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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Na Palheta Com... Joana Santiago

Para mais uma sessão de Palheta descontraída e após uma bela conversa com o José Baeta, viajámos de Colares até Monção para uma animada conversa com a Joana Santiago da Quinta de Santiago. O conceito foi o mesmo. 10 perguntas, algumas comuns à primeira entrevista, e de forma descontraída conhecer um pouco mais acerca do vinho em Portugal e acerca das pessoas que o fazem.
Poderia tecer alguns comentários prévios, mas vou deixar a Joana falar. Sim porque sempre releio a entrevista parece que a estou a ouvir à minha frente com todo aquele entusiasmo e alegria contagiantes.

Qual a história dos Vinhos da Quinta de Santiago que conhecemos hoje? 
A Quinta de Santiago, em Monção ( Sub-região de Monção e Melgaço) é propriedade da família Santiago desde 1899. Em 2009, da determinação e paixão por vinhos dos filhos e netos e da então proprietária, a Avó “Mariazinha”, nasceu o projeto Quinta de Santiago "boutique winery".
Foi o desafio desta minhota, que dedicou toda a sua vida à vinha e ao vinho, que esteve na génese dos vinhos da Quinta de Santiago. “Quando uma avó empreendedora de 86 anos, cheia de energia e vontade de viver, desafia a família a deixar de vender uva e a criar vinhos com marca própria o que é que a família faz?
O filho e nora, bancário e professora respetivamente reformam-se, a neta, então advogada muda de vida e todos regressam às suas raízes, pela terra e para a terra onde cresceram.” Com o projeto Quinta de Santiago a avó deixou o seu legado e assegurou-se que a família se mantinha unida por uma paixão comum onde a tradição e conhecimentos da geração mais antiga se associou à modernidade e entusiasmo da geração mais jovem, na criação de vinhos autênticos “feitos à moda sua moda”, que refletem a riqueza do terroir e ao mesmo tempo expressam de forma fiel a casta autóctone portuguesa Alvarinho e os sucessivos anos de colheita nos nossos terrenos em terraços aluviais. Apostamos por essa razão numa pequena produção de Alvarinho de 7.5ha como estado de espírito e ideia de negócio focada na qualidade e no respeito pela natureza. Uma filosofia que permite conhecer e controlar apaixonadamente todos os momentos da produção da uva e do vinho, cada videira, cada garrafa, garantindo um produto exclusivo e cuidadosamente criado até ao embalamento. Este é o nosso projeto de vida e é isso que nos motiva a fazer mais e melhor, sempre com autenticidade! Há que descomplicar o vinho e vive-lo mais do que descreve-lo, uma visita à Quinta é por isso uma viagem pelas histórias da família por entre vinhas e vinhos.

Monção e Melgaço é "O Terroir"?
Monção e Melgaço é o terroir de excelência para a produção da casta alvarinho cuja dedicação e experiência secular dos viticultores na produção de monovarietais de alvarinho tornou esta casta extremamente adaptada à sub-região. Dentro da conjugação de fatores humanos e naturais que constituem o terroir, decisivo é o nosso micro-clima. Um território rodeado de montanhas, com alguma influência atlântica permite verões com dias muito quentes e noites frias. Um micro clima de transição atlântico / continental que torna os vinhos aqui produzidos únicos.

A tua energia e sorriso sempre pronto são uma imagem de marca dos vinhos da Quinta de Santiago? 
Quando começamos o nosso projeto sentimos que fazia todo sentido que uma marca tivesse um rosto, o rosto que representaria a nossa família e que os consumidores fossem reconhecendo e criando laços! Afinal de contas esta não era mais uma marca no mercado mas sim a nossa marca, o nosso trabalho, o nosso projeto de vida, o nosso lifestyle, que tanto queríamos partilhar!
Eu minhota de gema e a mais jovem do projeto, passei a ser a imagem de marca da Quinta de Santiago de uma forma muito natural, simplesmente, porque representava a Quinta em todo lado ! Já no que diz respeito à energia, alegria de viver e a positividade, essas nascem ( ou não ) connosco! Eu tive a sorte de ter sido presenteada com essa riqueza. Pode estar um dia cinzento bem escuro, eu vou encontrar sempre um lado solarengo! Pode ser um dia mau, eu vou encontrar sempre algo de positivo! A energia, já diziam os meus amigos de liceu, é inesgotável como a “ formiga atómica” !!
Acresce que, quando mudei o meu percurso de vida da advocacia para o vinho também encontrei uma grande paixão no que faço e, como é óbvio, isso ajuda ao sorriso estampado no rosto quando falo e apresento os nossos vinhos. Esta costela simpática e energética não foi herdada pela “Avó Mariazinha”, mas pela minha mãe ! Quem já a conheceu em eventos bem sabe que ela é a mestre e eu a aprendiz! As duas juntas … um furacão! Hoje é um facto que a imagem da Quinta de Santiago e da Joana Santiago são praticamente indissociáveis e por essa razão, sim a energia e sorriso são uma imagem de marca!

