quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Adega Regional de Colares: Seis Vinhos, Uma Identidade Que Resiste


Colares continua a provar que a tradição também pode ganhar novas formas. Fui conhecer as mais recentes propostas da Adega Regional de Colares e encontrei seis vinhos que percorrem diferentes caminhos, mas que têm em comum uma coisa difícil de replicar: a identidade de um território moldado pela areia, pelo Atlântico e pela história.

Entre o Atlântico e a Serra de Sintra, num terroir onde a influência marítima se sente na vinha e se prolonga no copo, sobrevivem algumas das vinhas mais singulares do País, plantadas em solos de areia onde as raízes das videiras conseguem descer em profundidade à procura de humidade e de solo para além da areia. Poucas regiões vitivinícolas portuguesas têm uma identidade tão marcada pelo lugar onde nascem como Colares e, é neste cenário muito particular que se construiu a história dos Vinhos de Colares e, sobretudo, a resistência de castas como o Ramisco e a Malvasia de Colares.
Fundada em 1931, a Adega Regional de Colares nasceu precisamente com a missão de juntar produtores e preservar este património vitivinícola. Ao longo de décadas, tornou-se uma das principais guardiãs da denominação e de uma forma de fazer vinho que, apesar das dificuldades e da redução da área de vinha a que foi sujeita, continua a distinguir Colares de qualquer outra região portuguesa.
Hoje, entrar na Adega Regional de Colares é também encontrar diferentes maneiras de interpretar este território. De um lado, vinhos mais acessíveis e de perfil conscensual; do outro, os Arenae, onde as vinhas de areia, o pé-franco e as castas tradicionais ganham outra dimensão. É precisamente essa diversidade que estas novas colheitas ajudam a mostrar, com seis vinhos que vão do Chão Rijo aos Arenae, passando por brancos, rosés, tintos e um clarete que recupera uma expressão muito própria da região.
 
CHÃO RIJO 2019 TINTO | LISBOA | 12% | PVP  6,50€
CASTELÃO, TINTA RORIZ
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
16.5
Cor vermelho rubi de média concentração, luminoso, aspecto límpido e jovem. No nariz mostra fruta vermelha madura, ameixa e cereja, acompanhadas por notas subtis de ervas secas, ligeiro tostado e uma discreta componente balsâmica. Na boca revela uma estrutura de corpo médio, com a fruta a regressar logo de início acompanhada por uma sensação mineral, registo leve,  com uma acidez muito bem colocada que mantém o conjunto vivo, tanino já polido num conjunto que privilegia equilíbrio e frescura em vez de concentração, beneficiando claramente do tempo que passou até chegar ao copo e com um final seco e persistente. 
Brilha quando chega à mesa carnes vermelhas como porco preto, secretos grelhados, entrecosto, pratos de caça de menor intensidade ou um belo arroz de pato. 
 
CHÃO RIJO 2025 BRANCO | LISBOA | 11,5% | PVP  6,50€
MALVASIA, GALEGO DOURADO, JAMPAL, FERNÃO PIRES
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
16,5
Cor amarelo limão brilhante, aberto e luminoso, aspecto límpido, jovem e atrativo. Revela um perfil aromático fresco e expressivo, com incidência na fruta, com lima, limão, maçã verde e fruta de polpa branca, acompanhadas por discretas notas florais e uma sugestão mineral, aqui mais presente que no tinto. Na boca não engana e apresenta boa frescura, acidez firme, acutilante e uma sensação ligeiramente salina que lhe dá personalidade e vínculo ao terroir, num conjunto leve, directo e equilibrado, terminando fresco e com uma agradável persistência citrina.
Muito fácil de levar para companhia com comida com ligações vencedoras quando com peixe grelhado, marisco, saladas, ceviches, sushi e pratos de cozinha asiática.

CHÃO RIJO 2025 ROSÉ
| LISBOA | 12% | PVP  6,80€
CASTELÃO
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
17
Cor rosa salmão com reflexos acobreados, brilhante e atrativo, aspecto límpido e jovem. Aromaticamente fresco e delicado, dominado por morango, framboesa e outras pequenas bagas vermelhas, acompanhadas por discretas notas florais e a subtil nuance salina que lhe confere uma dimensão extra. Na boca confirma a leveza aromática, com acidez bem pontuada e vibrante, perfil fresco, mais seco e de textura macia. A componente mineral e a ligeira salinidade adicionam comprimento e um carácter atlântico evidente num final de boca longo e seco.
À mesa pensei logo nele para sardinhas assadas, peixe grelhado, marisco de concha, sushi e cozinha oriental. Um piscar de olho também às conservas de peixe de sardinha e cavala.
A novidade que acrescenta uma terceira leitura à gama e leva para um registo mais descontraído a influência atlântica de Colares. É um rosé de Castelão cheio de frescura e sem complicações, mas sem abdicar daquele toque salino, acidez vibrante e com grande presença à mesa. Espero que se continue com ele nas próximas colheitas.

ARENAE MALVASIA 2023 BRANCO | COLARES | 12% | PVP  22,60€
MALVASIA DE COLARES
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
18
Cor amarela citrina, aberta e com pouca densidade, luminoso, brilhante, límpido e jovem.  No plano aromático revela a complexidade e riqueza esperada, agarrando-nos num registo e muita frescura e elegância onde a fruta citrina se cruza com notas de maçã cozida, ervas aromáticas, subtil anisado, mel e cera de abelha, surgindo, depois a acompanhar, nuances mais salinas e minerais. Na boca revela-se seco e fresco em volume médio, com uma acidez muito presente e uma interessante sensação agridoce que lhe dá profundidade, juntando-se à componente atlântica, bem marcada, prolongando-se num final de boca onde a mineralidade, a salinidade e uma ligeira sensação iodada ganham protagonismo. 
À mesa pedimos MAR, percebes, cracas, lapas, marisco de concha, peixe grelhado, arroz de marisco e ostras só com a sua água.
 
