luxuosa. A simplicidade do pão, manteiga, azeite e uma vista priveligiada e fabuloso para a foz do Rio Tejo que nos é transmitiva via janelão luminoso de não sei quantas polegadas.

DEMORA: Goraz, Jus do Assado, Gamba da Costa, Berbigão da Galiza
Entra-se depois no ato da DEMORA, onde o mar português assume o controlo. O Goraz surge com uma precisão técnica irrepreensível na cozedura, envolvido num jus rico do próprio assado, na doçura da gamba da costa e na frescura salina do berbigão da Galiza. 

DEMORA: Khao Soi, Lula, Couve Fermentada, Frango do Campo
Contudo, a verdadeira obra-prima deste ato e, atrevemo-nos a dizer, de todo o menu, é o Khao Soi. Esta sopa tradicional do norte da Tailândia é reinventada pelo chef com uma audácia invulgar, ao cruzar a lula e a couve fermentada com o conforto do frango do campo, resultando num caldo complexo, aromático e ligeiramente picante que arrebata os sentidos e define o auge criativo da nova cozinha do Intemporal. Comemos de olhos fechados e com um sorriso rasgado no rosto. Pura felicidade!

DEMORA: Cordeiro de Leite, Espargos Verdes, Pimenta da Jamaica
Por fim, a narrativa alcança a ETERNIDADE através do desfecho doce assinado pela pastelaria. O momento alto desta despedida pertence ao prato Morango, uma criação de uma frescura etérea que combina os morangos laminados da época com um gelado texturado, creme de rosas e um crumble crocante de chocolate branco.

ETERNIDADE: Morango, Gengibre Fermentado, Rosas, Chocolate Branco
A magia consolida-se à mesa, onde a sobremesa é finalizada com uma ginger beer caseira e artesanal, cujo toque efervescente e ligeiramente picante limpa o palato, prolongando na memória a frescura e a identidade desta nova era do restaurante.

ETERNIDADE: Amazonas, Chocolate Negro, Maracujá, Cajú
O Intemporal não mudou de rumo, antes refinou o seu destino. Sob a assinatura do chef António Simões, o restaurante prova que a alta gastronomia vive da técnica, mas perpetua-se através da emoção. O Menu de Primavera não é apenas uma sucessão de pratos felizes, é um diário de bordo comestível que honra as origens portuguesas ao mesmo tempo que pisca o olho ao mundo, sem medo de arriscar em caldos complexos como o do Khao Soi ou em detalhes fabulosos como o do pão de fabrico próprio. É uma paragem obrigatória para esta temporada gastronómica.

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INTEMPORAL

Tipo de Cozinha: Fine Dining
Na Cozinha: Chef António Simões e Chef de Pastelaria Letícia Silva
Distinções: Recomendado Michelin
Copos de Vinho Adequados: Sim
Vinho a Copo: Sim
Estacionamento: Gratuito no Parque do Hotel Vila Galé Collection Palácio dos Arcos
Preço do Menu de Degustação: 120€ (sem bebidas) 
Horários: Terça-feira e Sábado: das 12:30h às 15:00h e das 19:30h às 23:00h
                Domingo e Segunda-feira: Encerrado
 
Morada: Rua Vista Alegre 
                2770-046 PAÇO DE ARCOS
         
Telefone:  +351 968 432 288

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Touta - Uma viagem sensorial pela cozinha libanesa de Cynthia Bitar


Uma experiência na cozinha libanesa contemporânea, afastando-se do clássico "kitsh" do Médio Oriente, num conceito de "cozinha libanesa livre" e criativa no qual os sabores tradicionais são reinterpretados pelas mãos sábias e apaixonadas da chef Cynthia Bitar.

Inspirado na alcunha de infância da Chef Cynthia Bitar, o Touta é uma homenagem às memórias, viagens e momentos que moldaram a sua voz culinária, uma viagem de sabores, ao mesmo tempo nostálgicos e intemporais. 
Em virtude disso encontramos um espaço que foge ao conceito tradicional de restaurante étnico, talvez por ser também constituído por diversas salinhas que permitiram criar um conceito intimista e acolhedor, misturando a sofisticação do fine dining com o conforto de uma casa libanesa, num registo muito informal, agraciando-nos com uma decoração moderna e clean, sem sermos inundados com referências ao berço da cozinha.

