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quinta-feira, 11 de setembro de 2025

A Morcela Doce de Carviçais

Em Carviçais, pequena aldeia pertencente ao município de Torre de Moncorvo que sempre esteve e mantém-se ligada à agricultura, bem como a outras artes e ofícios, como a cestaria e as rendas e bordados, encontramos também uma riqueza gastronómica que, para além da variedade pasteleira, revela o seu expoente máximo na arte do pão e no fumeiro. A morcela doce insere-se neste património único e de excelência.

Contam-me, aqueles que ainda têm memória do passado, que era presença obrigatória no pequeno-almoço ou mata-bicho em dias de trabalhos agrícolas pesados, como a malhada, a apanha da azeitona ou em dia vindima. Funcionava como uma barrita energética dos dias antigos. Doce, com elevado valor energético e saciante complementava a necessidade de disposição física para a labuta. Era também um dos doces preferidos das crianças nos tempos idos. Para além de doce, acabava por ter o mesmo papel nutricional que tinha para os adultos. 

A sua composição muito simples revela a sua proveniência de meios pobres, um pouco como grande parte dos Nossos pratos mais emblemáticos, sendo o pão, o sangue de porco, o açúcar e por vezes a amêndoa os únicos ingredientes usados na sua confecção. Nas casas mais abastadas era frequente a substituição do açúcar por mel, mas nada mais. 

Este enchido, feio, enrugado e com aromas de fumados intenso ao lado de notas doces mantém-se vivo e muito fiel à receita original, devendo ser cozido em água, sem nada mais juntar, durante cerca de 15 minutos. Há quem goste de a comer ainda quente, mas cá em casa tem passagem pelo frio e junta-se à sobremesa com Vinho do Porto Branco e Vinho Madeira. 
Recentemente fiz questão de lhe juntar tanto um como o outro para avaliar qual seria o melhor casamento. De um lado o Kopke Porto Branco Colheita 2003 e do outro o Madeira Blandy’s Bual 10 Anos. Harmonizações perfeitas pela frescura e acidez mais vincadas de ambos e com os salgados do Madeira a conferirem uma camada extra ao momento.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sanchas à Carviçais

As Sanchas são uma espécie de míscaro ou cogumelo que nasce nos pinhais, nas zonas húmidas de musgos e entre estevas e giestas de Carviçais. Evidentemente que também os há em outros locais, mas são os de Carviçais que vos estou a descrever. Assim que caem as primeiras chuvas no Outuno e abre o sol após as mesmas,  em poucos dias é vê-los saltar da terra!
Ora, sabendo muito bem disto, e sendo os meus Pais sabedores desta apanha, pedi-lhes que quando viessem da apanha da azeitona tentassem apanhar alguns para que os pudesse cozinhar. E assim foi. Uma delicia gastronómica do norte de Portugal e que aqui descrevo com alguma pronúncia de Carviçais pois foi a minha Mãe que me passou a receita.

Preparação e confecção:
Limpam-se e lavam-se muito bem as Sanchas, para as libertar da terra e de outras sujidades. Prepara-se um estrugido com azeite, alho e cebola picados e dois a três tomates bem maduros. Coloca-se um pouco de chouriça e presunto, partidos aos quadrados no estrugido e deixa-se alourar. 
De seguida, partem-se as Sanchas aos bocados. Pode-se aproveitar o pé, mas eu usei apenas o chapéu da Sancha. Deitam-se no estrugido que deve ter muito pouca água ou nenhuma e deixa-se apurar com o tacho tapado. Tempera-se de sal a gosto e vai-se acrescentando com água fervente para fazer a calda. Deixar apurar muito bem. Assim ficou e assim os comi à gula e só com pão. Estavam deliciosas.
Em Carviçais costumam cormer-se com batatas ou arroz, mas eu gosto é mesmo assim. Só a deliciosa da Sancha e um cibo de pão para amparar o molho.