ARENAE RAMISCO 2017 TINTO | COLARES | 12% | PVP  25,50€
RAMISCO
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
18,5
Cor vermelho rubi com subtil nota evolução, média concentração, ainda com boa densidade e luminosidade, límpido e ainda assim jovem. Plano aromático profundo e que nos leva de imediato para Colares, com as notas de ginja, fruta vermelha madura, alguma erva seca, cedro e discretas e bem integradas notas balsâmicas, a que se junta a assinatura atlântica tão característica. Na boca revela estar num grande momento, mostrando-se seco, austero e elegante, com taninos firmes, mas muito mais polidos do que seriam num Ramisco jovem, onde a acidez é uma das suas grandes virtudes, trazendo tensão e frescura a um conjunto de grande identidade, onde a marca salina e mineral se mostra persistente num final é longo, seco e prazeroso.
O cabrito saloio assado no forno, o borrego, a caça de pele, cogumelos e pratos de forno. Está a entrar o outono na Serra, na cozinha e na mesa. 

 
ARENAE CLARETE 2025 TINTO
| LISBOA | 11% | PVP  16,90€
RAMISCO, MOLAR
ADEGA REGIONAL DE COLARES, CRL
18
Cor vermelho rubi intenso, pouco concentrado, luminoso e brilhante, aspecto límpido e jovem. Plano aromático fresco e expressivo, com fruta vermelha de perfil delicado, cereja, romã e ginja, apontamentos florais bem medidos, subtil componente salina, com presença de pinhal, pinhão e leve componente vegetal que lhe acrescentam identidade, sem nunca perder elegância. Na boca é onde mais surpreende com um primeiro ataque de vivacidade, frescura e leveza,  para depois nos abraçar com uma acidez deliciosa que lhe dá tensão e energia, oferecendo a fruta bem definida e taninos finos, discretos e perfeitamente integrados, textura sedosa, embora trincável, sem o peso ou a concentração que normalmente associamos a um tinto, enquanto o final, fresco e persistente, confirma um vinho pensado mais para a elegância e para a mesa do que para a força. Longe de ser simples, um encontro feliz onde a austeridade potencial do Ramisco encontra na Molar a suavidade e a fruta necessárias para construir um conjunto muito equilibrado e surpreendentemente gastronómico. (Clica no link para publicação dedicada)
 
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ADEGA REGIONAL DE COLARES 

Morada: Alameda Coronel Linhares de Lima, 32, 
               2705-351 COLARES

Horário: Segunda-feira a sábado, 09h00–13h00 e 14h00–18h00. Encerra aos domingos e feriados nacionais e municipais.
 
Telefone: +351 219 291 210
Estacionamento: Gratuito

Visitas e provas: É possível fazer uma visita sem guia ao edifício principal do século XIX, acompanhada de uma prova informal na loja. A reserva é recomendada e o mínimo é de duas pessoas. Seguir este link para mais informações, preços sempre actualizados e reservas.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Armán Finca Os Loureiros Edición Limitada 2021 Branco

ARMÁN FINCA OS LOUREIROS EDICIÓN LIMITADA 2021 BRANCO | DO RIBEIRO (ESP) | 13% | PVP  29€
TREIXADURA
BODEGAS CASAL DE ARMA'N, SL
17,5

Daqueles brancos que me despertou a atenção logo pelo primeiro contacto, mostrando a Treixadura com uma dimensão que vai muito além da fruta e da frescura, revelando volume, textura e uma interessante complexidade trazida pelo estágio em madeira e sobre as borras. 
Gostei particularmente da forma como tudo se conjuga sem que a madeira tome conta do vinho, havendo profundidade e uma dimensão mais gorda, mas também equilíbrio e frescura, num branco que pede tempo no copo e, sobretudo, pede mesa.
Fez com que pensasse em pratos com algum peso e onde existisse matéria suficiente para acompanhar o seu volume e textura. Um bom peixe assado, um bacalhau no forno ou um arroz de marisco bem feito, mas também com polvo assado ou uma ave assada com algum molho. Vai correr bem de certeza.  
Cor amarela intensa e definida, tonalidade palha, brilhante, aspecto límpido e ainda jovem. No plano aromático mostra boa intensidade e definição, rico, mas elegante e fino ,começando por fruta de polpa madura, como pera, maçã e sugestões de pêssego, a que se juntam notas cítricas maduras, um pouco evoluídas e recorte mineral evidente. A madeira surge bem integrada, aportando apontamentos subtis de baunilha e especiaria, acompanhados por uma pitada de pastelaria, revelando ainda uma componente floral discreta. Com o tempo no copo parece ganhar dimensão e profundidade. Boca num plano de prova superior ao nariz, com um primeiro ataque vivaço e a mostrar acidez com tensão e prolongamento, mas cremoso e estruturado, textura macia - um dos seus pontos fortes-, com a componente de fruta a surgir novamente bem definida, acompanhada por notas de especiaria e uma madeira que se mantém integrada. Há volume e alguma untuosidade, mas sem perder a frescura necessária para que o conjunto não se torne pesado. Termina longo e com boa persistência.

domingo, 4 de outubro de 2026

D. Graça Espumante Bruto Tinto Cão 2020 Rosé

D. GRAÇA ESPUMANTE BRUTO TINTO CÃO 2020 ROSÉ  | DOURO | 12,5% | PVP  17,95€
TINTO CÃO
VINILOURENÇO, LDA
Dégorgement 08/2024
17 