As Mulheres do Vinho estão cada vez mais fortes?
As mulheres do vinho sim, estão cada vez mais fortes, querendo com isto afirmar que têm maior expressão em número no setor, sejam elas enólogas, produtoras, adegueiras, comerciais, gestoras, nas CVR, etc. E se é verdade que o mundo dos vinhos é ainda predominantemente um universo masculino, não é menos certo que há um número crescente de mulheres a fazer a diferença.

Os vinhos em Portugal são baratos?
Considero os vinhos portugueses muito baratos face à qualidade que apresentam e à capacidade de produção do país. De facto, muitos produtores assentaram a sua estratégia em comercializar os seus vinhos com preço baixo (abaixo até do justo valor). Acredito até que não o tenham feito por vontade mas por não terem ainda conseguido vender ao preço mais justo face ao reduzido reconhecimento dos vinhos Portugueses, em relação a outros países com maior e mais longínqua tradição na produção de vinhos.
Uma das nossas preocupações enquanto produtores deve passar sempre por ... Não vender mais mas vender melhor (em qualidade ou em preço) e do nosso país um esforço conjunto de promoção da nossa qualidade e autenticidade.

O Alvarinho é a Casta das Castas brancas? 
O que ainda podemos esperar dela? A casta alvarinho é na minha opinião a casta das castas brancas portuguesas, pela sua versatilidade e longevidade. Reúne trunfos na componente ácida, no volume, na riqueza aromática, complexidade de sabor, corpo e teor alcoólico, para criar vinhos com uma longevidade surpreendente (que vamos começando a perceber). Pela sua versatilidade podemos esperar tudo dela, sempre com uma elegância e complexidade tão própria da casta e conscientes que é uma casta com uma personalidade muito forte, difícil de " domar" e por isso tão desafiante e enriquecedora!

Qual o teu prato preferido para um Alvarinho? 
Vivo perto do mar, adoro peixe fresco acabado de pescar ( um privilégio que o nosso país nos oferece) e por isso nada como um belo peixinho do nosso mar, só “au salt”, uma batatinha a murro com um bom azeite português, alho e legumes da horta!

As redes sociais têm ou podem ter um papel importante na divulgação do vinho em Portugal? 
As redes sociais mudaram a forma como as pessoas se relacionam no mundo. São, sem sombra de dúvida, uma das melhores inovações trazidas pela internet enquanto plataformas de excelente visibilidade para empresas, pessoas e produtos. Desta forma têm no setor, um papel importante na divulgação do vinho, seja porque possibilitam um contato mais direto e personalizado com as suas `` personas`` ao contrário dos modelos de comunicação tradicionais, seja porque criam uma ligação com um público segmentado e interessado. Permitem a expansão do mercado, uma oportunidade para encontrar e interagir com potenciais consumidores/compradores, encontrar e interagir com outras empresas que podem vir a ser parceiros e ainda chegar até aos media! Hoje em dia conseguimos acompanhar o dia a dia de um produtor ou uma marca de vinho quase em tempo real criando uma ligação próxima com as pessoas e marcas!

Onde se podem comprar os vinhos Santiago e se quisermos fazer uma visita diretamente na Quinta como é possível fazê-lo? 
Os vinhos da Quinta de Santiago, sejam eles os Alvarinhos colheita e reserva, o rosé, o espumante de Alvarinho, o alvarinho/loureiro ou o rascunho podem ser encontrados um pouco por todo o país em garrafeiras, lojas gourmet, wine bars e restaurantes, mas com maior predominância em Porto, Aveiro, Coimbra, Lisboa e Algarve. Desta forma sempre que queiram saber onde podem encontra os nossos vinhos, de uma forma rápida e prática, basta mandarem-nos uma mensagem no Instagram, facebook, linkedin ou email ( wine@quintadesantiago.pt) e desde logo informamos a loja mais próxima! Pelas mesmas vias e ainda através do telefone 917557883 podem efetuar, de uma forma descontraída a marcação de uma visita individual ou em grupo! Na quinta serão sempre recebidos pela família ou pela nossa enóloga residente e são vários os programas disponíveis, desde o passeio e visita com prova simples até ao almoço eno--gastronómico, passando pelo piquenique nas vinhas ou prova com tapas locais !

Quando bebes um copo do seu vinho e fechas os olhos em que pensas e que imagens te ocorrem?
Penso em comida porque um não vive sem o outro no meu pensamento! Hehehe ! Na verdade revivo, todo o caminho daquele vinho até ali, todo o processo desde a uva ao vinho e desde a primeira vez que o provei até ao momento em que o estou a beber, passando pelas suas diferentes fases e alguns dos momentos partilhados! São estas imagens e memórias que maior parte das vezes trazem uma bela conversa para a mesa ... o vinho é mesmo isso, uma partilha!

Agradeço à Joana a disponibilidade que teve para me aturar, principalmente numa época aterefada, com Natal e Final de Ano pelo meio.