Ostra do Algarve: Gaspacho de fattoush, pão libanês frito
A experiência no espaço divide-se em diferentes ambientes começando logo à entrada pela sala principal e cozinha aberta que nos permite observar a Chef Cynthia e equipa a trabalhar sem segredos; logo depois, uma zona de Bar, sendo um espaço mais pequeno e dedicado a cocktails e à seleção de vinhos libaneses; segue-se a sala de jantar comunitária, uma área maior com uma mesa comunitária, ideal para partilhar pratos e conversas, refletindo a hospitalidade típica do Líbano e depois, a derradeira sala, a mercearia, um dos elementos visuais que mais marcam a visita, uma pequena loja com as prateleiras repletas de conservas, compotas, infusões e fermentados feitos na casa, que os podemos comprar para levar. O espaço perfeito que nos vai obrigar a sair do Touta de saquinho na mão.

Bombons de queijo: Massa filo, queijo Akkawi de leite de vaca, sementes de nigela

Zlebieh: Assado no forno com zaatar, Labneh, Makdous de azeitona e folhas frescas
As salas são diferentes, mas com fio condutor contemporâneo, optando por cores terrosas, iluminação suave e com fotografias de pessoas e de várias regiões do Líbano que decoram as paredes. 

Croquete de Batata: Carne e cebola, pinhões, couve, ketchup de beterraba
A carta de vinhos é um dos pontos fortes e motivo de grande curiosidade do espaço, focando-se especialmente em vinhos libaneses, embora também inclua referências portuguesas sendo habitual  a sugestão de vinhos específicos que estão a ser servidos naquela semana para harmonizar com os pratos sazonais da Chef Cynthia Bitar.


Kafta: Tártaro de novilho maturado a secoy, folhas frescas, batatas fritas em gordura de vaca
Para além do vinho, ainda podemos encontrar outras opções de bebidas típicas e criativas como  a Araq, a tradicional aguardente de anis libanesa; cocktails de assinatura; cerveja, têm a libanesa Almaza e bebidas caseiras como a deliciosa e fresca ginger beer, a kombucha de zaatar e tepache de cardamomo.

Arnabieh: Peixe do dia cozinhado lentamente (Corvina), arroz branco, tahini e citrinos, cebola doce glaceada

Shawarma Roll: Porco Preto alentejanogrelhado, pil-pil, chimichurri de biwaz, pão da casa
A recepção é feita com um sorriso rasgado pela Rita Ballouta, sócia-gerente e directora de marketing, mas também presença assídua no serviço de mesa, assim como não será estranho ver a própria chef Cynthia Bitar a fazê-lo, a trabalhar na cozinha aberta ou a explicar os pratos detalhadamente e a forma correcta de os comer. Para além do foco na cozinha, no dar vida a uma reinterpretação moderna de receitas libanesas com ingredientes locais, a atenção ao cliente é também um objectivo primário, recebendo-o de forma acolhedora e fazendo com que se senta como em sua casa.

Mhalbieh: Pudim de leite, mastika e flor de laranjeira, coulis de alperce seco

Chocorange: Valrhona 70% chocolate negro, creme de cardamomo, biscoito brownie, Cointreau, caramelo salgado
No final, jantar no Touta não é apenas sobre saciar o apetite, mas participar numa narrativa gastronómica que ganha vida através da forma como a chef Cynthia Bitar interpreta a sua herança cultural: não como um conjunto rígido de regras, mas como uma linguagem viva que se adapta ao peixe fresco da costa portuguesa e aos produtos sazonais do mercado. 
Ao fugir dos circuitos turísticos de massa, o Touta consegue manter uma aura de exclusividade e autenticidade, onde cada prato é uma ponte entre o Mediterrâneo Oriental e o Atlântico.

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TOUTA

Tipo de Cozinha: Libanesa de Assinatura, Médio Oriente
Na Cozinha: Chef Cynthia Bitar
Distinções: 1 Sol Guia Repsol 2026
Copos de Vinho Adequados: Sim
Vinho a Copo: Sim
Estacionamento: Parque Público Pago
Preço médio sem bebidas: 30€ 
Horários: Terça-feira a Sábado: 19:00h às 23:30h
                Domingo e Segunda-feira: Fechado
 
Morada: Rua Domingos Sequeira 38, 1350-122 Lisboa
              1350-122 LISBOA
         
Reservas: Site Oficial ou The Fork
Telefone:  +351 960 494 949