A casta Tinto Cão é uma das castas mais interessantes e menos consensuais do Douro, sobretudo quando sai dos lugares mais previsíveis e habituais. Neste caso, a Vinilourenço leva-a um pouco mais longe, criando um espumante tinto bruto, numa interpretação pouco habitual que preserva a identidade da casta sem esconder a sua personalidade. Em rosé tranquilo já começamos a vê-la com o destaque que merece e com belíssimos resultados, mas em rosé espumante é raro. O resultado convence, ganhando leveza e frescura através da bolha, fugindo um pouco ao perfil habitual dos espumantes, com grande apetência gastronómica e que merece ser descoberto.
A acidez e a estrutura tânica permitem acompanhá-lo com bacalhau, polvo assado, arroz de forno, carnes brancas mais condimentadas ou mesmo uma bela sardinhada de final de verão. Se há alguma gordura ou molho a equilibrar claramente será uma escolha acertada.
Cor amarela com tonalidade casca de alperce, subtis acobreados, luminoso e brilhante, aspecto límpido com bolha fina e cordão persistente. No plano aromático começa fresco e expressivo, com fruta vermelha num perfil delicado, onde surgem notas de morango, framboesa e frutos silvestres, acompanhadas por um discreto lado floral, revelando nuances mais finas de panificação e brioche, muito bem integradas na componente frutada, sem que esta perca a sua vivacidade. Encontro-lhe ainda uma subtil sugestão mineral e citrina que contribuem para a sensação de frescura que oferece. Na boca mostra-se seco, fresco e cremoso, com acidez bem presente e uma mousse fina que percorre o palato sem se sobrepor ao conjunto, reaparecendo a fruta vermelha com boa definição, acompanhada por uma ligeira sensação mineral e novamente por apontamentos de pão e brioche. Revela bela tensão final, equilíbrio, elegância e generosa persistência. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Dalva Late Bottled Vintage Port 2019

DALVA LATE BOTTLED VINTAGE 2019  | PORTO | 20% | PVP  14,50€
CASTAS TRADICIONAIS DOURO
GRANVINHOS, LDA
17

Um LBV (Late Bottled Vintage) apostado sobretudo na fruta e numa estrutura suficientemente firme para não deixar que a doçura domine o conjunto, ainda numa dimensão relativamente jovem, mas já com o tempo necessário para se apresentar mais polido e pronto a beber. Surpreendeu-me pela sua frescura e uma relação qualidade-preço feliz.
Estamos perante um Porto que funciona muito bem com queijos de pasta dura e cura prolongada ou ainda com queijos azuis, o Blue Stilton – o meu pairing de eleição-, mas também com sobremesas onde o chocolate negro tenha papel de destaque. Eu experimentaria ainda com uma sobremesa de frutos vermelhos pouco doce, permitindo que a boa fruta do LBV dialogue com o prato sem criar um conjunto excessivamente pesado.
Cor vermelho rubi profundo e opaco, auréola luminosa de tonalidade violácea, límpido e de aspecto muito jovem. Expressivo no plano aromático, onde a fruta preta e vermelha madura se cruza com sugestões de frutos silvestres,  framboesa, ameixa e amora silvestre, subtil floral bem encaixado num evidente e interessante lado mentolado e balsâmico, revelando ainda, à medida que se habitua ao copo, notas de especiarias, sobretudo pimenta e algumas nuances de alcaçuz, com um discreto fundo de cacau/chocolate negro. Na boca continua em evidência este perfil baseado em frescura e grande equilíbrio, não deixando de mostrar bom corpo e envolvência, com a fruta novamente em primeiro plano, casada com a componente especiada que lhe acrescenta alguma complexidade, traço de cacau negro em final, com tanino polido, mas firme, textura macia, terminando com boa persistência,  deixando a fruta e um cacau subtil em fundo a brincar com o nosso palato.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Buçaco Rosado Reservado 2020 Rosé

BUÇACO ROSADO RESERVADO 2020 ROSÉ | IVV | 13% | PVP  69€
BAGA
ALEXANDRE DE ALMEIDA PROD E COM DE VINHOS, SOC UNIP, LDA
18

Quando se fala dos vinhos Buçaco, temos de ter em conta que estamos perante um território diferente, onde a tradição e a capacidade de envelhecimento contam tanto como a própria colheita. E a história ou será mais Estória também conta. Criado para a adega do Palace Hotel-Bussaco, este rosé segue a tradição dos vinhos Buçaco, pensados desde a origem para acompanhar a gastronomia do hotel e envelhecer com dignidade em garrafa. O Reservado Rosé mantém esse propósito, apresentando-se como um vinho de mesa sério e gastronómico, longe do perfil imediato e descontraído que normalmente associamos à categoria dos rosés. É um rosé que apetece agora que as temperaturas baixam, diria um rosé de inverno com grande presença no verão, se for para o levar à mesa. Estejam preparados para um rosé com estrutura, acidez, secura e, repito, uma dimensão gastronómica que o coloca de forma certeira na companhia de comida.  A idade? Apenas um número.
Cor salmão intenso, com tonalidade acobreada, sinal de alguma evolução, aspecto límpido e atrativo. No nariz começa por se mostrar um pouco contido, quase como uma face séria e fria,  onde a fruta vermelha surge subtilmente acompanhada por notas florais, vinco mineral e um discreto, mas presente, lado terroso. Com o tempo no copo fica mais evidente uma componente de ervas secas e especiaria, acrescentando-lhe complexidade e profundidade. A boca confirma essa percepção aromática. Seguimos num registo seco, tenso e com uma acidez muito viva, mostrando uma estrutura pouco habitual num rosé português, mas perfeitamente integrada, com textura, profundidade e uma frescura que lhe dá enorme equilíbrio, deixando a fruta marcar presença, embora mais contida, sempre enquadrada pela acidez e por uma componente mineral que prolonga a prova. Há aqui uma nota de evolução em garrafa que, sem dúvida, lhe trouxe maior integração e alguma suavidade ao conjunto, mas sem retirar o nervo e a identidade do vinho. Termina longo, fresco e muito gastronómico, deixando uma excelente impressão.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Quinta da Extrema Edição III 2017 Tinto

QUINTA DA EXTREMA EDIÇÃO III 2017 TINTO | DOURO | 14,5% | PVP  46,90€
TOURIGA NACIONAL, TOURIGA FRANCA
COLINAS DO DOURO SOCIEDADE AGRÍCOLA, LDA
18