Fotografia: DR

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Na Palheta Com... José Baeta

José Baeta é a primeira figura do Vinho e da Comida em Portugal a participar nesta nova série de conversas. Serão sempre 10 as perguntas e algumas serão comuns a a todos os entrevistados. No fundo, uma conversa descontraída, para ser levada a sério. O ínicio tinha de ser em Sintra!
Estive à conversa com o José Baeta. O Homem à frente da Adega Viúva Gomes é uma das caras mais conhecidas no que à região de Colares diz respeito. Ninguém fica indiferente à forma apaixonada como fala do vinho desta região e eu não sou excepção.
Os Viúva Gomes são vinhos de carácter único pela especificidade do terroir presente na Região Demarcada de Colares. Uma região caracterizada pela sua exposição a ventos salgados, nevoeiros matinais e solos arenosos com vinhas em pé-franco.

A Adega Viúva Gomes conta já com mais de 200 anos de vida. Qual a história do José Baeta neste longo caminho?
O meu percurso inicial começou pela Engenharia Mecânica e só mais tarde (há cerca de 30 anos) pelo interesse nos vinhos e no legado, decidi dedicar-me, juntamente com o meu pai e com o meu tio, à empresa de família. Um negócio fundado em 1898, inicialmente de vinhos e mercearias no centro de Sintra que, mais tarde, se dedicou exclusivamente aos vinhos. A Adega Viúva Gomes, foi adquirida pela família mais ou menos na altura da minha entrada na empresa, quase em estado de abandono.

O futuro do Vinho de Colares é um tema para horas de discussão. Consegue, de forma resumida, transmitir a sua opinião?
Sim, sem dúvida. É quase impossível prever o futuro, pois há sempre factores que não controlamos. No entanto, tenho a certeza que a região está para durar, dado os esforços de todos os intervenientes, acompanhado por um notável despertar do interesse dos consumidores por estilos diferentes e novas sensações no que toca ao produto que é o vinho. Claro, nunca atingirá as dimensões de um Alentejo ou um Douro, por uma limitação geográfica e até porque, apesar do crescente interesse, o perfil dos vinhos não o permite – serão sempre vinhos de nicho.

Se tivesse de escolher apenas uma casta qual seria? Malvasia de Colares ou Ramisco? Porquê?
Esta é difícil, não consigo eleger uma em detrimento da outra. Ambas apresentam características maravilhosas, embora o Ramisco possa ser mais desafiante pelo estágio que lhe damos a par da evolução que vai apresentando ao longo dos anos.

O consumidor do Vinho de Colares é maioritariamente português ou estrangeiro? 
Actualmente exportamos cerca de 60% da nossa produção, entre vinhos de chão de areia e de solos argilo-calcários. No entanto, a procura ao nível nacional tem aumentado bastante nos últimos anos.

Os vinhos em Portugal são baratos? 
De mais! Por vezes não consigo perceber como é que se faz vinho tão barato. A relação qualidade-preço esta muito muito favorável. Temos imensa sorte.

Os vinhos de Chão Rijo prometem grandes sorrisos nos próximos anos ou já nos conseguem fazer sorrir?
Acho que cada vez nos fazem mais sorridentes, há um potencial enorme. A Viúva Gomes anda aí a preparar umas novidades.

Que sugestões de harmonização à mesa com os vinhos da Adega Viúva Gomes? 
Não sou a melhor pessoa a fazer harmonizações. Gosto muito de acompanhar uma refeição com vinho, sabe sempre muito melhor, mas, pelo menos para mim, desfoca-me do vinho e da comida. De qualquer modo os nossos vinhos estão muito feitos para a gastronomia da região: Um peixe gordo grelhado ou umas amêijoas (ali do Restaurante da Adraga) para os brancos e umas Queijadas de Sintra ou um leitão dos Negrais para os tintos. Então uma queijada com um tinto dos antigos é maravilhoso.

As redes sociais têm ou podem ter um papel importante na divulgação do vinho em Portugal? 
Sem dúvida! Hoje em dia são uma via de comunicação com grande peso em tudo e os vinho não são excepção, pois conseguimos estar mais perto dos nossos clientes e parceiros numa lógica amigável e directa.

Onde se podem comprar os vinhos Viúva Gomes e se quisermos visitar a Adega como é possível fazê-lo? 
Vai ficar alguém esquecido e ainda vou ouvir! Mas assim com maior peso, em Sintra estamos na Garrafeira Incomum, Cantinho Gourmet e Bar do Binho. Em Lisboa, Garrafeira Nacional, Estado d’Alma, Garrafeira de Santos, Garrafeira Internacional e Comida Independente. No Porto, Prova Wine Bar e Tio Pepe.
Também é possível passar aqui na loja da adega, para provas temos o “Open Day” às quartas e ao primeiro Sábado de cada mês.

Quando bebe um copo do seu vinho e fecha os olhos em que pensa e que imagens lhe ocorrem? 
É inevitável não pensar/comparar com anos anteriores e de que forma irá evoluir. Depois disso é “sit back and relax”.

Resta-me agradecer ao José Baeta pela disponibilidade e longa vida para a Adega Viúva Gomes e os vinhos de Colares.