Na mesma noite em que provámos o Quinta da Extrema Edição II 2017 Branco, seguimos na mesma linha para o tinto, a Edição III 2017. Uma oportunidade muito interessante para provar os dois em sequência e fazer as naturais comparações – onde possível -, com registos distintos dentro do mesmo projecto: de um lado, a frescura e a elegância do branco; do outro, um tinto mais estruturado, profundo e marcado pela fruta e pela componente especiada; ambos ainda com caminho pela frente e com os passos evolutivos a fazerem de forma lenta. 
Duas leituras distintas do Douro Superior, mas com uma identidade comum, que neste tinto se revela através da Touriga Nacional e da Touriga Franca, com evolução em garrafa que lhe garante maior complexidade, menos arestas e maior harmonia ao conjunto, sem lhe retirar energia e vivacidade. 
Encaixa no perfil de vinhos que por aqui gostamos de levar para a mesa quando se anunciam prato de carne com estrutrura, assados no forno ou cozinha de tempo, como são o cabrito assado, o borrego, as bochechas de porco, as carnes vermelhas grelhadas ou os pratos de caça. 
Cor vermelho intenso de média concentração, mantendo boa profundidade, reflexos violeta, aspecto límpido, escondendo alguma da sua idade. No nariz a fruta continua bem presente, sobretudo num registo de fruta vermelha e preta madura, acompanhada por notas florais, componente especiada e ligeira, mas fresca presença de balsâmicos. Há sinais de evolução, mas surgem ainda de forma subtil, sem que as notas terciárias assumam o protagonismo. Na boca está mais polido, com a passagem do tempo limar algumas arestas e trazendo maior harmonia ao conjunto. Mantém estrutura e volume, mas a fruta, a acidez e os taninos encontram-se agora melhor integrados, proporcionando uma prova mais equilibrada e envolvente, captando maior atenção, e, apesar dos anos, conservando energia e frescura. Algo que lhe dá particular interesse nesta fase. Termina longo, com boa persistência e um equilíbrio muito conseguido entre fruta, especiaria, estrutura e frescura. Um vinho que evoluiu, é verdade, mas que ainda está longe de ter perdido a sua identidade e a sua capacidade de surpreender. .

sábado, 26 de setembro de 2026

Chateau Musar 2017 Branco

CHATEAU MUSAR 2017 BRANCO | BEKAA VALLEY (LIBANO) | 11,5% | PVP  49€
OBAIDEH, MERWAH
GASTON HOCHAR
17

O Château Musar é um daqueles vinhos que não precisam de grandes apresentações, sobretudo para um apaixonado por vinho e que gosta de descobrir brancos que fogem ao perfil mais previsível. Produzido a partir das castas Obaideh e Merwah, as duas principais uvas brancas autóctones do Líbano, é um vinho que ganha muito com o tempo e que encontra na evolução em garrafa uma das suas principais virtudes. Este 2017 mostra precisamente essa capacidade, revelando já alguma evolução, mas mantendo uma energia e uma frescura que tornam a prova particularmente interessante e a sua ligação à mesa.
A acidez e a componente salina que lhe  encontrei fazem com que, de imediato, pense nele para peixe assado ou grelhado, marisco, pratos de bacalhau ou a lula grelhada com camarão bem regada de azeite que lhe fez companhia. 
Cor amarelo intenso, já com reflexos aloirados, aspecto límpido, mas denunciando algum caminho percorrido em garrafa. O plano aromático faz com que se esqueça a nota visual,  mostrando que estamos perante um vinho muito vivo. Começa por revelar fruta de polpa amarela e citrinos maduros, a que se juntam frutos secos, mel, ervas secas e algumas notas especiadas, com subtil spicy muito interessante. Com tempo no copo vai ganhando complexidade, surgindo uma camada mineral e ligeiramente oxidativa, que lhe acrescenta profundidade sem lhe retirar frescura. Na boca é onde mais surpreende e saltamos um degrau na prova. Revela volume e uma textura quase cremosa, num conjunto leve e equilibrado, com a acidez bem presente, dando-lhe tensão e mantendo-o sempre vivo, enquanto uma componente salina percorre a prova e prolonga o final. Não é um branco construído sobre potência, mas sobre equilíbrio, textura e complexidade. O tempo de garrafa trouxe-lhe uma bonita evolução, sem lhe retirar energia. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Reflexos D’Alma: Quando o Melhor Plano é Não Ter Planos


Às vezes, tudo o que precisamos é de um lugar onde o mundo fique lá fora. Silêncio, campo, animais, piscina, um quarto confortável e tempo para não fazer absolutamente nada. No Reflexos D’Alma encontrámos isso e mais qualquer coisa: uma daquelas escapadinhas que acabam por superar aquilo que levávamos na expectativa.

O projecto Reflexos D’Alma nasceu de um sonho pessoal e familiar de Valter Águas, com quem tivemos oportunidade de conversar durante a nossa estadia e que nos contou um pouco da história por detrás do projecto. Depois de 17 anos em Angola, regressou a Portugal com a vontade de começar uma nova vida, mais ligada ao campo, à natureza e à hospitalidade. Um projecto pensado também como uma forma de encontrar a paz e a tranquilidade que procurava para si e para a família. 

Construído praticamente de raiz, o Reflexos D’Alma abriu portas em outubro de 2023, assumindo desde o início uma filosofia centrada num turismo rural de pequena escala, no contacto com a natureza, no sossego e numa relação próxima com quem por ali passa.

A propriedade dispõe apenas de seis suites, cada uma com a sua identidade, podendo também ser ocupada na totalidade, uma possibilidade que faz sentido para uma família ou para um grupo de amigos que queira ter o espaço por sua conta. No nosso caso, ficamos na unidade com jacuzzi, um quarto de boas dimensões e suficientemente espaçoso para que a estadia seja vivida sem aquela sensação, tão comum em alguns alojamentos, de que tudo foi pensado apenas para passar a noite.

Um quarto que merece uma referência à parte. É o único da propriedade com jacuzzi e, além das boas dimensões, tem uma decoração que foge ao convencional e que começa logo pela cama, de aspecto realmente impressionante. Depois surgem os pormenores, aqueles que ajudam a dar personalidade ao espaço: os cadeirões, a escolha dos elementos decorativos e, sobretudo, a bicicleta transformada em apoio ao lavatório, uma solução original que dá ao quarto um carácter muito próprio. Não é apenas uma questão de conforto; é um espaço onde se percebe que houve vontade de criar uma identidade e não simplesmente de mobilar um quarto.

Mas é quando saímos do quarto que começamos verdadeiramente a perceber a relação do conceito Reflexos D’Alma com o campo. A propriedade tem piscina, espaços exteriores para descansar, zonas destinadas a piqueniques e barbecue e, nos espaços preparados, encontramos os animais que fazem parte desta componente mais rural: galinhas, cabras, uma vaca, cavalos e patos. Não estão ali apenas como elemento decorativo de uma fotografia bonita. Fazem parte da própria identidade do lugar e ajudam a criar um ambiente diferente daquele que encontramos num alojamento convencional.
 
A piscina acaba naturalmente por ser um dos pontos de mais utilização durante os dias mais quentes como forma os que lá passamos. E foi também ali que surgiu um daqueles pequenos momentos que, apesar de aparentemente insignificantes, acabam por ficar na memória. A determinada altura, levaram-me um chá frio de frutos vermelhos para junto da piscina, sem que o tivesse pedido e sem qualquer custo adicional. É um pormenor, claro, mas é precisamente nestes pormenores que muitas vezes percebemos a diferença entre simplesmente disponibilizar um espaço e estar verdadeiramente atento a quem o está a utilizar.

Percebe-se que o Reflexos D’Alma não é apenas um negócio de alojamento, mas também o resultado de um projecto de vida, e isso acaba por se sentir na forma como somos recebidos e tratado. Mais do que juntar alojamento e natureza, procura criar um lugar onde o conforto e a privacidade convivem com uma forma mais simples e tranquila de estar no campo.
E existe ainda um detalhe que faz diferença: o Valter está muito presente no dia a dia do projecto. É uma presença natural, próxima, que ajuda a transmitir ao espaço um ambiente mais familiar e menos impessoal. 

A sua localizaçãoa também beneficia da proximidade de Estremoz. A cerca de dez minutos de carro, a cidade permite complementar facilmente uma estadia mais tranquila no campo com um passeio pela zona histórica, uma refeição num dos restaurantes locais ou uma visita ao mercado de sábado. Foi precisamente por Estremoz que passei durante esta experiência, aproveitando para andar pela cidade e descobrir um pouco melhor aquilo que existe para lá da propriedade.

No final, aquilo que fica do Reflexos D’Alma não é apenas o quarto, a piscina ou a possibilidade de passar uns dias no campo. É a combinação de tudo isso com uma forma de receber que se sente próxima e pouco artificial. A presença do Valter, os animais, os espaços exteriores e até aquele simples chá levado até à piscina acabam por construir uma experiência que não precisa de grandes artifícios para funcionar.

Talvez seja essa a melhor forma de resumir o Reflexos D’Alma: um projecto que nasceu de uma vontade pessoal, cresceu em torno do campo e encontrou na hospitalidade uma forma muito própria de receber quem por ali passa. Um lugar para abrandar o ritmo durante uns dias, conhecer Estremoz com outra calma e, sobretudo, sentir que do outro lado existe alguém verdadeiramente presente no projecto que criou.

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REFLEXOS D'ALMA 
Rural, Familiar, Férias, Luxo, Escapadinha
 
6 Suites (2 pessoas)
1 Villa Deluxe (6 pessoas)

Estacionamento: Gratuito
Restaurante: Não (apenas pequeno-almoço)

Morada: Estrada Nacional 372
               7100–712 ESTREMOZ

         
Telefone:  +351 268 011 718

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Júlio B. Bastos Grande Reserva Alicante Bouschet 2015 Tinto

JÚLIO B. BASTOS GRANDE RESERVA ALICANTE BOUSCHET 2015 TINTO | ALENTEJO | 13,5% | PVP  94€
ALICANTE BOUSCHET
JULIO BASTOS
18,5

A casta Alicante Bouschet encontrou no Alentejo um dos territórios onde melhor consegue mostrar a sua força, mas também a capacidade de fazer nascer vinhos com grande potencial de envelhecimento e complexidade. Estamos aqui perante uma expressão particularmente séria dessa relação, com berço em Estremoz, pensado para sair no momento julgado como certo e que apela à guarda. A pisa em lagares de mármore e estágio em barricas novas de carvalho francês ajudam a construir um tinto de grande estrutura, mas é sobretudo o tempo em garrafa que permite perceber a dimensão deste vinho. Neste caso, a prova trouxe uma semi-surpresa, pois embora já estivesse à espera e apesar dos anos passados, encontrei um vinho de enorme juventude, cheio de raça e com argumentos mais do que suficientes para continuar a envelhecer na garrafeira se resistirmos à tentação de o beber… não foi o caso.
A sua estrutura impressionante pede pratos à altura. A companhia foi um chuleton temperado apenas com umas pedras de sal, mas um bom bife grelhado, carnes de caça, borrego assado ou pratos de carne cozinhados lentamente serão também motivos de felicidade gastronómica. A minha escolha vai sobretudo para uma carne de sabor intenso, cozinhada sem demasiados artifícios, deixando que a fruta, a acidez e a estrutura da Alicante Bouschet façam o resto.
Cor ainda muito carregada, vermelho concentrado, com luminosa auréola mais aberta, aspecto límpido e jovem. No plano aromático, começa por mostrar um nariz profundo e concentrado, dominado pela fruta preta madura, ameixa e amora, a que se juntam notas balsâmicas, especiadas, cacau subtil e um discreto lado vegetal que lhe dá frescura. A madeira está presente, mas bem integrada na estrutura geral, contribuindo mais para a complexidade do que para se sobrepor à fruta. Na boca é onde mais impressiona a sua juventude, revelando-se cheio, musculado e com muita raça, dono de uma estrutura tânica firme, acidez suficiente para lhe dar equilíbrio e uma concentração de fruta que permanece muito viva, contribuindo para um conjunto denso, mas não pesado. Já não se apresenta austero, bruto e quase silencioso, como terá sido noutra fase da sua vida, mas está mais elegante, mais arrumado e com as diferentes componentes perfeitamente encaixadas, continuando cheio de vigor e vida. Termina com um final longo e persistente, deixando a sensação muito clara de que ainda não chegou ao seu ponto máximo de evolução. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Real Companhia Velha Royal Oporto Vintage 1977

REAL COMPANHIA VELHA ROYAL OPORTO VINTAGE 1977 | PORTO | 20% | PVP  100€ a 110€
TOURIGA FRANCA, TINTA RORIZ, TINTA BARROCA, TOURIGA NACIONAL
REAL COMPANHIA VELHA VINHOS
18

Quando falamos de Vinho do Porto, 1977 é um daqueles anos que ficou associado a uma colheita de grande qualidade, reconhecida entre os anos clássicos do Porto Vintage. É, por isso, particularmente interessante voltar a um vinho dessa colheita quase cinco décadas depois e perceber de que forma o tempo o transformou. 
Foi nesse contexto que provei o Real Companhia Velha Porto Vintage 1977, uma garrafa que me surpreendeu pela forma como chegou ao copo. Mais tímido e envergonhado a princípio, talvez porque não lhe demos a atenção devida numa abertura antecipada, rapidamente entrou em diálogo alegre connosco, mostrando poucos sinais de cansaço e revelando-se luminoso, complexo e, sobretudo, cheio de vida, num muito bom momento de forma.
À mesa, um Vintage com esta idade pede harmonizações que não lhe retirem protagonismo. Queijos de pasta azul, como Stilton ou Roquefort, são parceiros naturais, mas sugiro também que seja companhia acertada para sobremesas de chocolate negro, frutos secos, figos ou um simples bolo inglês pouco doce. Ainda assim, perante a complexidade, o equilíbrio que mostrou e o prazer que deu a beber, talvez a melhor companhia seja mesmo alguma conversa tranquila e tempo para o beber devagar. 
Visualmente atrativo, mantém a coloração vermelha, embora já desvanecida e com pouca densidade, mostrando agora nuances mais próximas das de um Colheita, com subtis tonalidades de âmbar jovem e alguns acastanhados. Luminoso e brilhante. Componente aromática profunda, complexa, com camadas distintas, mas num casamento feliz, marcado pelas notas mais terciarias e menos pela fruta, revelando notas de bolo inglês, frutos secos, especiaria exótica a temperar o conjunto, cardamomo, canela, bolacha americana de cacau, limpo, embora com o lado especiado a dominar o bouquet. Na boca encontra-se cheio de vida, em bom momento de forma, com acidez bem casada com a fruta, a doçura e o álcool, harmonioso, alguma fruta preta desidratada, ameixa, figo seco, mantém a pitada especiada e o registo mais fresco, menos denso, prazeroso a beber e comprimento final de boca extenso e duradouro.

sábado, 19 de setembro de 2026

Dona Berta Vinha do Avô Reserva 2023 Branco

DONA BERTA VINHA DO AVÔ RESERVA 2023 BRANCO | DOURO | 13,5% | PVP  30€
CÓDEGA, CÓDEGA DO LARINHO, VIOSINHO, GOUVEIO, MALVASIVA FINA, RABIGATO
HERNÂNI A. M. VERDELHO
17,5

Um vinho Especial - informa-se desde logo no contra-rótulo -, resultado de um ano difícil, mas cuja resiliência das vinhas, localizadas no coração da Quinta do Carrenho a cerca de 500 metros de altitude, centenárias e habituadas aos desafios do Douro Superior, souberam dar base para um vinho de memória.
Apesar de aberto ainda jovem, mostra-se um branco com estrutura, profundidade e capacidade de evolução, apostando nele para anos vindouros, onde o tempo fará a sua magia.
É um vinho que pede mesa. Peixe grelhado, robalo ou dourada no forno, bacalhau, arroz de peixe ou marisco são escolhas naturais. Devido à proximidade, não deixo de pensar nele para o casar com o peixe do rio, seja frito ou assado no forno.
Cor amarela citrina definida, intenso e brilhante, aspecto límpido e jovem. No plano aromático começa por mostrar-se bastante expressivo, mas sem excessos, mantendo uma linha de elegância e frescura onde surgem aromas de fruta branca e de caroço, como maçã, pera e uma sugestão de pêssego, acompanhados por notas cítricas que lhe dão frescura. Aos poucos aparecem também apontamentos florais e um lado mais mineral, quase pedregoso, que contribui para a sensação de profundidade. A passagem parcial por madeira está bem integrada, acrescentando volume e alguma complexidade aromática sem se sobrepor ao carácter da fruta. Na boca ganha outra dimensão. A acidez dá-lhe frescura e tensão, mas existe também uma textura envolvente e cremosa, com um volume que impede que o vinho se torne apenas mais um branco fresco do Douro. A fruta reaparece com boa definição, acompanhada por uma ligeira sensação mineral e por uma estrutura que sustenta bem o conjunto. O final é persistente, seco e equilibrado, deixando uma agradável combinação entre frescura, textura e complexidade.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Luis Pato Vinha Pan Bruto 2021 Branco

LUIS PATO VINHA PAN BRUTO 2021 BRANCO | BAIRRADA | 12% | PVP  26 €
BAGA
LUÍS PATO UNIPESSOAL, LDA
17,5

O nome Luís Pato está há muito ligado à Bairrada e, sobretudo, à capacidade de mostrar a Baga em diferentes registos. Este vinho segue precisamente essa ideia, levando a casta para o universo dos espumantes e fazendo dela a protagonista de um vinho de carácter bem definido. Proveniente da Vinha Pan, com uma abordagem de pouca intervenção, 100% Baga e cerca de 30 meses de estágio em garrafa. Perfil bem seco e tenso, faceta gastronómica fugindo da ideia de espumante de entrada.
Esta acidez e a secura fazem-no particularmente adequado para mariscos, ostras, percebes e peixe grelhado, mas também para pratos de maior intensidade, como bacalhau à Brás, arroz de peixe ou frituras de peixe. A Baga deu-lhe estrutura suficiente para acompanhar uma tábua de enchidos, presunto e queijos de forma irrepreensível.
Cor amarela com tonalidade alperce, acobreado muito luminoso e aberto, bolha fina e cordão persistente. No nariz lugar aos citrinos, sobretudo casca de limão, alguma fruta de caroço de perfil mais contido e notas que lembram ervas aromáticas, com uma componente mineral e ligeiramente salgada a dar-lhe dimensão. Na boca confirma a frescura que a Baga consegue transmitir neste contexto, com acidez firme, secura bem marcada, espuma leve e fina, estrutura que lhe dá presença sem o tornar pesado, com um final de boca ligeiramente austero, persistente e fresco. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Monte Cascas Vinha da Carpanha 2014 Tinto

MONTE CASCAS VINHA DA CARPANHA 2014 TINTO | DÃO | 14% | PVP  53€
JAEN, TOURIGA NACIONAL
CASCA WINES - PRODUÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DE VINHOS, SA
17,5

O tempo tem uma forma muito própria de revelar aquilo que um vinho guarda dentro de si e, neste caso, são já doze anos desde a vindima da vinha velha de Penalva do Castelo, no Dão - Vinha da Carpanha -, plantada entre 1920 e 1930 e situada a mais de 500 metros de altitude. Um vinho de parcela, feito a partir de jaen e touriga nacional, num terroir marcado pelo granito, pela presença de um filão de xisto e pela altitude. 
Mostra-se com elegância. A fruta já não está sozinha, foi ganhando companhia nas notas balsâmicas, minerais, terrosas e especiadas, mas a frescura continua bem presente e dá equilíbrio ao conjunto. Bebeu-se com enorme prazer e que deixou claro que o tempo, quando bem aproveitado, pode ser um excelente aliado.
No prato pede-se complexidade, profundidade e tempo. Borrego assado, estufados de caça, carnes vermelhas ou pratos de forno. E, estando já nesta fase de evolução, também o colocaria à mesa com queijos de pasta dura, particularmente um Serra da Estrela de meia cura.
Cor vermelha ainda com reflexos rubi, aparecendo nuances tijoladas, mantendo a tez mais jovem do que o esperado,  aspecto límpido e brilhante. Aroma exuberante e complexo, com a fruta vermelha e preta num bom casamento com as notas da passagem por barrica e do tempo, bergamota, violetas secas, mirtilo e outras bagas escuras, lado mais quente e doce, subtil bolo de chocolate, especiaria, balsâmico, nota de bosque, discreto terroso, atrai pela harmonia e gulodice. Boca de médio volume, estrutura ainda firme, num registo mais leve e elegante do que o vendido no plano aromático, fruta fresca mais integrada no conjunto com terciários mais presentes, algum couro, acidez bem pontuada, vivaz no conjunto, macio textura, tanino polido e redondo, a convencer em plena na prova de boca, terminando longo, equilibrado e sedutor.



sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Quinta da Moscadinha | Novos Caminhos para a Sidra Madeirense

Na Quinta da Moscadinha, na Camacha, a maçã não é apenas matéria-prima. É o ponto de partida para um projecto com o qual tive o primeiro contacto há cerca de pouco mais que um ano e que tem vindo a recuperar pomares antigos, alguns deles esquecidos durante décadas, e a procurar novas formas de trabalhar uma fruta que faz parte da história da Madeira. Pela mão de Márcio Nóbrega, produtor e proprietário da quinta, a tradição da Sidra na Ilha tem ganho novas interpretações, sem perder a ligação ao território e às variedades que lhe dão identidade.
O regresso à Quinta da Moscadinha acontece, recentemente, por ocasião da apresentação de três novidades que mostraram precisamente essa vontade de experimentar e de ir mais longe, nunca perdendo a linha condutora à tradição e à história.  É neste contexto que nasce a Ancestrale, uma sidra criada a partir de 98 variedades de maçã; a Altitude, uma rara sidra de pera produzida pelo método clássico; e a primeira Aguardente de Maçã da Quinta da Moscadinha.

A história começa, naturalmente, pela maçã. A Madeira conta com cerca de 135 variedades, embora apenas 42 estejam catalogadas, e foi precisamente essa diversidade que esteve na origem da Ancestrale. Durante a apanha de 2023, a equipa da Quinta da Moscadinha foi separando maçãs que não reconhecia entre as variedades normalmente utilizadas nos seus lotes. No final, todas acabaram reunidas numa mesma produção, dando origem a apenas 400 garrafas.
O resultado é uma sidra que pretende ser mais do que uma bebida, mas também uma espécie de retrato da diversidade dos antigos pomares madeirenses. Na segunda fermentação em garrafa foi utilizado o próprio mosto de maçã para o licor de tiragem, uma opção que procura manter a fruta e a sua origem no centro da expressão da sidra. 

QUINTA DA MOSCADINHA ANCESTRALE 2025 | NATURALLY SPARKLING - TRADITIONAL | 8,5 % | PVP 22€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS (98)
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
17,5
Cor amarela em tonalidade dourada, brilhante e atractiva, revelando uma expressão muito própria, oferencendo no aroma, a maçã em diferentes registos, entre fruta fresca e alguma componente mais madura, com notas que lembram pomar e casca de maçã, não fugindo do registo de frescura, mas adicionando riqueza ao bouquet. A boca é seca, tensa e refrescante, com uma acidez bem marcada e bolha, mais uma vez, muito delicada e envolvente, que se mostra sem se sobrepor à fruta. Final longo e prazeroso, mais gastronómica do que simplesmente refrescante, e que beneficia claramente de ser bebida com atenção. 

A segunda novidade levou-me para outro território. Uma sidra de pera, ou perry, produzida a partir de um antigo pomar situado a 1100 metros de altitude, considerado o mais alto da Ilha. Apesar de não ser uma fruta fácil para trabalhar em sidra pois apresenta baixa acidez, poucos nutrientes,  açúcares não fermentáveis e rendimento reduzido, a descoberta deste pomar e de uma variedade que se presume ser Conference, embora já revele sinais de hibridação, levou a Quinta da Moscadinha a experimentar. E em boa hora o fez.  Sem dúvida uma incursão pouco habitual no universo sidreiro madeirense, mas que resulta e, sobretudo, nos mostra uma forma diferente de olhar para outras frutas para além da maça. 

QUINTA DA MOSCADINHA ALTITUDE 2025 | NATURALLY SPARKLING - TRADITIONAL | 8,5 % | PVP 22€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
17
Cor amarelo citrino, bolha fina e persistente, revelando na componente aromática a fruta branca e de pomar, pitada floral e sempre com nota de frescura muito evidente. Na boca é delicada e elegante, secura média, com acidez firme e uma bolha fina, com subtil espuma, que ajuda a prolongar a prova. A pera deixa uma expressão diferente da maçã, menos directa e mais subtil, ligeira doçura, embora equilibrada e com boa persistência final. 

A terceira novidade muda completamente de registo e entra no território dos destilados. A Aguardente de Maçã resulta da destilação de 2500 litros de sidra, que deram origem a apenas 216 litros de aguardente. Depois, passou três anos em barricas usadas de carvalho francês, antes de chegar ao mercado em 504 garrafas numeradas de 500 ml. A Quinta da Moscadinha chama-lhe o primeiro “rum” de maçã da Ilha, embora a própria designação não possa ser utilizada comercialmente, uma vez que “rum agrícola” corresponde a uma denominação protegida. No entanto, mais importante do que o nome é, neste caso, o caminho feito até ao resultado: partir da maçã madeirense, transformá-la em sidra, destilá-la e deixá-la evoluir durante três anos em madeira. O resultado está incrível.

QUINTA DA MOSCADINHA AAGUARDENTE DE MAÇA SC 2023 | DISTILADA | 45,8 % | PVP 120€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
SIDRARIA QUINTA DA MOSCADINHA UNIPESSOAL, LDA
18
Cor âmbar jovem, reflexos dourados, luminosa e atrativa. Plano aromático completamente diferente revelando uma expressão mais quente e profunda, com a fruta madura a surgir acompanhada por notas de madeira, especiarias e uma componente ligeiramente tostada, com o fruto seco torrado em fina aparição, mais complexidade e desafio. Na boca é envolvente, mas mantém uma boa definição, com a maçã a continuar presente por baixo da madeira e do álcool, textura macia e aveludada e com término de boca longo e ligeiramente especiado. Para beber com tempo e apreciar.

Oportunidade ainda para voltar a provar as Quinta da Moscadinha Sparkling e a TN do mesmo lote (2024) já provadas anteriormente e a Quinta da Moscadinha Madeira Royal Cider Meia Doce já de lote mais recente, mas que mantém o mesmo perfil da anterior.

QUINTA DA MOSCADINHA MADEIRA ROYAL CIDER MEIO DOCE 2024 | FORTIFIED | 14 % | PVP 60€
PLURIVARIETAL DE MAÇÃS REGIONAIS
JOSÉ MÁRCIO RODRIGUES DE NÓBREGA UNIPESSOAL, LDA
18
Cor âmbar, ligeiramente mais escura que a anterior, aspecto límpido e atraente.  Revela perfil aromático intenso e envolvente, no qual surgem frutos secos, casca de laranja e compota, acompanhados por notas de madeira e uma discreta componente evolutiva que lhe acrescenta complexidade. Muito similar à anterior. Na boca é doce, mas equilibrada pela acidez, evitando a sensação pesada que poderia resultar do teor de açúcar. A textura é cheia e envolvente, com a madeira a marcar presença sem apagar a expressão da fruta. O final é persistente, quente e novamente marcado pelos frutos secos e pela casca de laranja.

No final percebemos que as três novidades têm em comum a dimensão limitada, mas sobretudo uma mesma filosofia. A de olhar para os pomares antigos não como património estático, mas como matéria viva, capaz de continuar a dar origem a novos produtos. 
É uma abordagem que Márcio Nóbrega tem desenvolvido através da recuperação de pomares antigos e abandonados na Camacha e noutras zonas da ilha, muitas vezes em colaboração com agricultores locais e proprietários de terrenos que estavam sem utilização e, talvez seja essa uma das particularidade mais interessantes pela qual nos apaixonamos por este projecto.
A sidra aqui não aparece isolada da paisagem ou da história. Cruza-se com a recuperação agrícola, com o turismo e com a gastronomia, numa quinta que mantém também uma unidade de sidroturismo com 11 quartos e a Adega do Pomar, restaurante de cozinha tradicional madeirense e portuguesa, liderado pelo chef Fábio Vieira que nos preparou uma ementa de ligação à prova cheia de sentido.

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QUINTA DA MOSCADINHA

Caminho Municipal dos Caboucos, N° 19
9135-378 CAMACHA
Contactos: +351 291 648 170 / 965 734 265

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Monte da Peceguina 2025 Rosé

MONTE DE PECEGUINA 2025 ROSÉ | ALENTEJO | 12,5% | PVP  14,50€
ARAGONEZ, TRINCADEIRA
HERDADE DA MALHADINHA NOVA, SA 
16,5

Os dias continuam longos, quentes e a aceitar que um vinho rosé a privilegiar a expressão da fruta, numa abordagem limpa, directa e fresca, seja companhia bem escolhida tanto para a mesa como para momentos em que apenas apetece beber um bom rosé. Aqui encontro um belo exemplar deste conceito,  particularmente versátil à mesa, mas também, justamente, para qualquer momento. Gosto de o imaginar com peixe grelhado, marisco, ceviches, saladas com alguma complexidade, massas de inspiração mediterrânica ou pratos onde ervas aromáticas e legumes tenham presença. Se a ideia for petiscos e entradas também temos conversa e, sobretudo quando servido fresco, funcionará com naturalidade como vinho de início de refeição.
Cor rosa-claro com tonalidade salmão luminosa e subtil, aspecto límpido, jovem e atractivo. Componente aromática com boa intensidade, marcado pela fruta vermelha fresca, com uma expressão limpa e convidativa, onde a componente frutada surge acompanhada por notas florais e uma sensação de frescura que o torna muito apelativo. Na boca confirma essa leitura, mostrando equilíbrio entre fruta e acidez, com uma textura elegante e uma passagem de boca fresca e envolvente, afastando-se de um registo mais pesado e de exuberância desnecessária, seguindo antes uma combinação de leveza, frescura e precisão que o faz terminar seco, persistente e com vontade de voltar ao copo.